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Benilson Toniolo
O dorso branco da árvore sobre o rio
repousa sobre o infinito.
Há em tudo a espera frágil do Tempo: as
leves cortinas alçam seu voo aprisionado sobre a tarde lenta.
O mesmo sorriso de todo-o-dia.
Ela dorme, ou apenas repousa seu tronco,
e os dois galhos superiores e desertos se cruzam a sustentar-lhe a cabeleira de folhas negras e
amorosas.
Os galhos inferiores distraidamente se
entreabrem e degustam a brisa da tarde, e o breve arrepio das coxas à nuca insinuam que a manhã já se
foi, o dia pleno se despede e a tarde prepara as vestes do mundo para a
imensidão da primeira lua depois que ela adormeceu.
Nem só de amor, nós vivemos.
Ela, a árvore, meneia o rosto e me olha.
Ainda uma vez sorri, e sem mais gesto algum oferece seu tronco –assim mesmo,
boiando, de costas e azulada como uma estrela de amuos e opacidades- para que
eu registre com a tinta invisível do indicador direito o desenho de uma
palavra.
Obedeço.
E eternizo na primeira curva a oração
“silêncio”. O rio agora se move molemente em direção à úmida margem, levando
consigo o tronco que conduz.
O que faço residir na segunda curva é
o “poema”, inédito e indizível. O rio
estanca, espera que o verso vaze todo
seu sumo, e um novo arrepio das coxas à nuca anuncia que estamos sozinhos, eu e
a árvore, sobre o rio.
Arrisco um “ sonho”, que apago, pois
este momento requer um caminhar mais amargo.
Deito sobre a epiderme da terceira
margem o signo do “tempo” e, na quarta, componho a canção “mar e montanha”. Há
espaço.
Mas nem só de amor vivemos, e arrisco na
última curva a sentença da “espera”.
Ela adivinha, fecha os olhos de onde o
rio precipita a primeira gota de chuva, enquanto a árvore se move em soluços
carregados pelas pedras que transportamos até aqui, por estradas poeirentas e
distintas, provenientes de caminhos diferentes, mas que o Amor trouxe a dar no
mesmo sítio.
Entre uma e outra guerra há poetas que
discutem política, e o que vai nos jornais é maior que a sabiá que do pinheiro
espreita o muro.
O aparelho celular desligado parece
querer voltar à vida de todo dia.
As cortinas se aquietam pensativas.
E nada mais nos resta a não ser
morrermos abraçados enquanto não começa a primavera.

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