www.torcedores.com.br
Benilson Toniolo
A jovem Patrícia Moreira,
gremista, gaúcha, bonita, branca e muito bem empregada no setor de Odontologia
da Brigada Militar do Rio Grande do Sul veio a público na última quarta-feira
explicar por qual motivo foi flagrada por uma câmera de TV nas arquibancadas do
estádio do Grêmio Porto-Alegrense chamando o goleiro Aranha, do Santos, de ‘macaco”,
durante a partida de ida das oitavas-de-final da Copa do Brasil. A cena correu
o mundo: o jogador, que é negro, gesticulava revoltado por estar sendo ofendido
por xingamentos de teor racista provenientes da torcida do time da casa,
localizada atrás da trave onde ele estava. O jogo foi paralisado, representantes
da equipe gaúcha se dirigiram à torcida e pediram que as ofensas parassem
porque aquilo prejudicava o time, que perdia por dois a zero e precisava virar
o jogo, que era eliminatório. No meio de tudo isso, uma câmera de tevê flagrou Patricinha
xingando o goleiro de “macaco”, o que derruba qualquer presunção de inocência
que se pudesse tentar alegar para livrar o time do pagamento de multa e exclusão
da competição, o que foi anunciado pelo Superior Tribunal da Justiça Desportiva
– o famigerado STJD- também na última semana.
Na entrevista coletiva de
quarta-feira passada, entre um choro aparentemente sem lágrimas e uma expressão
de puro desespero e arrependimento, Patricinha pediu perdão, disse que não é
racista, que não tinha intenção de ofender o jogador e que fez isso porque o
Grêmio, que ela ama, estava perdendo. Pediu “desculpas à nação tricolor e ao
Grêmio“ e justificou: “foi no calor do
jogo”.
Ah, certo. O calor do jogo.
Pois bem. Pois foi justamente no “calor do jogo” que, recentemente, um vereador
corinthiano matou um palmeirense; que outros corinthianos mataram um torcedor
boliviano com um rojão no meio da cabeça dentro do estádio; que um santista foi
espancado até a morte numa tocaia preparada por são-paulinos; que cruzeirenses
e atleticanos seguem disputando para ver qual dos times tem mais torcedores
assassinados pela torcida adversária. No “calor do jogo”, Patricinha,
palmeirenses e são-paulinos protagonizaram uma batalha campal inesquecível na
final de uma Copa São Paulo de Juniores. No “calor do jogo”, vascaínos e
torcedores do Atlético Paranaense se lincharam uns aos outros em frente às
câmeras de tevê pelo Brasileirão do ano passado dentro do estádio. No “calor do
jogo” dezenas de torcedores da Juventus,
da Itália, foram massacrados ao serem empurrados contra um alambrado em um
estádio da Bélgica. No “calor do jogo” um jovem torcedor do Vitória perdeu a visão ao ter os olhos atingidos por
uma barra de ferro arremessada contra sua cabeça. No “calor do jogo”,
Patricinha, um torcedor do Santa Cruz morreu ao ser atingido na cabeça, pasmem,
por um vaso sanitário atirado do alto das arquibancadas de um estádio no Recife
(você sabe onde fica Recife, Patricinha?). No “calor do jogo” homossexuais são assassinados
com pedradas pelo simples fato de estarem vivos e andarem pela rua. No “calor
do jogo” índios são queimados, presidiários são decapitados à vista de todos e mendigos são destruídos na calada da noite.
No “calor do jogo” há os Amarildos, os Juans e os Bernardos de cuja existência só tomamos
conhecimento quando suas tragédias e seus assassinatos, cometidos pelo Estado, são
anunciados no jornal. No “calor do jogo” o governo brasileiro comprometeu o orçamento
do País na construção de estádios colossais para uma Copa do Mundo deficitária
e que decretou o fim dos tempos gloriosos da Seleção Brasileira de Futebol –a mesma
Copa que foi recusada pelo Presidente João Figueiredo, o último, grotesco e
mais folclórico dos presidentes militares, que se recusou a organizar o Mundial
de 1986 por não concordar com o risco financeiro que isso representaria para o
País. No “calor do jogo” o assassinato de torcedores por torcedores rivais
deixou de virar escândalo. No “calor do jogo” amizades se acabam por causa de
futebol. No “calor do jogo” o futuro de milhares de crianças brasileiras
desaparece, porque os meninos deixam de lado os estudos para tentar a carreira
de jogador de futebol, comprometendo muitas vezes o futuro de toda a família
que concentra seus esforços e seu parco capital no sonho do menino em ficar
milionário chutando uma bola. No “calor do jogo” é que jogadores iletrados,
incultos e arrogantes são tratados como semi-deuses, em detrimento de
profissionais como os professores e cientistas, estes sim, que lutam
diariamente para levar o País adiante apesar das condições muitas vezes
subumanas de trabalho e de salário. No “calor do jogo” ‘é que governos de todas
as siglas e matizes usam dinheiro não-declarado para comprar apoio de
parlamentares inescrupulosos. No “calor do jogo” é que pessoas morrem na porta
de hospitais por falta de médicos e de medicamentos. No “calor do jogo”,
Patricinha, é que ficamos com peninha de você, fanática pelo seu time, cheia de
chapinha no cabelo e que acha que porque seu time, que você chama de “imortal”,
está perdendo, você pode ofender as pessoas e chamar de “macaco” alguém que
você considera inferior por ter a cor da pele diferente da sua.
Mas fique tranqüila.
Provavelmente, nada acontecerá com você e nenhuma punição lhe será imputada, e você poderá guardar para o futuro um álbum cheio de fotografias
e reportagens para poder mostrar para os netos,orgulhosa por um dia ter sido
celebridade num país de sociedade hipócrita e, em alguns casos, permissiva. E, claro, bonito por natureza.

Sem comentários:
Enviar um comentário