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Benilson Toniolo
Dediquei os últimos meses à
leitura atenta das Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos –um patrimônio
inquestionável da literatura brasileira, ao lado de tantos outros. Tem quatro
volumes, a obra, e narra a passagem do autor quando encarcerado sob a acusação
de comunismo durante a ditadura Vargas.
O estilo direto, franco, culto,
árido e áspero de Graciliano torna ainda mais crua e impactante a leitura, que
vai desde a sua prisão ao momento em que, bastante debilitado, se preparava
para narrar sua soltura, muito provavelmente obtioda graças ao trabalho
abnegado do jurista Sobral Pinto.
A amizade com José Lins do Rego
–a quem admoesta por tentar ajudá-lo-, as incertezas do futuro, a resistência
às ofertas de corupção, o estado de conformismo e a revolta em permanente
alternância, a doença, o tabagismo, as notícias da publicação de seus textos,
todas estas passagens servem de mote
para que Graciliano registre, em sua longa narrativa, os conflitos existentes
em um homem quando se vê vítima de um Estado totalitário e opressor; a finitude
explícita do homem e sua condição miserável diante da injustiça e da tortura; a
impotência e a desesperança que o assolam quando em contato com a ignorância, o
medo e a desesperança.
Eu ignorava que Graciliano não
havia concluído a obra. O leitor somente passa a tomar conhecimento disso
graças ao apêndice Explicação Final, registrado por seu filho Ricardo Ramos para
a edição de 1953 da José Olympio Editora, que primeiro trouxe à luz a obra do
mestre. Não nego que esta descoberta, quando me preparava para encerrar a lenta
e exigente leitura, tocou-me o coração de maneira singular, ao imaginar o filho
preparando o final do livro que o pai não conseguiu terminar.
Tenho muito apreço por Graciliano,
não somente pelo estilo e pela capacidade narrativa, mas por algumas
características pessoais que parecem aproximar a sua história da minha.
Primeiro, é sertanejo como meu saudoso pai. Ambos do Estado das Alagoas. Um de
Palmeira dos Índios, onde foi prefeito, e o outro, de União dos Palmares, de
onde saiu adulto e analfabeto, fugido da seca com os pais e mais de uma dezena
de irmãos, para tentar a sorte neste inferno que chamamos de São Paulo.
Nestes tempos de crise
político-eleitoral, diria que a leitura desta obra seria como uma espécie de
obrigação moral dos candidatos a algum cargo política. Diria, insisto, não
fossem estes tempos não tão distantes assim daqueles em que os homens de bem
eram (e são) calados à força.

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