domingo, 28 de setembro de 2014

TONINHO E SEUS PROBLEMAS

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Benilson Toniolo

Atravessou a moto alguns metros à minha frente, na exata direção onde eu caminhava e que necessariamente haveria de passar. Noite avançando, entre nove e dez horas, eu voltava a pé para casa por alguma impossibilidade de estar de automóvel. Tremi:  “ou é meu conhecido ou vai me assaltar”. Segui em sua direção (até porque não havia outra escolha), ele tirou o capacete e me saudou, chamando-me pelo nome. Como não o reconhecesse daquela distância, retribuí com um protocolar “opa!”.
Era o Toninho, com quem eu havia trabalhado há alguns anos. Disse que vinha para casa com um baita problema a atormentá-lo, pedindo a Deus que encontrasse alguém “esclarecido” (palavras dele) com quem pudesse conversar e abrir seu coração e, de repente, me vira caminhando. Milagre, só podia ser. Deus tinha ouvido suas preces.
- O senhor me desculpe interromper sua caminhada, mas é que eu gostaria de me abrir com o senhor. A situação é a seguinte. Tem um sujeito aí que está me ameaçando. Diz que vai me matar. Diz que vai ser minha sombra. Que descobriu onde eu moro, sabe quem é minha esposa, quem é minha filha e disse que antes de acabar comigo vai acabar com a minha família. Já descobriu o telefone da firma onde eu trabalho e disse que vai ligar lá amanhã pra me esculachar. Diz que antes de me matar vai me fazer perder o emprego.  Já sabe que minha mulher trabalha na Prefeitura e vai lá contar tudo pra ela, vai chamar de corna e humilhar na frente de todo mundo.
- Tá louco, Toninho, esse cara é algum doido?
- Para o senhor ver.
- Você o conhece?
- É meu amigo do facebook, mas pessoalmente eu não imagino quem é.
- E como é que ele te disse tudo isso, então?
- No facebook. Deixou tudo escrito lá.
- E há quanto tempo isso está acontecendo?
- Começou anteontem. Minha vida está um inferno. Não sei o que fazer. Estou desesperado.
- Vai na delegacia, ué. Registra um Boletim de Ocorrência. Urgente. Imprima as ameaças e anexa na queixa.
- É, né? Bem que eu já tinha pensado nisso.
- Faça isso, Toninho, com urgência. Mas afinal, ele está te ameaçando por qual motivo?
- Ele diz que estou saindo com a mulher dele.
- Então faça o seguinte. Vai lá na sua página do facebook e diga a ele, com muita educação,  que isso é uma mentira, que você não o conhece, não conhece a mulher dele, que isso é uma calúnia e que se as ameaças não pararem você será obrigado a processá-lo.
Toninho ficou quieto. Cismei.
- Peraí, Toninho. Você está saindo com a mulher dele? 
- Pois é, tem isso também.
- Isso o quê?
- Eu não sei se estou “pegando”  a mulher dele ou não.
- Como é que é isso, Toninho? Como, não sabe?
- É que o senhor sabe, né? Homem não vale nada, mesmo. Somos um bando de sem-vergonha. A gente não vale o que o gato enterra. O senhor sabe.
- Poxa, mas então é bem capaz que o sujeito que está te ameaçando tenha razão.
- Não, não, aí o senhor se engana. Se ele não dá conta do serviço, outro vem e dá. Quem não dá assistência, abre concorrência. E isso não dá razão pra ele me matar. Se ele é corno, a culpa é da mulher dele, e não minha. Tem que matar é ela, não eu.
- Mas como é que você não sabe, Toninho? Você sai com tanta mulher assim, a ponto de não saber quem é quem?
- Ah, o senhor sabe como é, né? A gente que é homem não vale nada, mesmo. A gente é tudo sem vergonha.
Depois disso, achei que era hora de retomar o rumo, afinal ainda faltava quase meia hora de caminhada no escuro e de sapatos. Ainda reforcei a necessidade de ele registrar a queixa mesmo assim, ou seja, apesar de ser grande a possibilidade de o marido estar mesmo sendo traído pela mulher. E fui imaginando que bom seria se um dia, afinal, ambos os enganados se conhecessem, já separados dos cônjuges atuais, sem nem saber quem era um e quem tinha sido o outro, e se apaixonassem, e fossem felizes e fieis. Pensando bem, a gente é que não vale nada, mesmo.
Por via das dúvidas, tratei de acertar o passo. Vai que o marido traído ainda passa pela avenida e me pega ali, batendo papo com o Toninho...

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