domingo, 28 de setembro de 2014

TEMPO DA POESIA

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Benilson Toniolo
O dorso branco da árvore sobre o rio repousa sobre o infinito.
Há em tudo a espera frágil do Tempo: as leves cortinas alçam seu voo aprisionado sobre a tarde lenta.
O mesmo sorriso de todo-o-dia.
Ela dorme, ou apenas repousa seu tronco, e os dois galhos superiores e desertos se cruzam a  sustentar-lhe a cabeleira de folhas negras e amorosas.
Os galhos inferiores distraidamente se entreabrem e degustam a brisa da tarde, e o breve arrepio  das coxas à nuca insinuam que a manhã já se foi, o dia pleno se despede e a tarde prepara as vestes do mundo para a imensidão da primeira lua depois que ela adormeceu.
Nem só de amor, nós vivemos.
Ela, a árvore, meneia o rosto e me olha. Ainda uma vez sorri, e sem mais gesto algum oferece seu tronco –assim mesmo, boiando, de costas e azulada como uma estrela de amuos e opacidades- para que eu registre com a tinta invisível do indicador direito o desenho de uma palavra.
Obedeço.
E eternizo na primeira curva a oração “silêncio”. O rio agora se move molemente em direção à úmida margem, levando consigo o tronco que conduz.
O que faço residir na segunda curva é o  “poema”, inédito e indizível. O rio estanca, espera que o  verso vaze todo seu sumo, e um novo arrepio das coxas à nuca anuncia que estamos sozinhos, eu e a árvore, sobre o rio.
Arrisco um “ sonho”, que apago, pois este momento requer um caminhar mais amargo.
Deito sobre a epiderme da terceira margem o signo do “tempo” e, na quarta, componho a canção “mar e montanha”. Há espaço.
Mas nem só de amor vivemos, e arrisco na última curva a sentença da “espera”.
Ela adivinha, fecha os olhos de onde o rio precipita a primeira gota de chuva, enquanto a árvore se move em soluços carregados pelas pedras que transportamos até aqui, por estradas poeirentas e distintas, provenientes de caminhos diferentes, mas que o Amor trouxe a dar no mesmo sítio.
Entre uma e outra guerra há poetas que discutem política, e o que vai nos jornais é maior que a sabiá que do pinheiro espreita o muro.
O aparelho celular desligado parece querer voltar à vida de todo dia.
As cortinas se aquietam pensativas.
E nada mais nos resta a não ser morrermos abraçados enquanto não começa a primavera.   

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