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Benilson Toniolo
Num raro dia em que não estou
atrasado, me encontro encostado no carro esperando Simone sair do trabalho. Olho
o movimento, repassando mentalmente as pendências do dia. E eis que o menino
vem descendo lá da Vila Sodipe, roupinha simples, mochila nas costas, a caminho
da avenida. Pequenino, deve ter uns dez anos, se muito. Passa por mim, olhos
fixos à frente, nem me dá bola. Concentrado, pensamento distante, carinha
séria. De repente se volta:
- O senhor está indo para o
Capivari?
- Não, não, estou indo para o
Portal.
- Ah.
Ele para, senta na rampa da
calçada. Continua sem me olhar. Parece muito preocupado -até demais, para alguém
da sua idade. Pergunto como se chama.
- Lucas.
Pausa.
- É que se o senhor fosse para
o Capivari, eu ia pedir uma carona.
Simone ainda não desceu. Já deveria,
pelo horário, ter saído para o almoço. Quando não sou eu quem se atrasa, é ela.
Preciso ainda abastecer o carro, ir ao banco, comprar umas coisinhas para casa.
Reuniões às duas e às quatro e meia. Evento da Secretaria à noite. Faz calor.
- E passe de ônibus, o senhor
tem algum pra me arranjar?
- Não tenho. O que é que você
vai fazer no Capivari?
- A patroa da minha mãe comprou
meu material escolar, porque a gente não tem dinheiro, e minha mãe me mandou ir
lá buscar, porque a professora falou que se amanhã eu não levar o material não vou
poder assistir aula. E a mulher só vai estar lá hoje até três horas.
- E o que é quem dentro dessa
mochila aí?
- Não tem nada, não. É pra
trazer o material.
- Lucas, e porque é que ao invés
de ficar pedindo carona, passe de ônibus, você não pede logo o dinheiro pra
pagar a passagem?
- Ah, não. Aí era capaz de o
senhor me xingar...
Dei o dinheiro, claro. E ele
até agradeceu, ainda que meio envergonhadamente. E foi, com sua mochilinha às
costas, sua roupinha surrada, caminhando resoluto em direção ao ponto de
ônibus. Súbito, me flagrei dando um tapa na testa: esqueci de dar também o
dinheiro da passagem de volta. Procurei-o com os olhos, mas o Lucas já estava
embarcando no ônibus.

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