domingo, 7 de setembro de 2014

NÃO SABER, SABENDO

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Benilson Toniolo

Dois fatos importantes ligados à campanha da presidenciável Marina Silva, do PSB, ocorridos nesta semana, ligaram o sinal amarelo de que o País pode estar muito próximo de entrar numa barafunda sem volta. Ei-los:

1)      A candidata atribuiu a um “erro editorial” o trecho de seu programa de governo anunciado no dia 29 de agosto no qual manifestava apoio a propostas da comunidade LGBT, em que ela se comprometia a, se eleita, atuar em favor de projetos e emendas constitucionais  que garantiriam, entre outras questões, a aprovação de lei que criminaliza a homofobia e os direitos das uniões estáveis homoafetivas. Pressionado fortemente por setores significativos da ala evangélica representada pelo pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus (denominação que Marina segue), contrários à luta pela igualdade de direitos das pessoas independente de suas características e tendências afetivas, o trecho foi suprimido do programa 24 horas depois. Em substituição, foi inserida a expressão “garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo”, o que já é garantido pelo Supremo Tribunal Federal (STF);

2)      Marina alegou que não sabia que o jatinho utilizado por Eduardo Campos que caiu no dia 13 de agosto, matando Eduardo e sua comitiva, era bancado com dinheiro não declarado, o chamado “caixa-dois”. Neste caso, não saber é tão grave quanto saber e não fazer nada. Para deixar bem clara a gravidade de uma alegação como esta, Elio Gaspari nos lembra que Lula, em uma de suas campanhas, fez uso de dois jatinhos: um pertencia ao filho do deputado João Alves, um dos chamados Anões do Orçamento e que ficou famoso por creditar à loteria esportiva seu abissal enriquecimento pessoal (na ocasião, Alves declarou: ‘Deus me ajudou, e eu fiquei rico”). O segundo jatinho usado por Lula pertencia a uma empresa que fornecia alimentos à prefeitura de São Paulo, à época governada pelo PT. Na ocasião, Lula declarou que estavam “querendo jogar o PT na mesma lama dos outros partidos”. Lula também não sabia da existência do mensalão.

É através de situações como estas, revestidas de muxoxos, dissimulações  e rodapés de páginas e mal-entendidos nunca explicados que a gente acaba tendo uma idéia de quem os políticos são, e o que em geral escondem. Salvo engano, estamos diante de uma candidata que se reveste de uma aura de candura e de  messianismo que esconde, no fundo, a mesma essência que caracteriza a imensa maioria dos políticos brasileiros. Alegar desconhecimento diante de um fato tão importante como a existência de um caixa dois em seu partido (não, a Rede não existe, o que existe é o PSB) e mudar seu plano de governo para agradar determinada parcela do eleitorado não é mais do que vender a alma ao diabo para ganhar uma eleição. O que, em se tratando de Marina Silva, é uma contradição indesculpável.


O fato de Marina substituir Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo, não quer dizer que exista um “plano divino, arquitetado no sobrenatural” que nos obrigue a votar nela para “que se cumpra a profecia”. Votos emocionais e sem base racional, além de perigosos, podem ser fatais para o futuro do País. Resta a nós, os eleitores, acompanhar atentamente o que vem por aí.

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