Benilson Toniolo
Certa vez, não faz muito
tempo, me dei conta que estava falando mal de Paulo Coelho sem nunca ter lido
nenhum livro escrito por ele –o que é uma atitude, além de leviana, injusta.
Pus-me então a ler ‘O
Alquimista’ que, na minha modesta opinião, como literatura destinada ao público
adolescente, afeita às aventuras de Harry Potter, por exemplo, ou vampirescas, vai
muito bem. Se considerada, porém, uma obra destinada ao público adulto, julgo inadequada e infantil. Milton Hatoum,
por exemplo, só pra ficar entre os brasileiros vivos, escreve muito melhor do que
ele. Pronto. Agora posso falar da obra de Coelho com algum conhecimento de
causa. Consciência tranqüila, vamos em frente.
Digo isto para declarar pela
presente, a quem possa interessar, que assisti ao videoclipe da música
‘Beijinho no Ombro’, grande sucesso da música nacional interpretado pela
pensadora brasileira contemporânea Valeska Popozuda (e não Vanessa, como
imaginei que fosse). Entenda-se: não tive outra opção, uma vez que o Brasil
inteiro canta a música. Vai que a intérprete aparece por aqui para fazer um
show e eu não sei de quem se trata? Se no ano passado já me chamaram de
‘elitista’ por eu não conhecer o funqueiro (é assim que se escreve?) Naldo e
seu sucesso ‘Se Joga’, o que diriam se eu não procurasse me informar sobre a
cantora da moda? Fui lá no youtube, conferir.
Valeska é, na minha opinião,
uma mulher que não se pode chamar de bonita. Diria que possui uma estampa,
aliás, até bastante comum. Só aqui no meu bairro está cheio de mulheres muito
mais bonitas do que ela. Mas como o conceito de beleza é muito pessoal,
continuo achando bonitas a Adriana Calcanhotto e a Leila Pinheiro, por exemplo,
só pra ficarmos entre as cantoras. Ah, você nunca ouviu falar delas? Elitista.
Mesmo a bunda de Valeska, que
lhe garante o epíteto artístico e, portanto, deve ter algo diferente das bundas das outras pessoas , não me foi
possível conferir, porque durante o clipe a artista fica sempre de frente. Mas
imagino que para uma pessoa ter uma parte do corpo incorporado ao seu nome artístico
é sinal que esta parte deve ter algo que se destaque em comparação com as
demais. Vide Garrincha, o anjo das pernas tortas, Canhoteiro e Gérson, o
‘Canhota’, jogadores de futebol –brilhantes, por sinal- que tiveram a perna
esquerda incorporada aos seus nomes pela notória habilidade, o que, acredito,
seja também o caso da bunda de Valeska. No fundo, deve ser o que ela tem de
melhor a mostrar. Bem no fundo, aliás.
Desculpem-me seus milhares –ou
seria milhões?- de fãs, mas o fato é que ela canta mal. Muito mal. Mas
desconfio, a julgar pelo som que ouço diariamente aqui na vizinhança de casa,
que cantar mal é condição sine qua non
para que alguém se aventure a interpretar esse estilo de música. E outra: no
caso da obra ‘Beijinho no Ombro’, o sotaque exageradamente carioca, sobretudo
no final da frase, incomoda. Não é um sotaque como o de Vinicius de Moraes, nem
o de Tom Jobim, que até emprestam um certo charme à canção. O sotaque de
Valeska é forçado, tônico, inconveniente, dói no ouvido quando proferido,
sobretudo ao final de cada verso.
A letra é sofrível –o que,
aliás, é outra característica desse tipo de música.Trata da supremacia dela com
relação às suas amigas invejosas. Toda a letra elenca a superioridade de sua
dela turma (ou galera), composta por mulheres descoladas, gostosas, ricas e
auto-suficientes. As outras ‘amigas’, feias, mal arranjadas de corpo, recalcadas
e inexpressivas, têm mais é que se ferrar e ficar sozinhas, curtindo seus
rancores por não conseguirem fazer parte do grupo de Valeska que, soberana,
ordena: ‘late mais alto, que do alto eu não te escuto / do camarote quase não
dá pra te ver’. Tem até uma expressão que me chamou particularmente a atenção:
‘rala, mandada’. Trata-se de outra determinação que Valeska, a da bunda grande
(o popozão), dirige às suas súditas. Ou seja, não basta ser mais gostosa, rica
e poderosa que a amiga invejosa: é preciso lembrar a condição social inferior
da rival, supostamente uma assalariada que recebe e deve cumprir ordens se
quiser sobreviver no emprego e na vida.
Valeska diz que faz ‘Deus de
escudo’. Isso é bom, mas antes é bom combinar com o Altíssimo, que até por uma
questão de hierarquia não deve gostar nada de ser usado por ninguém e muito
menos ter seu Santo Nome vinculado a alguém que tem a bunda como seu principal
atributo. Se ainda fosse o Cartola ou o João Nogueira, ainda vá.
A letra ainda tem muitas
outras aberrações, que não valem a pena ser destacadas. São versos agressivos e
repletos de referências à violência e à inveja –ou ‘recalque’, como a pensadora
frisa sempre.
Valeska vai desaparecer com a
mesma velocidade dos outros funqueiros (acho que é assim que se escreve, mesmo)
como Naldo a Anitta, passando por outros de menor estirpe, até que surja outro
fenômeno da “música” que “faça a cabeça da galera”, como eles dizem. E nós, que
aos poucos vamos perdendo a capacidade de nos ruborizarmos diante do espetáculo
de meninos e meninas de dez, onze anos, de trajes exíguos simulando atos
pornográficos em público, continuaremos reféns do mau-gosto, da vulgaridade e
do lodo de imbecilidade e mau-caratismo
em que a arte popular deste País
está mergulhada.
Afinal de contas, onde é que
fomos parar? Por qual motivo chegamos até aqui? Quem permitiu isso? Será devido
à falência da educação ou da família? Em que tipo de gente nós, brasileiros, do
ponto de vista cultural, estamos nos tornando? Por qual motivo essa gente
–Valeska, Anitta, Naldo, esse monte de emecís milionários- faz tanto sucesso com
suas músicas ordinárias e suas letras vulgares, repletas de desrespeito e
excessivo apego ao dinheiro e ao consumo?
Pode ser que alguém ache que
estou levando muito a sério algo que, no final das contas, nem tem tanta
importância assim. Mas é que arte, pelo menos para mim, é coisa séria, capaz de
formar e transformar a vida de um povo.
Nem sei se esse tipo de
discussão vale a pena. Provavelmente, se alguém for levar em conta o que tenho
a dizer, serei tachado de invejoso –ou, no vocabulário popozuquês, “recalcado”.
É o risco que correm os que mantém acesas as luzes da reflexão e da
inquietação.
E veja se late mais alto,
Benilson, porque lá do alto não há quem te escute.

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