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Benilson Toniolo
Meu amigo Carlão fez
aniversário e no dia seguinte o convidei para um café na Abernéssia. Uma das
melhores coisas de se morar em Campos do Jordão é esta possibilidade de
contatos quase diários com os amigos. A gente para no meio do expediente, toma
um café, conversa, de repente um outro amigo chega, participa do papo, e em
quinze minutos a gente resolve todos os problemas conhecidos e parte dos
desconhecidos também –se não do mundo, pelo menos da cidade.
Chegando, dou-lhe um abraço de sinceras
felicitações e um livro do Pondé –coisas que a gente só faz com quem a gente
gosta muito, uma espécie de brinde à inteligência das pessoas. Carlão é desses
sujeitos que, se um dia a amizade acabar por qualquer motivo, quem sai perdendo
é a gente.
Ele contava que ganhara de
presente um CD com a Maria Callas cantando árias célebres, entre elas a Morte
da Isolda, de Wagner, uma de suas preferidas e que ele não ouvia há um tempão. Falou do telefonema dos parentes, das
mensagens dos colegas, de como ficou ouvindo o CD até tarde, dos abraços da
mulher ao longo do dia, do bolinho que ela comprara no supermercado, do vinho
chileno que eles abriram para brindar mas que ela disse na verdade preferir
“aquele docinho da Serra Gaúcha” e de como, neste dia, ele fica comovido ao
lembrar dos pais que já se foram. O Carlão é daquele tipo de gente que, à
medida que envelhece, vai ficando mais interessante. É assim com certas
pessoas. À medida que o tempo passa, vão revelando o que são por dentro. E o
Carlão, além de ser gente finíssima, dono de uma cultura notável e um gosto
artístico apurado, é um sujeito simples, pouco afeito a etiquetas sociais e que
se revelava, a cada dia, um sentimental de primeira.
E a prova disso foi uma mensagem
que o filho de dezessete anos postou no facebook acerca do aniversário do pai.
Carlão tirou o celular do bolso, acessou o site, encontrou o texto e me
mostrou. O menino fazia uma declaração de amor em que mencionava as qualidades
do pai, seu temperamento, sua sabedoria e ensinamentos, a sorte que ele tinha
em ser seu filho e o desejo de que o pai vivesse ainda por muito tempo.
Terminava deixando um beijo no “maior pai de todos”. Lindo, eu disse, que
alegria, Carlão, parabéns. Isso aí é colheita, meu amigo. Mas o Carlão não
sabia se era isso. Estava tudo muito bem, tudo muito bom, mas algo não estava
correto.
- Que que é, Carlão?
- Eu queria que ele tivesse
falado tudo isso pra mim, entendeu? Não postar na rede social, para todo mundo
ver. Queria que ele tivesse me falado tudo isso depois de um grande e apertado
abraço, ou no meio dele, e me falasse tudo isso aí olhando no meu olho. Na
verdade, nem sei se eu sou tudo isso aí que ele escreveu. Ele nem precisava
falar tudo isso. Só um abraço e um “parabéns, pai” já seria muito bom.
Silencei por um instante.
Estranhamente, o doce do café ia amargando.
- Mas ele não te deu um abraço de
aniversário?
- Deu nada. Nem falou comigo.
Ficou o dia inteiro trancado no quarto, acho que jogando videogame, entrando no
internet, assistindo a shows no youtube. A mãe disse que ele estava estudando.
Pode ser. Perto da hora do almoço saí para comprar refrigerantes e quando
voltei ele tinha ido almoçar na casa de uma namorada, que na verdade eu não sei
nem quem é.
- E quando voltou?
- Quando voltou, ele foi até a
sala, onde eu estava, apertou minha mão e disse algo como “parabéns”. Acho que
foi isso. Depois se trancou de novo.
- Mas então não foi tão ruim
assim, ué!
- Mas não estou dizendo que foi
ruim. Longe disso. Eu só não queria que tivesse sido desse jeito.
Ponderei: olha, Carlão, hoje em
dia é assim mesmo, as pessoas se falam muito pouco, é muito diferente da nossa
época, é tudo virtual, esquece essa neura e pensa nas palavras que teu filho
disse, olha quanta coisa bonita, todas as pessoas que leram a postagem sabem
que ele te ama, te admira, tem orgulho de ser seu filho. A diferença é que ao
invés de falar, ele escreveu e botou na rede social. Mas o efeito é o mesmo,
com a vantagem de que todo mundo leu. Hoje em dia é assim mesmo, é um caminho
sem volta, a internet promoveu uma profunda mudança no comportamento das
pessoas e nós, que somos de uma geração anterior que preza o relacionamento
–olha só a gente aqui tomando cafezinho e batendo papo- acaba sentindo um
pouco. Mas é questão de se habituar, fica frio. Teu filho faz parte dessa
geração nova que está aí, meu amigo. O que importa é o sentimento, e não a
forma como ele escolheu para expressar o que sente por você. E blá, e blá, e
blá...
O Carlão ouviu tudo quieto, falou
do campeonato brasileiro que estava quase no fim e pediu licença, que ainda
tinha coisas pra fazer antes de buscar a esposa na saída do trabalho. Um vento
quente subiu a serra e foi tomando conta da cidade, anunciando uma chuva que a
gente estava pedindo faz tempo. E o Carlão saiu apressado, no meio do povo,
levando consigo seu amor pelos filhos, pela esposa, pelos livros, pela música e
uma saudade imensa de um tempo que sobrevive apenas no fundo do seu coração.
Gente boníssima, esse meu amigo.

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