sábado, 6 de setembro de 2014

"NO CALOR DO JOGO"

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Benilson Toniolo

A jovem Patrícia Moreira, gremista, gaúcha, bonita, branca e muito bem empregada no setor de Odontologia da Brigada Militar do Rio Grande do Sul veio a público na última quarta-feira explicar por qual motivo foi flagrada por uma câmera de TV nas arquibancadas do estádio do Grêmio Porto-Alegrense chamando o goleiro Aranha, do Santos, de ‘macaco”, durante a partida de ida das oitavas-de-final da Copa do Brasil. A cena correu o mundo: o jogador, que é negro,  gesticulava revoltado por estar sendo ofendido por xingamentos de teor racista provenientes da torcida do time da casa, localizada atrás da trave onde ele estava. O jogo foi paralisado, representantes da equipe gaúcha se dirigiram à torcida e pediram que as ofensas parassem porque aquilo prejudicava o time, que perdia por dois a zero e precisava virar o jogo, que era eliminatório. No meio de tudo isso, uma câmera de tevê flagrou Patricinha xingando o goleiro de “macaco”, o que derruba qualquer presunção de inocência que se pudesse tentar alegar para livrar o time do pagamento de multa e exclusão da competição, o que foi anunciado pelo Superior Tribunal da Justiça Desportiva – o famigerado STJD- também na última semana.
Na entrevista coletiva de quarta-feira passada, entre um choro aparentemente sem lágrimas e uma expressão de puro desespero e arrependimento, Patricinha pediu perdão, disse que não é racista, que não tinha intenção de ofender o jogador e que fez isso porque o Grêmio, que ela ama, estava perdendo. Pediu “desculpas à nação tricolor e ao Grêmio“ e justificou: “foi  no calor do jogo”.
Ah, certo. O calor do jogo. Pois bem. Pois foi justamente no “calor do jogo” que, recentemente, um vereador corinthiano matou um palmeirense; que outros corinthianos mataram um torcedor boliviano com um rojão no meio da cabeça dentro do estádio; que um santista foi espancado até a morte numa tocaia preparada por são-paulinos; que cruzeirenses e atleticanos seguem disputando para ver qual dos times tem mais torcedores assassinados pela torcida adversária. No “calor do jogo”, Patricinha, palmeirenses e são-paulinos protagonizaram uma batalha campal inesquecível na final de uma Copa São Paulo de Juniores. No “calor do jogo”, vascaínos e torcedores do Atlético Paranaense se lincharam uns aos outros em frente às câmeras de tevê pelo Brasileirão do ano passado dentro do estádio. No “calor do jogo” dezenas de  torcedores da Juventus, da Itália, foram massacrados ao serem empurrados contra um alambrado em um estádio da Bélgica. No “calor do jogo” um jovem torcedor do Vitória  perdeu a visão ao ter os olhos atingidos por uma barra de ferro arremessada contra sua cabeça. No “calor do jogo”, Patricinha, um torcedor do Santa Cruz morreu ao ser atingido na cabeça, pasmem, por um vaso sanitário atirado do alto das arquibancadas de um estádio no Recife (você sabe onde fica Recife, Patricinha?). No “calor do jogo” homossexuais são assassinados com pedradas pelo simples fato de estarem vivos e andarem pela rua. No “calor do jogo” índios são queimados, presidiários são decapitados à vista de todos  e mendigos são destruídos na calada da noite. No “calor do jogo” há os Amarildos, os Juans  e os Bernardos de cuja existência só tomamos conhecimento quando suas tragédias e seus assassinatos, cometidos pelo Estado, são anunciados no jornal. No “calor do jogo” o governo brasileiro comprometeu o orçamento do País na construção de estádios colossais para uma Copa do Mundo deficitária e que decretou o fim dos tempos gloriosos da Seleção Brasileira de Futebol –a mesma Copa que foi recusada pelo Presidente João Figueiredo, o último, grotesco e mais folclórico dos presidentes militares, que se recusou a organizar o Mundial de 1986 por não concordar com o risco financeiro que isso representaria para o País. No “calor do jogo” o assassinato de torcedores por torcedores rivais deixou de virar escândalo. No “calor do jogo” amizades se acabam por causa de futebol. No “calor do jogo” o futuro de milhares de crianças brasileiras desaparece, porque os meninos deixam de lado os estudos para tentar a carreira de jogador de futebol, comprometendo muitas vezes o futuro de toda a família que concentra seus esforços e seu parco capital no sonho do menino em ficar milionário chutando uma bola. No “calor do jogo” é que jogadores iletrados, incultos e arrogantes são tratados como semi-deuses, em detrimento de profissionais como os professores e cientistas, estes sim, que lutam diariamente para levar o País adiante apesar das condições muitas vezes subumanas de trabalho e de salário. No “calor do jogo” ‘é que governos de todas as siglas e matizes usam dinheiro não-declarado para comprar apoio de parlamentares inescrupulosos. No “calor do jogo” é que pessoas morrem na porta de hospitais por falta de médicos e de medicamentos. No “calor do jogo”, Patricinha, é que ficamos com peninha de você, fanática pelo seu time, cheia de chapinha no cabelo e que acha que porque seu time, que você chama de “imortal”, está perdendo, você pode ofender as pessoas e chamar de “macaco” alguém que você considera inferior por ter a cor da pele diferente da sua.
Mas fique tranqüila. Provavelmente, nada acontecerá com você e nenhuma punição lhe será imputada, e você poderá guardar para o futuro um álbum cheio de fotografias e reportagens para poder mostrar para os netos,orgulhosa por um dia ter sido celebridade num país de sociedade hipócrita e, em alguns casos, permissiva. E, claro, bonito por natureza.

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