domingo, 28 de setembro de 2014

CRER

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Benilson Toniolo

Não almoçava há pelo menos três dias. Quando abriu os olhos naquela manhã de domingo, já sabia que o jejum forçado se estenderia por, pelo menos, mais  vinte e quatro horas. Na véspera, tomara um café pela manhã, quando ainda o comércio do centro funcionava. Depois do meio-dia, nada. Havia se recolhido pouco depois e dormira um pouco. Por volta de cinco da tarde, tomou o banho gelado do chuveiro da casa em que sozinho habitava, armou-se da pasta do consórcio e saiu à rua. Já o haviam alertado para que não circulasse à noite pela Presidente Kennedy, que era perigoso, ponto de travestis, traficantes, puttanas. Mas ele foi, confiante de que naquela noite de sábado venderia um consórcio e receberia a primeira parcela à vista. Até as putas compram consórcio, certamente sonham com um carro, um vídeo-cassete, uma linha telefônica. Puta também sonha, afinal de contas. Saiu da casa na Riachuelo, desceu três quadras, chegou na avenida. Direita ou esquerda? Esquerda, sempre esquerda, apesar de se considerar de centro com tendência à direita. Mas ali ele era esquerda. Continuou caminhando, a pasta sob o braço, sozinho, aparentando pressa, homem deslocado no início da noite de sábado a caminho de um negócio. Prédios comerciais, oficinas, bares, uma padaria, funilaria, salão de cabeleireiro, garagem, tudo fechado. Cheiro de diesel. Na primeira esquina, um posto de gasolina sem clientes, dois empregados encostados em uma bomba conversavam e o encararam de longe, quando passou. Assaltante, devem ter pensado, sozinho e a  pé naquela escuridão, provavelmente trazia um revólver dentro da pasta. Passou por eles de cabeça baixa. Não olhou para trás. A fome desaparecera. Começava pela hora do almoço, depois sumira. Acordou com a barriga roncando, bebeu água da torneira, a fome sumiu de novo e não voltara. Se eu vender um consórcio hoje e receber a primeira parcela à vista, faço um lanche e na hora de prestar contas na segunda-feira digo que precisei do dinheiro para uma emergência médica. Digo que comprei remédios pra sinusite, gastrite, dor de cabeça. Peço ainda pra me adiantar a comissão da venda e descontar o que peguei. A calçada cheirava a óleo e gasolina. O céu escureceu de vez e a noite soprava um vento quente: chuva para amanhã. Presidente Kennedy movimentada, mais tarde haveria show de pagode no Independente, ele detestava pagode. Passou defronte a um hospital e seguiu caminhando sem saber para onde. Alguns metros adiante, um estalo. Porra, o hospital. Um monte de gente trabalhando. E àquela hora provavelmente o plantão estaria ainda calmo. Os acidentados, os atropelados, os suicidas e os violentados só costumam aparecer mais tarde, quando os efeitos do álcool e da cocaína já avançaram. Arquitetou seu plano e voltou. Entrou, cumprimentou o funcionário da portaria e dirigiu-se ao balcão da recepção, onde travou o seguinte diálogo com a recepcionista: Boa noite. Boa noite. Meu nome é Antonio Alvarenga, muito prazer. Sou representante do Consórcio Alfa e fui autorizado pelo doutor Paulo a vir aqui hoje a esta hora para apresentar nossos planos diferenciados de compras aos funcionários do hospital. Autorizado por quem, moço? Pelo doutor Paulo. Ele comprou quatro consórcios de nossa empresa, pedi autorização para demonstrar o plano para a equipe e ele disse que tudo bem, desde que fosse sábado, neste horário. Doutor Paulo? Sim, o doutor Paulo. O doutor Paulo pediatra? Bom, não sei se ele é pediatra, desconheço a especialidade dele. Eu até nem queria vir, veja, trata-se de um sábado à noite e minha família está toda reunida em um churrasco de batizado de minha sobrinha, mas trabalho é trabalho, você sabe, e acabei vindo. Posso entrar? Um momento, por favor. A recepcionista pegou o telefonou e discou o número um e o número dois, doze, portanto, e ele percebeu que ninguém atendeu. Ela depôs o fone, coçou ligeiramente a cabeça e disse Bom, se o doutor Paulo autorizou, o senhor pode entrar. Mas se chegar alguma emergência o senhor vai ter que sair. Claro, entendo perfeitamente, creio que posso começar por este corredor à frente. Sim, é este mesmo, só não suba as escadas porque a partir do primeiro andar ficam os pacientes internados, aqui no térreo é que ficam os consultórios. Muito obrigado. Por nada. Golpe perfeito. Em todo lugar tem alguém que responde pelo nome de Paulo. E doutor Paulo, estando-se em um hospital, é uma certeza. A excitação da genial mentira fez voltar a fome. O cheiro forte de comida que tomava conta de tudo, entretanto, causou-lhe náusea. Na primeira porta que encontrou entreaberta, duas senhoras negras e vestidas de branco conversavam. Intimidou-se. Boa noite. Boa noite. Continuou caminhando, uma jovem sentada fazia anotações. Não atrapalharia. Boa noite. Boa noite. Chegou ao fim do corredor, voltou, fez o caminho de volta e no fim do corredor deu com uma escada, e desceu os degraus até chegar á garagem, vazia e escura. Uma porta aberta e uma voz de mulher que cantava. Aproximou-se. Era a lavanderia, e uma senhora também negra como as que havia na primeira porta o recebeu com um sorriso. Ele se apresentou, apertou-lhe a mão, ficou de pé no balcão e explicou todas as vantagens do plano de consórcios. Ela agradeceu, disse que era tudo muito bom e ele teve vergonha de fazer a pergunta final: Posso preencher o contrato? Agradeceu pela atenção e saiu pela porta da garagem, tomando cuidando para não ser atropelado por alguma ambulância que eventualmente pudesse trazer, a toda velocidade, um drogado, um assassinado, um esfaqueado, um atropelado, um suicida. Voltou para casa e, antes de se lembrar de sentir fome outra vez, adormeceu ouvindo João Gilberto no walk-man.
Agora era domingo, havia sol lá fora (ele podia ver pelas frestas da veneziana), ele havia acabado de despertar e sentia muita fome. Quarto dia sem uma moeda no bolso. Quarto dia sem comida. Podia ir à Santa Casa, simular um mal-estar, dar-lhe-iam um fortificante, uma vitamina, uma comida. Pensou na família, pai e mãe, cuja casa ele havia deixado para tentar a sorte como representante comercial em uma empresa nova de consórcios que prometia revolucionar o mercado. Morava nos fundos da empresa. Não havia salário, apenas a comissão pelas vendas. Permitiram-lhe residir temporariamente na edícula existente nos fundos. Devia cuidar do imóvel em troca de poder residir ali. Omitiu tudo de todos. Não poderia assumir perante a família que havia cometido um erro. Outro erro. Ficaria ali por mais alguns dias na tentativa de, pelo menos, fazer umas duas ou três vendas que lhe permitissem passar o final de semana em casa com dinheiro no bolso. Depois voltaria, gastaria o que ainda restava da sola do único sapato, empaparia a camisa de seda com o suor de suas caminhadas sob o sol em busca de pessoas que alimentassem o sonho de obter coisas novas (uma tevê, um forno de micro-ondas, uma filmadora, um vídeo-cassete, um aparelho de som três-em-um) mas que não tinham dinheiro vivo. Para eles, só havia uma solução: adquirir um carnê de consórcio. E era o que ele tinha para vender. Era questão de sorte. Bastava saber vender para quem quisesse comprar. Mas isso era a partir de amanhã. Naquela hora ele sofria uma grande dor, que atendia pelo nome de fome. E a fome o atacava com voracidade, uma voracidade lenta e definitiva. Seria um dia a mais sem comer. Amanhã pediria a algum colega de vendas que o convidasse para almoçar em sua casa. Mais um dia sem comer ele talvez agüentasse. Pensou novamente em bater na Santa Casa. Se ficasse em observação por algumas horas poderia receber comida. Sentia sono, e sentia fome. Olhou o relógio: nove e cinqüenta. Fez as contas: se voltasse a dormir às nove da noite, seriam menos de doze horas sem comida. Afastou as cobertas, levantou-se do colchão, foi ao banheiro, urinou, penteou os cabelos e escovou os dentes. Bebeu água da torneira. Calor. Pensou que poderia ficar de plantão na esquina da padaria que havia no fim da rua. Pensou em fazer um cartaz: adquira seu consórcio aqui. Plantão de vendas. Mas plantão de vendas num domingo, na porta da padaria, ele de pé segurando uma pasta e dando bom dia para as pessoas que entravam segurando uma bolsa e saiam com a mesma bolsa, um pacote de pães fresquinhos e quentinhos e um ou dois litros de leite? Um plantão de vendas requer uma mesa, um escritório com ar refrigerado, cadeiras para que os clientes se sentem e se acomodem, pastas de documentos, um aparelho telefônico, som ambiente, panfletos. Um sujeito parado, em pé, na esquina de uma padaria, oferecendo consórcios para os transeuntes, pode até ser denunciado e preso por vadiagem, estelionato, essas coisas. Mas nada o impedia, por exemplo, de procurar um clube e pedir autorização. Pensou na aventura no hospital na noite anterior. Vergonha, mentir daquele jeito. A que ponto havia chegado. A que havia se sujeitado. Mentir, enganar pessoas. Maquiavel. Por que diabos havia se metido a fazer uma esquisitice daquelas? A fome. Só podia ser efeito da fome. Tentou evacuar, e não havia o que evacuar. Abriu a única janela do aposento, o sol ardeu-lhe a vista, sentiu breve vertigem que logo se dissipou. Vestiu bermuda e chinelo, uma camiseta, atravessou o corredor e, de posse das chaves do único portão do imóvel onde funcionava a sede da empresa, olhou a rua. Vazia. O semáforo mudava de cor sem que veículo algum passasse. Um homem de bicicleta passou assobiando. Um silêncio tomava conta do mundo na rua Riachuelo, onde morava. Do outro lado da rua, alguns metros adiante, a banca de jornais, onde ele diariamente parava para ver as manchetes do dia, estava estranhamente fechada, com as portas baixadas.  Então ele percebeu que, no pé da árvore que havia defronte à banca, qualquer coisa brilhava pelo reflexo do sol. Segundos de estranhamento. Vidro, pensou. Chaves perdidas, presilhas, um relógio ou coisa que o valha. O coração deu um salto: moedas. Moedas. Na rua, o semáforo se movimentava para veículo nenhum. Atravessou a rua e foi até a árvore. Moedas. Eram moedas. Estranhou, olhou para os lados. Ninguém. As moedas estavam depositadas cuidadosa e ordenadamente, umas sobre as outras. Ele recolheu-as, depositou-as no bolso do lado direito da bermuda e voltou para “casa”. Fechou o portão, correu para sua edícula, contou as moedas. Voltou a depositá-las no bolso, retornou ao portão, abriu somente uma pequena parte. A banca estava aberta, veículos passavam a todo instante em alta velocidade –como sói acontecer em uma rua tão movimentada como a Riachuelo. Fechou os olhos. Fome. Apertou as moedas na mão direita, limpou o suor da testa e saiu. Dirigiu-se à padaria, onde pediu um queijo quente, um suco de laranja e um café.

A terça-feira surpreendeu-o na estação rodoviária, comprando passagens para voltar à casa dos pais, a quem disse que a empresa havia fechado as portas por falência, que não lhe tinham pago os direitos trabalhistas mas que ele ia no dia seguinte procurar um advogado para poder fazer valer seus direitos. Ah, isso ia. 

Após contar esta história, o homem pousou o café sobre a mesa, mastigou o último pedaço da fatia do bolo de cenoura com chocolate e, olhando nos olhos de seu interlocutor, disse calmamente:

- E você ainda quer me convencer de que Deus não existe?   

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