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Benilson Toniolo
Atravessou a moto alguns metros à minha
frente, na exata direção onde eu caminhava e que necessariamente haveria de
passar. Noite avançando, entre nove e dez horas, eu voltava a pé para casa por
alguma impossibilidade de estar de automóvel. Tremi: “ou é meu conhecido ou vai me assaltar”.
Segui em sua direção (até porque não havia outra escolha), ele tirou o capacete
e me saudou, chamando-me pelo nome. Como não o reconhecesse daquela distância,
retribuí com um protocolar “opa!”.
Era o Toninho, com quem eu havia
trabalhado há alguns anos. Disse que vinha para casa com um baita problema a
atormentá-lo, pedindo a Deus que encontrasse alguém “esclarecido” (palavras
dele) com quem pudesse conversar e abrir seu coração e, de repente, me vira
caminhando. Milagre, só podia ser. Deus tinha ouvido suas preces.
- O senhor me desculpe interromper sua
caminhada, mas é que eu gostaria de me abrir com o senhor. A situação é a
seguinte. Tem um sujeito aí que está me ameaçando. Diz que vai me matar. Diz
que vai ser minha sombra. Que descobriu onde eu moro, sabe quem é minha esposa,
quem é minha filha e disse que antes de acabar comigo vai acabar com a minha
família. Já descobriu o telefone da firma onde eu trabalho e disse que vai
ligar lá amanhã pra me esculachar. Diz que antes de me matar vai me fazer
perder o emprego. Já sabe que minha
mulher trabalha na Prefeitura e vai lá contar tudo pra ela, vai chamar de corna
e humilhar na frente de todo mundo.
- Tá louco, Toninho, esse cara é algum
doido?
- Para o senhor ver.
- Você o conhece?
- É meu amigo do facebook, mas pessoalmente
eu não imagino quem é.
- E como é que ele te disse tudo isso,
então?
- No facebook. Deixou tudo escrito lá.
- E há quanto tempo isso está
acontecendo?
- Começou anteontem. Minha vida está um
inferno. Não sei o que fazer. Estou desesperado.
- Vai na delegacia, ué. Registra um
Boletim de Ocorrência. Urgente. Imprima as ameaças e anexa na queixa.
- É, né? Bem que eu já tinha pensado
nisso.
- Faça isso, Toninho, com urgência. Mas
afinal, ele está te ameaçando por qual motivo?
- Ele diz que estou saindo com a mulher
dele.
- Então faça o seguinte. Vai lá na sua
página do facebook e diga a ele, com muita educação, que isso é uma mentira, que você não o
conhece, não conhece a mulher dele, que isso é uma calúnia e que se as ameaças
não pararem você será obrigado a processá-lo.
Toninho ficou quieto. Cismei.
- Peraí, Toninho. Você está saindo com a
mulher dele?
- Pois é, tem isso também.
- Isso o quê?
- Eu não sei se estou “pegando” a mulher dele ou não.
- Como é que é isso, Toninho? Como, não
sabe?
- É que o senhor sabe, né? Homem não
vale nada, mesmo. Somos um bando de sem-vergonha. A gente não vale o que o gato
enterra. O senhor sabe.
- Poxa, mas então é bem capaz que o
sujeito que está te ameaçando tenha razão.
- Não, não, aí o senhor se engana. Se
ele não dá conta do serviço, outro vem e dá. Quem não dá assistência, abre
concorrência. E isso não dá razão pra ele me matar. Se ele é corno, a culpa é
da mulher dele, e não minha. Tem que matar é ela, não eu.
- Mas como é que você não sabe, Toninho?
Você sai com tanta mulher assim, a ponto de não saber quem é quem?
- Ah, o senhor sabe como é, né? A gente
que é homem não vale nada, mesmo. A gente é tudo sem vergonha.
Depois disso, achei que era hora de
retomar o rumo, afinal ainda faltava quase meia hora de caminhada no escuro e
de sapatos. Ainda reforcei a necessidade de ele registrar a queixa mesmo assim,
ou seja, apesar de ser grande a possibilidade de o marido estar mesmo sendo
traído pela mulher. E fui imaginando que bom seria se um dia, afinal, ambos os
enganados se conhecessem, já separados dos cônjuges atuais, sem nem saber quem
era um e quem tinha sido o outro, e se apaixonassem, e fossem felizes e fieis. Pensando
bem, a gente é que não vale nada, mesmo.
Por via das dúvidas, tratei de acertar o
passo. Vai que o marido traído ainda passa pela avenida e me pega ali, batendo
papo com o Toninho...

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