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Benilson Toniolo
Há os que enumerem seus atores
preferidos, atrizes prediletas, personagens, fazem ranking de diretores,
colecionem filmes, novelas e trilhas sonoras. Há os que admiram jogadores e
treinadores de futebol, preenchem tabelas de campeonatos e tenham guardada na
memória, com inequívoca exatidão, todas
as escalações que fizeram a história de glórias e fracassos do seu clube do
coração. Sem falar nos que citam de cor, com riqueza de detalhes e em ordem
alfabética, os nomes de todas as pessoas (homens ou mulheres, ou mesmo os dois
ao mesmo tempo) com quem se envolveu sexualmente durante a vida. Eu também
tenho minhas listinhas, que vai de postais a livros, passando por credenciais e
CD´s.
Entretanto, jornalista frustrado que
sou, tenho afeto especial pelos profissionais da imprensa. E, como todo
apaixonado por qualquer assunto, também eu tenho meus apetecimentos. Coleciono
artigos, sublinho frases que eles escrevem e que julgo indispensáveis para
minha melhor compreensão das coisas, paro o que estou fazendo para ouvir o que
dizem quando surgem na tela os rostos de meus queridos –aqueles que, no fundo,
eu gostaria de ser quando crescesse. Já cresci e nada construí de substancioso,
mas me dedico a enumerar meus preferidos. E gosto de saber-lhes a naturalidade,
a filiação, a formação, a história de vida.
Dentre os meus jornalistas preferidos,
nunca apareceu o nome de Miriam Leitão, talvez pelo fato de que a economia,
área em que ela atua, não esteja entre os assuntos de minha predileção e
entendimento. Aliás, até bem pouco tempo, sequer considerava o caderno de
Economia do jornal. Hoje, não. Não me aprofundo, pois de conhecimento prévio e
técnico careço, mas também não ignoro. Informação continua sendo o que
diferencia os homens em nossos dias úteis. Num futuro bem próximo, estar bem
informado será equivalente a ter concluído o ensino superior. Exagero? Veremos.
Recentemente, notícias relacionadas a
Miriam Leitão me fizeram deitar um olhar mais demorado e atento sobre sua
biografia. O primeiro fato a causar espécie foi o fato de seu nome constar de
uma suposta lista de dez jornalistas “indesejáveis” elaborada no sub-mundo do
Palácio do Planalto. Ora, se o valor de um homem também pode ser medido pela
qualidade das inimizades que amealhou durante sua caminhada, podemos entender
que figurar numa espécie de “lista negra” do PT, apenas pelo cumprimento de sua
função, que no caso de Miriam é o de trazer ao povo brasileiro a verdade sobre
o que se passa na economia de seu país,
é equivalente a ganhar um Oscar.
Ser mal visto pelo PT é um atestado de idoneidade e tanto.
A segunda notícia tem ligação direta com
a primeira. Um usuário de um dos computadores do Palácio do Planalto usou a
rede de internet oficial para alterar os dados de Miriam na wikipedia, a
enciclopédia da rede mundial. Entre os dados suprimidos, estava o fato de
Miriam ter sido presa e torturada durante o regime militar. Ou seja, um servidor
do governo federal, durante o seu horário de expediente, tentou retirar da
biografia de Miriam um fato que ela sofreu na carne, e que ela há de levar para
sempre, e cuja dor há de ecoar por suas gerações: a dor de ter sido espancada,
violada e violentada pelas forças de governo de seu próprio país. A motivação
do fraudador de biografias? O fato de Miriam dizer a verdade sobre os rumos de
nossa economia estagnada e deficitária, em contraponto ao mar de rosas (ou céu
de brigadeiro, tanto faz qual a expressão popular de que o Governo lança mão para
tentar enganar a nós todos) apregoada pela voz oficial corrente.
Se o fato acima tem relação com o
anterior, o próximo está também diretamente ligado a ambos. Trata-se de detalhes
da tortura sofrida por Miriam quando foi presa, tornados públicos pela imprensa
nacional no último final de semana. Presa enquanto caminhava, grávida, ao lado
do namorado estudante de medicina em uma praia de Vitória, no início dos anos
1970, ela foi violentamente agredida por todo o corpo, esteve muito próximo de
ser vítima de estupro coletivo e ficou trancada durante horas em um quarto
escuro na companhia de uma serpente, uma jiboia que ela não sabia onde
exatamente se encontrava –só sabia que estava lá, no mesmo quarto onde nada
podia ver.
Miriam foi premiada com o Jabuti 2012
pelo livro Saga, que conta a história da estabilidade econômica alcançada pelo
Brasil a partir de 1994 e que nos livrou definitivamente da inflação. Isto é,
havia nos livrado, não fosse o fato de Dilma Roussef e seu governo estapafúrdio
ter nos trazido de volta esta praga que tanto atraso traz ao País. Dilma, como
todos sabemos, já entrou para a história como a primeira (e esperemos, última)
presidente pós-ditadura a entregar o governo numa situação pior do que quando
entrou.
Além de tudo, Miriam também é autora de livros
infantis, conforme fiquei sabendo ontem, durante o bate-papo de quase uma hora
dela com alunos da rede municipal de ensino da cidade de Monteiro Lobato, por
ocasião da quinta edição do Festival de Literatura Infantil da simpática e
pequenina cidade vale-paraibana. Miriam riu, contou histórias, falou dos netos,
da literatura, da importância do Sítio do Pica-Pau Amarelo em sua trajetória de
vida e do amor pelos passarinhos, em especial dos passarinhos de sua Minas
Gerais, retratados em sua obra de maneira tão lúdica e encantadora.
Nem os militares com seus coturnos com
ponta de ferro a açoitar sua barriga de jovem grávida, nem as mãos grosseiras a
ferir-lhe o corpo, nem a agonia de dividir um quarto escuro com uma serpente posta ali pelos torturadores e
nem a injustiça e a covardia de governantes desleais e corruptos foram, e nem
são, capazes de macular a trajetória de uma brasileira que nasceu sob o signo
da denúncia e se dedica a trazer luz ao enlameado e obscuro mundo de falsas
verdades que permeia a voz oficial do Brasil.
Bem vinda, pois, Miriam, ao meu seleto
grupo de “admiráveis” –o que não quer dizer rigorosamente nada, mas me deixa
feliz à beça.

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