sábado, 27 de setembro de 2014

DE ATENDIMENTO EM ATENDIMENTO

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Benilson Toniolo

Uma coisa eu posso garantir, até mesmo por experiência própria: Campos do Jordão sempre foi reconhecida nacionalmente pela excelência dos serviços hoteleiros e gastronômicos. Quem já se hospedou nos nossos hotéis e pousadas, ou sentou-se para se dedicar à gastronomia em alguns de nossos restaurantes, pode sair reclamando de qualquer coisa, menos do atendimento dado pelos nossos profissionais. Nosso povo é ordeiro, hospitaleiro, aplicado, disciplinado e muito empenhado em atender, e em algumas vezes até em superar, as expectativas dos turistas. Não sou eu quem está dizendo. É uma constatação nacional. Quando viajo e digo que sou de Campos do Jordão, sempre tem alguém para me contar uma experiência inesquecível, e muito positiva, dos passeios que fez, das fotos que tirou, do hotel onde se hospedou, do restaurante onde comeu. Somos sinônimo de qualidade em serviços. E é isso que me preocupa.
Nas últimas duas semanas passei por nada menos do que três experiências de atendimento em restaurantes da cidade que me aborreceram bastante. Evidentemente não citarei seus nomes, mas não vai ser muito difícil, para os jordanenses, saber de quem estou falando.
Fui com a família (o pessoal de casa mais o de Guarujá, ao todo, nove pessoas) jantar em uma pizzaria de Abernéssia, que sempre freqüentávamos (reparem no tempo do verbo) pela honestidade da comida e do preço. Enquanto esperávamos a comida, os garçons, em rodinha, divertiam-se mostrando uns aos outros vídeos em seus respectivos celulares. A segunda rodada de pizza foi servida por mim, uma vez que o garçom desapareceu sem se preocupar em pedir a nenhum colega que o substituísse em sua ausência. Quando voltou, pedimos mais bebidas, que ele se esqueceu de trazer. Mas não esqueceu de voltar a se reunir com os demais garçons para continuar suas sessões de vídeos. Estávamos bem próximos de onde fica o forno. Três funcionários ali estavam, todos com celulares nas mãos, completamente alheios aos pedidos. Um entregador chegou, entrou no local onde fica o forno, retirou o capacete e o deixou sobre o balcão, exatamente onde ficam as pizzas depois de prontas. Como se não bastasse, retirava com suas próprias mãos algumas pequenas porções de azeitonas, frios e o que mais estivesse em seus respectivos potes e levava à boca. Tudo isso enquanto conversava com os colegas, num tom de voz excessivamente elevado. No caixa o filho do dono, que faz as vezes de gerente, mexia também no celular. Todos conversavam, riam e não davam a mínima para os clientes. Fui ao caixa, reclamei, pedi a conta –até porque já tinha desistido de procurar o garçom que nos atendia- e paguei, tomando o cuidado de pedir a retirada da taxa de serviço. E deixei claro, mais uma vez, o tempo do verbo.
Venho da abertura de um congresso em Capivari e, com fome, perto das dez da noite, paro numa “Casa de Delícias” (pelo menos é esse o nome que consta na placa, por mais pretensioso que seja) para fazer uma boquinha antes de voltar para casa e peço o de sempre: um suco de laranja, um misto quente e um café expresso. Apenas alguns poucos clientes ainda circulam, no que parece ser o final de um expediente que começou cedo, como acontece todos os dias. Mas cliente é cliente, e o bom atendimento deve ser uma constante enquanto as portas estiverem abertas. Levei um livro para ler enquanto esperava o pedido ficar pronto, mas não consegui me concentrar na leitura, tantas eram as risadas, as conversas em voz alta, as rodinhas de funcionários (dentro da cozinha, na área dos pães, no caixa) e os inseparáveis celulares tocando música. Aliás, por que as pessoas acham que todas as outras no mesmo ambiente são obrigadas a ouvir a mesma música que elas? Vieram o suco, feito com laranjas passadas e sem a pedra de gelo que pedi), o misto-quente (com mussarela no lugar do queijo prato e com pão velho) e o café (menos ruim que os demais acompanhamentos, mas ainda assim longe de ser bom). Fui ao caixa (a rodinha ainda estava lá, e falava alto e ria, como riem os trabalhadores da área de serviços hoje em dia!), paguei e até reclamaria, se a funcionária me dirigisse um segundo de sua atenção –mas ela se dedicava a continuar a rir com os colegas que estavam atrás dela.
Saímos de uma apresentação no Espaço Cultural Dr. Além e vamos ao Capivari comer alguma coisa. Pizza em pedaços. Duas mesas ocupadas com turistas, acomodamo-nos e fizemos nossos pedidos. Uma das funcionárias, atrás do balcão, resolve mostrar para os dois colegas um vídeo (ele de novo) que recebera de uma colega pelo uatezápe. Era um vídeo em que uma criança (parecia ser uma criança, pelo menos era uma voz de criança) proferia uma série interminável de palavrões. Acabou, todos gargalharam e, não satisfeita, ela resolveu fazer nova apresentação, como que para certificar-se do sucesso de seu patrimônio tecnológico. Os clientes fizeram que não ouviram. Olhei para trás tentando expressar um olhar de reprovação, mas nem um deles percebeu. Quando saíamos, uma das funcionárias passou por baixo do balcão e, da porta, anunciou aos colegas: “vou ali chamar a Lu pra você mostrar pra ela”. Isso, vai, responderam todos. Saímos, e enquanto me dirigia para o carro imaginei todos os trabalhadores do Capivari marchando para a pizzaria, doidos para ver o que é que havia no celular da menina, alguns já começando a gargalhar antes mesmo de chegar. 
Nas três situações, existe o fato de funcionários em horário de serviço estarem portando aparelhos celulares e a eles se dedicarem enquanto deveriam estar cuidando dos clientes. Se seus empregadores não sabem disso, é porque provavelmente estão deixando de controlar a produtividade de seus empregados durante o horário de trabalho.  Se estivessem em uma linha de produção, estariam em flagrante situação de risco, e o número de acidentados seria enorme. Como estamos falando de uma atividade onde o atendimento é o principal produto a ser vendido, o maior risco que se corre é o cliente ficar insatisfeito. Em ambos os casos, os danos ao negócio podem ser irreparáveis.
Há também o risco de a cidade passar a, com o tempo, não mais ser reconhecida pela excelências nos serviços, por pura falta de concentração do pessoal de atendimento e de pulso firme por parte dos encarregados. Afinal de contas, não é interessante para uma cidade que vive exclusivamente do Turismo ser nivelado, em atendimento, com outras onde a economia é gerada por outros meios de produção.
Uma sugestão: antes do expediente, todos os funcionários deixam seus aparelhos celulares em poder da gerência. Se receber alguma chamada urgente, o funcionário será informado. Como fazem os professores em algumas escolas.
Porque a verdade é uma só: cliente mal atendido não volta, e ainda sai falando mal. E isso é fatal para qualquer negócio. Ou, no caso, para a Cidade.

Ou então sou só eu que vou me tornando, definitivamente e a cada dia, um chato.


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