sexta-feira, 20 de junho de 2014

A NOITE MÁGICA DO TEATRO MÁGICO

Benilson Toniolo


Fernando Anitelli, o líder da trupe d’O Teatro Mágico, costuma dizer que o grupo “não faz shows, mas celebrações à vida”. E está certo. Prova disso foi o que aconteceu ontem à noite, aqui em Campos do Jordão: liderado por ele, o TM conduziu por duas horas uma grande “celebração” que contou com a participação especialíssima de quase duas mil pessoas que cantavam e dançavam sob um frio congelante de sete graus, na abertura do Festival de Música da Fundação Lia Maria Aguiar, evento que conta com apoio da Prefeitura e que proporcionará a jordanenses e visitantes espetáculos musicais durante o feriado de Corpus Christi.
Foi lindo. Crianças pequeninas –alguns, pouco mais que bebês-, adolescentes, adultos e gente de cabeça branca (as “crianças nascidas faz tempo”, como diz uma das canções do grupo) toparam o convite feito por Anitelli, e protagonizaram um encontro raro em que não havia, simplesmente, o artista e seu público. Mais do que isso: com sua postura em palco e o domínio absoluto da noite, o grupo elevou ao grau máximo o conceito de “interatividade”. Durante e, principalmente, ao final do espetáculo, banda e público se fundiram num só elemento. Mesmo o problema técnico havido no violão de Fernando durante a execução de uma música, acabou servindo de mote para que o público, uma vez mais, tomasse o lugar do artista e entoasse em uníssono a canção até quase o final. O artista tornou-se, naquele momento, quase desnecessário, pois somente sua obra era suficiente –e necessária. Ali, ele poderia ter ido embora, que sua música falaria na voz de seu público. E Fernando sabe disso. Sabedor de que a obra do artista passa a ser pertencimento de seu público, entendeu o momento e praticamente somente assistiu ao protagonismo do público. Imagino a emoção de um artista ao testemunhar o exato momento em que a obra deixa de ser sua para tornar-se domínio dos outros.
A participação do coral e do grupo de dança da Fundação Lia Maria Aguiar também foi espetacular. Meninos e meninas jordanenses, vindos dos mais distantes bairros de nossa Cidade, encantaram o público e reafirmaram nossa vocação para as artes. Pena que estejamos tão atrasados. Há muito ainda a ser feito para que se recupere o tempo perdido.
Mas não é somente no carisma e na figura emblemática de Fernando que reside a magia do grupo. Ao inserir à poesia –também ela o elemento predominante no discurso e nas ações- elementos de dança, música, circo e teatro, ele acaba por celebrar um dos seus pilares –“por que é que não se junta tudo numa coisa só?”- e oferece ao público uma gama de conceitos de arte que parece ter sido relegada ao esquecimento pela maior parte das pessoas, sobretudo numa época em que a velocidade acaba por nos impor o emburrecimento e a apatia. O Teatro Mágico, com suas letras altamente elaboradas e a diversidade de suas melodias, fala ao coração de quem está insatisfeito com o mundo e com o rumo que ele toma.  
Eu ansiava pela vida do TM já há algum tempo. Posso dizer que se tratava de um sonho, realizado com rara brevidade. Porque, com a devida licença, entendo que a existência de um grupo como o Teatro Mágico, num país como o nosso, com esta indústria de entretenimento que permitiram que aqui fosse instalada e com esta banalização da cultura popular a que temos assistido diariamente, se constitui em quase um milagre.
Acho que é isso. Num país que trata sua cultura com “tiro, porrada e bomba”, a existência do Teatro Mágico é quase um milagre –uma inspiração que faz brilhar ainda mais forte a fria e renovada atmosfera jordanense, e que nos inspira a buscar cada vez mais, e com mais afinco, a poesia escondida que reside em cada um dos recantos desta Cidade.

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