sábado, 27 de setembro de 2014

O ANIVERSÁRIO DO CARLÃO


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Benilson Toniolo

Meu amigo Carlão fez aniversário e no dia seguinte o convidei para um café na Abernéssia. Uma das melhores coisas de se morar em Campos do Jordão é esta possibilidade de contatos quase diários com os amigos. A gente para no meio do expediente, toma um café, conversa, de repente um outro amigo chega, participa do papo, e em quinze minutos a gente resolve todos os problemas conhecidos e parte dos desconhecidos também –se não do mundo, pelo menos da cidade. 
Chegando, dou-lhe um abraço de sinceras felicitações e um livro do Pondé –coisas que a gente só faz com quem a gente gosta muito, uma espécie de brinde à inteligência das pessoas. Carlão é desses sujeitos que, se um dia a amizade acabar por qualquer motivo, quem sai perdendo é a gente.
Ele contava que ganhara de presente um CD com a Maria Callas cantando árias célebres, entre elas a Morte da Isolda, de Wagner, uma de suas preferidas e que ele não ouvia há um tempão.  Falou do telefonema dos parentes, das mensagens dos colegas, de como ficou ouvindo o CD até tarde, dos abraços da mulher ao longo do dia, do bolinho que ela comprara no supermercado, do vinho chileno que eles abriram para brindar mas que ela disse na verdade preferir “aquele docinho da Serra Gaúcha” e de como, neste dia, ele fica comovido ao lembrar dos pais que já se foram. O Carlão é daquele tipo de gente que, à medida que envelhece, vai ficando mais interessante. É assim com certas pessoas. À medida que o tempo passa, vão revelando o que são por dentro. E o Carlão, além de ser gente finíssima, dono de uma cultura notável e um gosto artístico apurado, é um sujeito simples, pouco afeito a etiquetas sociais e que se revelava, a cada dia, um sentimental de primeira.
E a prova disso foi uma mensagem que o filho de dezessete anos postou no facebook acerca do aniversário do pai. Carlão tirou o celular do bolso, acessou o site, encontrou o texto e me mostrou. O menino fazia uma declaração de amor em que mencionava as qualidades do pai, seu temperamento, sua sabedoria e ensinamentos, a sorte que ele tinha em ser seu filho e o desejo de que o pai vivesse ainda por muito tempo. Terminava deixando um beijo no “maior pai de todos”. Lindo, eu disse, que alegria, Carlão, parabéns. Isso aí é colheita, meu amigo. Mas o Carlão não sabia se era isso. Estava tudo muito bem, tudo muito bom, mas algo não estava correto.
- Que que é, Carlão?
- Eu queria que ele tivesse falado tudo isso pra mim, entendeu? Não postar na rede social, para todo mundo ver. Queria que ele tivesse me falado tudo isso depois de um grande e apertado abraço, ou no meio dele, e me falasse tudo isso aí olhando no meu olho. Na verdade, nem sei se eu sou tudo isso aí que ele escreveu. Ele nem precisava falar tudo isso. Só um abraço e um “parabéns, pai” já seria muito bom.
Silencei por um instante. Estranhamente, o doce do café ia amargando.
- Mas ele não te deu um abraço de aniversário?
- Deu nada. Nem falou comigo. Ficou o dia inteiro trancado no quarto, acho que jogando videogame, entrando no internet, assistindo a shows no youtube. A mãe disse que ele estava estudando. Pode ser. Perto da hora do almoço saí para comprar refrigerantes e quando voltei ele tinha ido almoçar na casa de uma namorada, que na verdade eu não sei nem quem é.
- E quando voltou?
- Quando voltou, ele foi até a sala, onde eu estava, apertou minha mão e disse algo como “parabéns”. Acho que foi isso. Depois se trancou de novo.
- Mas então não foi tão ruim assim, ué!
- Mas não estou dizendo que foi ruim. Longe disso. Eu só não queria que tivesse sido desse jeito.
Ponderei: olha, Carlão, hoje em dia é assim mesmo, as pessoas se falam muito pouco, é muito diferente da nossa época, é tudo virtual, esquece essa neura e pensa nas palavras que teu filho disse, olha quanta coisa bonita, todas as pessoas que leram a postagem sabem que ele te ama, te admira, tem orgulho de ser seu filho. A diferença é que ao invés de falar, ele escreveu e botou na rede social. Mas o efeito é o mesmo, com a vantagem de que todo mundo leu. Hoje em dia é assim mesmo, é um caminho sem volta, a internet promoveu uma profunda mudança no comportamento das pessoas e nós, que somos de uma geração anterior que preza o relacionamento –olha só a gente aqui tomando cafezinho e batendo papo- acaba sentindo um pouco. Mas é questão de se habituar, fica frio. Teu filho faz parte dessa geração nova que está aí, meu amigo. O que importa é o sentimento, e não a forma como ele escolheu para expressar o que sente por você. E blá, e blá, e blá...

O Carlão ouviu tudo quieto, falou do campeonato brasileiro que estava quase no fim e pediu licença, que ainda tinha coisas pra fazer antes de buscar a esposa na saída do trabalho. Um vento quente subiu a serra e foi tomando conta da cidade, anunciando uma chuva que a gente estava pedindo faz tempo. E o Carlão saiu apressado, no meio do povo, levando consigo seu amor pelos filhos, pela esposa, pelos livros, pela música e uma saudade imensa de um tempo que sobrevive apenas no fundo do seu coração. Gente boníssima, esse meu amigo.


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