segunda-feira, 9 de junho de 2014

UM NOVO PARCEIRO PARA VINICIUS


Benilson Toniolo

Enquanto passeava o dedo indicador pelas estações de rádio no carro ouvi, estupefato, o locutor anunciar que haviam acabado de tocar uma música de João Bosco e Vinicius. Admirei-me. Jamais poderia imaginar que Vinicius de Moraes e João Bosco tivessem, algum dia, gravado alguma canção em parceria. Uma participação exclusiva, talvez, de um em algum show do outro, e que agora era revelada ao público em primeiríssima audição? Não, se fosse assim eu saberia, antenado que pretendo me manter no que diz respeito aos meus ídolos. Seria um samba afro de Vinicius, uma batida de João –o Bosco, não o Gilebrto-, uma composição de Aldir Blanc que teria apetecido ao Poetinha, um poema recitado pela voz inconfundível do poeta enquanto o sambista batucava em seu violão tendo, vem por outro, um assovio de fundo? Cismava eu, louco para chegar em casa e procurar na internet alguma notícia sobre o que teria unido dois grandes nomes da música brasileira em uma obra até então, para mim, inédita.
No caminho para casa, raciocinava e procurava dados na memória. O carioca Vinicius morreu em 1980, ano em que o mineiro João Bosco já era nome constante no cenário musical brasileira, cantando composições próprias e em parceria com Aldir, além de ter gravado Belchior, entre outros. Certamente, aquela era uma parceria que tinha durado muito pouco. Mas como eu não tinha pensado naquilo antes? Era plausível que ambos, algum dia, tivessem cantado juntos. Talento para isso, tinham. Vinicius colecionava parceiros. Edu Lobo, Baden Powell, Chico Buarque, Mutinho, Toquinho, Tom Jobim. Por que não João Bosco? Plausível, muito plausível. Possível, muito possível. Fosse como fosse, ambos juntos era genial.
Procurei na internet, e a brochada foi, como se diz, monumental. Não se tratava da parceria que eu havia imaginado. Desgraçadamente, João Bosco e Vinicius é o nome de uma dessas duplas de jovens de música eletrônica –o chamado ‘sertanejo universitário’ que, a bem da verdade, de sertanejo não tem nada.
Eu sou um sujeito mesmo muito desatualizado e, para piorar, inocente. Afinal, que rádio hoje em dia, além das exceções que já conhecemos, se dedicaria a incluir em sua programação uma canção de João Bosco (o verdadeiro) e/ou de Vinicius de Moraes (o único)? Estamos no ano de 2014, num tempo em que os sucessos musicais e as duplas de cantores podem durar não mais do que um dia.
Em meados de 1979, a presença do radio na casa das famílias brasileiras ainda era uma constante. Ouvia-se rádio o dia inteiro. Em casa, ouvíamos a Guarujá Paulista, a Atlântica, a Clube de Santos. Não havia ainda as rádios de freqüência modulada –as FM- que se popularizaram no início dos anos 1980, trazendo mais canções em inglês e influenciando em uma geração que produziria o rock nacional, cujos ecos até hoje se pode ouvir.
Naquele tempo, as músicas mais tocadas eram ‘Cálice’, com Chico e Milton Nascimento, ‘Noturno’, com Raimundo Fagner e ‘Anunciação’, com Alceu Valença. Vinicius de Moraes e Toquinho também eram freqüentes, principalmente com as cançõezinhas da Arca de Noé. Elis, com ‘O Bêbado e a Equilibrista’, e a ‘Disparada’ de Caetano também eram figurinha fácil. Antonio Marcos, Vanusa e o imbatível Roberto Carlos, que à época já tinha gravado as inesquecíveis canções que fizeram dele o que, hoje, já não é mais: um grande intérprete de músicas românticas com letras inesquecíveis e melodias incomparáveis. Sim, porque chamar Roberto de “rei” é até um sacrilégio num país de Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Luiz Gonzaga. Sobre Alceu, vale dizer que o refrão de ‘Anunciação’(“tu vens, tu vens”), que a gente cantava em voz alta a caminho da escola, devia proporcionar quase um orgasmo para nossas professoras de língua portuguesa. Nada como a conjugação perfeita do verbo...
Saudosismo à parte, a vida continua. E com a velocidade com que as coisas andam hoje em dia, neste momento, a carreira desta dupla de cantores eletrônicos deve estar, já, em curva descendente, posto que nunca mais ouvi falar neles –como aliás havia se dado quando descobri que eles, simplesmente, existiam. Devem estar andando pelo interior do País, lutando para conquistar espaço junto a prefeituras e organizadores de rodeios por cachês que, a cada dia, apresentam valores cada vez menores.
Já Elis, Roberto (aquele, não o de hoje), Chico, João Bosco, Milton, Fagner, Alceu e Vinicius –entre muitos outros- continuam firmes, e assim continuarão enquanto eu viver, tocando e cantando cada vez mais lindamente no fundo do meu coração.

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