segunda-feira, 9 de junho de 2014

A CULTURA POPOZUDA


Benilson Toniolo

Certa vez, não faz muito tempo, me dei conta que estava falando mal de Paulo Coelho sem nunca ter lido nenhum livro escrito por ele –o que é uma atitude, além de leviana, injusta.
Pus-me então a ler ‘O Alquimista’ que, na minha modesta opinião, como literatura destinada ao público adolescente, afeita às aventuras de Harry Potter, por exemplo, ou vampirescas, vai muito bem. Se considerada, porém, uma obra destinada ao público adulto,  julgo inadequada e infantil. Milton Hatoum, por exemplo, só pra ficar entre os brasileiros vivos, escreve muito melhor do que ele. Pronto. Agora posso falar da obra de Coelho com algum conhecimento de causa. Consciência tranqüila, vamos em frente.
Digo isto para declarar pela presente, a quem possa interessar, que assisti ao videoclipe da música ‘Beijinho no Ombro’, grande sucesso da música nacional interpretado pela pensadora brasileira contemporânea Valeska Popozuda (e não Vanessa, como imaginei que fosse). Entenda-se: não tive outra opção, uma vez que o Brasil inteiro canta a música. Vai que a intérprete aparece por aqui para fazer um show e eu não sei de quem se trata? Se no ano passado já me chamaram de ‘elitista’ por eu não conhecer o funqueiro (é assim que se escreve?) Naldo e seu sucesso ‘Se Joga’, o que diriam se eu não procurasse me informar sobre a cantora da moda? Fui lá no youtube, conferir.
Valeska é, na minha opinião, uma mulher que não se pode chamar de bonita. Diria que possui uma estampa, aliás, até bastante comum. Só aqui no meu bairro está cheio de mulheres muito mais bonitas do que ela. Mas como o conceito de beleza é muito pessoal, continuo achando bonitas a Adriana Calcanhotto e a Leila Pinheiro, por exemplo, só pra ficarmos entre as cantoras. Ah, você nunca ouviu falar delas? Elitista.
Mesmo a bunda de Valeska, que lhe garante o epíteto artístico e, portanto, deve ter algo diferente das  bundas das outras pessoas , não me foi possível conferir, porque durante o clipe a artista fica sempre de frente. Mas imagino que para uma pessoa ter uma parte do corpo incorporado ao seu nome artístico é sinal que esta parte deve ter algo que se destaque em comparação com as demais. Vide Garrincha, o anjo das pernas tortas, Canhoteiro e Gérson, o ‘Canhota’, jogadores de futebol –brilhantes, por sinal- que tiveram a perna esquerda incorporada aos seus nomes pela notória habilidade, o que, acredito, seja também o caso da bunda de Valeska. No fundo, deve ser o que ela tem de melhor a mostrar. Bem no fundo, aliás.
Desculpem-me seus milhares –ou seria milhões?- de fãs, mas o fato é que ela canta mal. Muito mal. Mas desconfio, a julgar pelo som que ouço diariamente aqui na vizinhança de casa, que cantar mal é condição sine qua non para que alguém se aventure a interpretar esse estilo de música. E outra: no caso da obra ‘Beijinho no Ombro’, o sotaque exageradamente carioca, sobretudo no final da frase, incomoda. Não é um sotaque como o de Vinicius de Moraes, nem o de Tom Jobim, que até emprestam um certo charme à canção. O sotaque de Valeska é forçado, tônico, inconveniente, dói no ouvido quando proferido, sobretudo ao final de cada verso.
A letra é sofrível –o que, aliás, é outra característica desse tipo de música.Trata da supremacia dela com relação às suas amigas invejosas. Toda a letra elenca a superioridade de sua dela turma (ou galera), composta por mulheres descoladas, gostosas, ricas e auto-suficientes. As outras ‘amigas’, feias, mal arranjadas de corpo, recalcadas e inexpressivas, têm mais é que se ferrar e ficar sozinhas, curtindo seus rancores por não conseguirem fazer parte do grupo de Valeska que, soberana, ordena: ‘late mais alto, que do alto eu não te escuto / do camarote quase não dá pra te ver’. Tem até uma expressão que me chamou particularmente a atenção: ‘rala, mandada’. Trata-se de outra determinação que Valeska, a da bunda grande (o popozão), dirige às suas súditas. Ou seja, não basta ser mais gostosa, rica e poderosa que a amiga invejosa: é preciso lembrar a condição social inferior da rival, supostamente uma assalariada que recebe e deve cumprir ordens se quiser sobreviver no emprego e na vida.
Valeska diz que faz ‘Deus de escudo’. Isso é bom, mas antes é bom combinar com o Altíssimo, que até por uma questão de hierarquia não deve gostar nada de ser usado por ninguém e muito menos ter seu Santo Nome vinculado a alguém que tem a bunda como seu principal atributo. Se ainda fosse o Cartola ou o João Nogueira, ainda vá.
A letra ainda tem muitas outras aberrações, que não valem a pena ser destacadas. São versos agressivos e repletos de referências à violência e à inveja –ou ‘recalque’, como a pensadora frisa sempre.
Valeska vai desaparecer com a mesma velocidade dos outros funqueiros (acho que é assim que se escreve, mesmo) como Naldo a Anitta, passando por outros de menor estirpe, até que surja outro fenômeno da “música” que “faça a cabeça da galera”, como eles dizem. E nós, que aos poucos vamos perdendo a capacidade de nos ruborizarmos diante do espetáculo de meninos e meninas de dez, onze anos, de trajes exíguos simulando atos pornográficos em público, continuaremos reféns do mau-gosto, da vulgaridade e do lodo de imbecilidade e mau-caratismo  em que a arte popular  deste País está mergulhada.
Afinal de contas, onde é que fomos parar? Por qual motivo chegamos até aqui? Quem permitiu isso? Será devido à falência da educação ou da família? Em que tipo de gente nós, brasileiros, do ponto de vista cultural, estamos nos tornando? Por qual motivo essa gente –Valeska, Anitta, Naldo, esse monte de emecís milionários- faz tanto sucesso com suas músicas ordinárias e suas letras vulgares, repletas de desrespeito e excessivo apego ao dinheiro e ao consumo?
Pode ser que alguém ache que estou levando muito a sério algo que, no final das contas, nem tem tanta importância assim. Mas é que arte, pelo menos para mim, é coisa séria, capaz de formar e transformar a vida de um povo.
Nem sei se esse tipo de discussão vale a pena. Provavelmente, se alguém for levar em conta o que tenho a dizer, serei tachado de invejoso –ou, no vocabulário popozuquês, “recalcado”. É o risco que correm os que mantém acesas as luzes da reflexão e da inquietação.

E veja se late mais alto, Benilson, porque lá do alto não há quem te escute.

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