sábado, 27 de setembro de 2014

AS MEMÓRIAS DE GRACILIANO

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Benilson Toniolo

Dediquei os últimos meses à leitura atenta das Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos –um patrimônio inquestionável da literatura brasileira, ao lado de tantos outros. Tem quatro volumes, a obra, e narra a passagem do autor quando encarcerado sob a acusação de comunismo durante a ditadura Vargas.
O estilo direto, franco, culto, árido e áspero de Graciliano torna ainda mais crua e impactante a leitura, que vai desde a sua prisão ao momento em que, bastante debilitado, se preparava para narrar sua soltura, muito provavelmente obtioda graças ao trabalho abnegado do jurista Sobral Pinto.
A amizade com José Lins do Rego –a quem admoesta por tentar ajudá-lo-, as incertezas do futuro, a resistência às ofertas de corupção, o estado de conformismo e a revolta em permanente alternância, a doença, o tabagismo, as notícias da publicação de seus textos, todas estas passagens  servem de mote para que Graciliano registre, em sua longa narrativa, os conflitos existentes em um homem quando se vê vítima de um Estado totalitário e opressor; a finitude explícita do homem e sua condição miserável diante da injustiça e da tortura; a impotência e a desesperança que o assolam quando em contato com a ignorância, o medo e a desesperança.
Eu ignorava que Graciliano não havia concluído a obra. O leitor somente passa a tomar conhecimento disso graças ao apêndice Explicação Final, registrado por seu filho Ricardo Ramos para a edição de 1953 da José Olympio Editora, que primeiro trouxe à luz a obra do mestre. Não nego que esta descoberta, quando me preparava para encerrar a lenta e exigente leitura, tocou-me o coração de maneira singular, ao imaginar o filho preparando o final do livro que o pai não conseguiu terminar.
Tenho muito apreço por Graciliano, não somente pelo estilo e pela capacidade narrativa, mas por algumas características pessoais que parecem aproximar a sua história da minha. Primeiro, é sertanejo como meu saudoso pai. Ambos do Estado das Alagoas. Um de Palmeira dos Índios, onde foi prefeito, e o outro, de União dos Palmares, de onde saiu adulto e analfabeto, fugido da seca com os pais e mais de uma dezena de irmãos, para tentar a sorte neste inferno que chamamos de São Paulo.             

Nestes tempos de crise político-eleitoral, diria que a leitura desta obra seria como uma espécie de obrigação moral dos candidatos a algum cargo política. Diria, insisto, não fossem estes tempos não tão distantes assim daqueles em que os homens de bem eram (e são) calados à força.                                                                                                    

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