domingo, 28 de setembro de 2014

MIRIAM

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Benilson Toniolo

Há os que enumerem seus atores preferidos, atrizes prediletas, personagens, fazem ranking de diretores, colecionem filmes, novelas e trilhas sonoras. Há os que admiram jogadores e treinadores de futebol, preenchem tabelas de campeonatos e tenham guardada na memória,  com inequívoca exatidão, todas as escalações que fizeram a história de glórias e fracassos do seu clube do coração. Sem falar nos que citam de cor, com riqueza de detalhes e em ordem alfabética, os nomes de todas as pessoas (homens ou mulheres, ou mesmo os dois ao mesmo tempo) com quem se envolveu sexualmente durante a vida. Eu também tenho minhas listinhas, que vai de postais a livros, passando por credenciais e CD´s.
Entretanto, jornalista frustrado que sou, tenho afeto especial pelos profissionais da imprensa. E, como todo apaixonado por qualquer assunto, também eu tenho meus apetecimentos. Coleciono artigos, sublinho frases que eles escrevem e que julgo indispensáveis para minha melhor compreensão das coisas, paro o que estou fazendo para ouvir o que dizem quando surgem na tela os rostos de meus queridos –aqueles que, no fundo, eu gostaria de ser quando crescesse. Já cresci e nada construí de substancioso, mas me dedico a enumerar meus preferidos. E gosto de saber-lhes a naturalidade, a filiação, a formação, a história de vida.
Dentre os meus jornalistas preferidos, nunca apareceu o nome de Miriam Leitão, talvez pelo fato de que a economia, área em que ela atua, não esteja entre os assuntos de minha predileção e entendimento. Aliás, até bem pouco tempo, sequer considerava o caderno de Economia do jornal. Hoje, não. Não me aprofundo, pois de conhecimento prévio e técnico careço, mas também não ignoro. Informação continua sendo o que diferencia os homens em nossos dias úteis. Num futuro bem próximo, estar bem informado será equivalente a ter concluído o ensino superior. Exagero? Veremos.
Recentemente, notícias relacionadas a Miriam Leitão me fizeram deitar um olhar mais demorado e atento sobre sua biografia. O primeiro fato a causar espécie foi o fato de seu nome constar de uma suposta lista de dez jornalistas “indesejáveis” elaborada no sub-mundo do Palácio do Planalto. Ora, se o valor de um homem também pode ser medido pela qualidade das inimizades que amealhou durante sua caminhada, podemos entender que figurar numa espécie de “lista negra” do PT, apenas pelo cumprimento de sua função, que no caso de Miriam é o de trazer ao povo brasileiro a verdade sobre o que se passa na economia de seu país,  é equivalente a ganhar um Oscar.  Ser mal visto pelo PT é um atestado de idoneidade e tanto.
A segunda notícia tem ligação direta com a primeira. Um usuário de um dos computadores do Palácio do Planalto usou a rede de internet oficial para alterar os dados de Miriam na wikipedia, a enciclopédia da rede mundial. Entre os dados suprimidos, estava o fato de Miriam ter sido presa e torturada durante o regime militar. Ou seja, um servidor do governo federal, durante o seu horário de expediente, tentou retirar da biografia de Miriam um fato que ela sofreu na carne, e que ela há de levar para sempre, e cuja dor há de ecoar por suas gerações: a dor de ter sido espancada, violada e violentada pelas forças de governo de seu próprio país. A motivação do fraudador de biografias? O fato de Miriam dizer a verdade sobre os rumos de nossa economia estagnada e deficitária, em contraponto ao mar de rosas (ou céu de brigadeiro, tanto faz qual a expressão popular de que o Governo lança mão para tentar enganar a nós todos) apregoada pela voz oficial corrente.
Se o fato acima tem relação com o anterior, o próximo está também diretamente ligado a ambos. Trata-se de detalhes da tortura sofrida por Miriam quando foi presa, tornados públicos pela imprensa nacional no último final de semana. Presa enquanto caminhava, grávida, ao lado do namorado estudante de medicina em uma praia de Vitória, no início dos anos 1970, ela foi violentamente agredida por todo o corpo, esteve muito próximo de ser vítima de estupro coletivo e ficou trancada durante horas em um quarto escuro na companhia de uma serpente, uma jiboia que ela não sabia onde exatamente se encontrava –só sabia que estava lá, no mesmo quarto onde nada podia ver.
Miriam foi premiada com o Jabuti 2012 pelo livro Saga, que conta a história da estabilidade econômica alcançada pelo Brasil a partir de 1994 e que nos livrou definitivamente da inflação. Isto é, havia nos livrado, não fosse o fato de Dilma Roussef e seu governo estapafúrdio ter nos trazido de volta esta praga que tanto atraso traz ao País. Dilma, como todos sabemos, já entrou para a história como a primeira (e esperemos, última) presidente pós-ditadura a entregar o governo numa situação pior do que quando entrou.
 Além de tudo, Miriam também é autora de livros infantis, conforme fiquei sabendo ontem, durante o bate-papo de quase uma hora dela com alunos da rede municipal de ensino da cidade de Monteiro Lobato, por ocasião da quinta edição do Festival de Literatura Infantil da simpática e pequenina cidade vale-paraibana. Miriam riu, contou histórias, falou dos netos, da literatura, da importância do Sítio do Pica-Pau Amarelo em sua trajetória de vida e do amor pelos passarinhos, em especial dos passarinhos de sua Minas Gerais, retratados em sua obra de maneira tão lúdica e encantadora.
Nem os militares com seus coturnos com ponta de ferro a açoitar sua barriga de jovem grávida, nem as mãos grosseiras a ferir-lhe o corpo, nem a agonia de dividir um quarto escuro com uma serpente posta ali pelos torturadores e nem a injustiça e a covardia de governantes desleais e corruptos foram, e nem são, capazes de macular a trajetória de uma brasileira que nasceu sob o signo da denúncia e se dedica a trazer luz ao enlameado e obscuro mundo de falsas verdades que permeia a voz oficial do Brasil.

Bem vinda, pois, Miriam, ao meu seleto grupo de “admiráveis” –o que não quer dizer rigorosamente nada, mas me deixa feliz à beça.

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