domingo, 28 de setembro de 2014

A AUDITORIA NOTURNA

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Benilson Toniolo 

Quase oito da manhã e nada de o relatório fechar. A diferença estava no setor de telefonia. Eu tinha trabalhado a noite inteira na auditoria do hotel e nada de os números entrarem num acordo. Vamos pela ordem. Room service, ok. Bar da UH, ok. Lavanderia, ok. Boutique, sem movimento. Segunda feira é assim. Hotel vazio, ninguém compra nada. Mas e telefonia? Vamos voltar. Diárias, que é o mais pesado. Tudo certo. Poucos hóspedes, tarifas de acordo,  sem descontos indevidos ou estornos que necessitem justificativas. Eu saía às sete, já davam oito horas e eu lá, debruçado sobre o relatório de auditoria noturna. Que diabos. Daqui a pouco começariam a chegar os funcionários e iam começar as perguntas e o estranhamento. O que aconteceu? Tá aí até agora? Tá com diferença? Algum problema? Não, estúpida, eu é que gosto de ficar aqui olhando para o relatório até esta hora. Não, é que eu e os números nos apaixonamos e não conseguimos nos largar. Voltando. Taxa de ocupação, diária média, chart de reservas sem over. Agora, as contas. Saldos elevados, ok. Restaurante, ok. Custo médio do café-da-manhã. Tudo certo. Só a telefonia que não bate. Oito e dez. A esta altura, eu já devia estar dormindo. Até encontrar esta diferença, se for logo, nove horas. Pego o ônibus das dez, uma hora até chegar em casa, já serão onze da manhã, já terei perdido três horas de sono. A menina do administrativo chega, deposita a bolsa sobre a mesa de trabalho e me lança um olhar que acusa: “incompetente, não consegue nem fechar o relatório de auditoria”. Insuportável. Em três meses de hotel isso nunca tinha acontecido. E bem na folga do meu chefe. Vão dizer que, depois de período de experiência, não aprendi nada, e que não tenho condições de assumir sozinho a auditoria noturna com um hotel com pouco mais de vinte por cento de ocupação. Incompetente, inexperiente, burro. Ela me manda um bom dia, respondo com uma disposição inventada (simulo descontração  e despreocupação no tom de voz), ela pergunta se deu diferença na auditoria e eu respondo que sim, mas já achei. Mentira. Oito e vinte. Passam o almoxarife, o chefe de contas, o chefe de reservas. Jogaram futebol ontem à noite, hoje comentam os lances e morrem de rir. Quando acabaram de jogar, provavelmente eu já estava aqui trabalhando. Acabaram o jogo, tomaram cerveja, fora para casa, tomaram banho, dormiram, acordaram, tomaram banho de novo, comeram, voltaram para o trabalho e eu ainda estou aqui. Room service, ok. Lavanderia, ok. Diárias, ok. Taxa de ocupação, diária média, Bar da UH, Restaurante, chart de reservas, custo médio, tudo ok. Telefonia. Telefonia não. Diferença. Com esse sono que estou, não raciocino. Passa a secretária do gerente, aquela gostosa.   Passa a Governanta, o chefe de recepção afeminado. Camareiras, o pessoal de compras, controladoria. Posso procurar o administrativo e pedir ajuda. Prepotente, ele vai me pedir para esperar enquanto vai tomar café e bater um papinho com todo mundo. Vai dar sua volta diária no hotel sem esconder que está se preparando para o dia em que chegar à gerência. Só tem um jeito, se eu quiser embora e não passar por incapaz. Igualar os números. Meu chefe já me havia confidenciado que dá pra fazer. A gente entra no sistema e simplesmente altera o número. Vai mexer no acumulado. A única forma de alguém descobrir é comparando o relatório anterior com o atual. Mas isso ninguém faz, segundo me disse o chefe. Mas minha senha não tem acesso. A dele tem. E eu sei a senha dele, de tanto vê-lo digitar. O sono, quase nove horas, uma hora para chegar em casa, se eu entrar no sistema logo ainda pego o ônibus das nove. E se alguém descobrir? Digo que estava com diferença, e que eu pensei que este seria o procedimento correto. Entro no sistema com a senha do chefe, e o nome dele aparece como usuário. Ele está de folga. Sou um farsante, penso. Mas um farsante que está prestes a ser vencido pelo sono e pela necessidade de ir embora. Trabalhei a noite toda sozinho, cobrindo a folga do chefe. E não consigo fechar a auditoria. Ainda preciso imprimir os relatórios para encaminhar à gerência. Quando o gerente chega, os relatórios devem estar sobre sua mesa. Acesso a conta de telefonia, corro sobre os números com o cursor e me preparo para igualar os números e burlar o relatório quando ouço a voz do gerente que chega para o trabalho. Só estive com ele no dia da contratação. Depois, nunca mais. Chama-se Gomes. Ele entra na sala, cumprimenta a todos, me acena com a mão e pergunta se está tudo bem. Digo que sim, mas que gostaria de falar com ele. Claro, ele responde. Se aproxima, eu saio do sistema e entro de novo, para me certificar que a senha do chefe foi mesmo retirada. Ele chega à mesa e falo Seu Gomes, desculpe mas não consegui fechar a auditoria até agora porque está dando diferença na conta de telefonia. Por este motivo, quando o senhor entrar em sua sala os relatórios não estarão em cima da mesa. Por favor, me desculpe, mas continuarei tentando descobrir o que houve. A barriga acusa fome, os olhos ardem, a cabeça lateja. Ele responde Telefonia? Eu falo Sim, telefonia. O resto está tudo certo, menos a telefonia. Ainda de pé, ele me pede para ver o relatório analítico. Mostro, ele corre os números com o indicador da mão direita e para em um determinado número. Depois vira a página, vai até o último número e fala Tá aqui, ó. Esta ligação foi estornada, então você tem que deduzir do lançamento, senão vai dar diferença mesmo. Olha só, tem o valor da ligação, não tem? Agora você vem aqui no final do relatório e confere: tem o estorno. O estorno anula aquele valor. Agora bate. Viu? Enrubesço, estremeço, me ponho a ponto de chorar. Não encontro o que dizer. Em dez segundos, ele achou uma diferença que demorei quase uma noite inteira de trabalho para encontrar. Estou sentado, e ele às minhas costas, de pé. Ele pergunta se o chefe não me explicou isso. Não me lembro, respondo. E não me lembro mesmo. Ele ainda diz Agora está certo, pode imprimir os relatórios. Mas antes faça a justificativa do estorno. Dá um tapinha amigável nas minhas costas, ri e diz A culpa não é sua, é de quem te contratou. Estou arrasado. Sou mesmo um incompetente. Não sei o que será de mim no futuro. Um sujeito de quem se esperava tanto, que no entanto não consegue fechar sozinho um relatório de auditoria num hotel com pouco mais de vinte por cento de ocupação. Hoje à noite o chefe vai me dar uma bronca. Isso, se não decidir me mandar embora. Imprimo os relatórios, confiro os números da telefonia, tudo está conforme. Aponho minha assinatura no rodapé de todas as folhas. Separo em blocos, grampeio, organizo no escaninho. Nove e cinco. Perdi o ônibus. Saio sem bater o cartão de ponto, pois a ordem da administração é que, mesmo ficando até mais tarde no serviço, deve-se bater o cartão no horário previsto para a saída para evitar horas extras. A justificativa dada pela gerência é que, se o funcionário precisou ficar mais tempo, é porque não conseguiu dar conta de suas tarefas durante o horário de expediente. Saio e o dia me cega a visão. A cabeça lateja mais forte e a barriga volta a dar sinais de impaciência –e de fome. Se me mandarem embora pelo que aconteceu hoje, será uma injustiça. Seja o que Deus quiser. E como meu ônibus só voltará a passar em quarenta minutos, a melhor maneira de lutar contra o cansaço é caminhar e assim ir adiantando o retorno para casa. E é o que começo a fazer, evitando olhar para cima para que a luz do sol não me volte a escurecer as vistas.

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