Benilson Toniolo
Fernando Anitelli, o líder da
trupe d’O Teatro Mágico, costuma dizer que o grupo “não faz shows, mas celebrações
à vida”. E está certo. Prova disso foi o que aconteceu ontem à noite, aqui em
Campos do Jordão: liderado por ele, o TM conduziu por duas horas uma grande “celebração”
que contou com a participação especialíssima de quase duas mil pessoas que
cantavam e dançavam sob um frio congelante de sete graus, na abertura do
Festival de Música da Fundação Lia Maria Aguiar, evento que conta com apoio da
Prefeitura e que proporcionará a jordanenses e visitantes espetáculos musicais
durante o feriado de Corpus Christi.
Foi lindo. Crianças pequeninas
–alguns, pouco mais que bebês-, adolescentes, adultos e gente de cabeça branca
(as “crianças nascidas faz tempo”, como diz uma das canções do grupo) toparam o
convite feito por Anitelli, e protagonizaram um encontro raro em que não havia,
simplesmente, o artista e seu público. Mais do que isso: com sua postura em
palco e o domínio absoluto da noite, o grupo elevou ao grau máximo o conceito
de “interatividade”. Durante e, principalmente, ao final do espetáculo, banda e
público se fundiram num só elemento. Mesmo o problema técnico havido no violão de
Fernando durante a execução de uma música, acabou servindo de mote para que o
público, uma vez mais, tomasse o lugar do artista e entoasse em uníssono a canção
até quase o final. O artista tornou-se, naquele momento, quase desnecessário,
pois somente sua obra era suficiente –e necessária. Ali, ele poderia ter ido
embora, que sua música falaria na voz de seu público. E Fernando sabe disso.
Sabedor de que a obra do artista passa a ser pertencimento de seu público,
entendeu o momento e praticamente somente assistiu ao protagonismo do público.
Imagino a emoção de um artista ao testemunhar o exato momento em que a obra
deixa de ser sua para tornar-se domínio dos outros.
A participação do coral e do
grupo de dança da Fundação Lia Maria Aguiar também foi espetacular. Meninos e
meninas jordanenses, vindos dos mais distantes bairros de nossa Cidade,
encantaram o público e reafirmaram nossa vocação para as artes. Pena que
estejamos tão atrasados. Há muito ainda a ser feito para que se recupere o
tempo perdido.
Mas não é somente no carisma e
na figura emblemática de Fernando que reside a magia do grupo. Ao inserir à
poesia –também ela o elemento predominante no discurso e nas ações- elementos
de dança, música, circo e teatro, ele acaba por celebrar um dos seus pilares –“por
que é que não se junta tudo numa coisa só?”- e oferece ao público uma gama de
conceitos de arte que parece ter sido relegada ao esquecimento pela maior parte
das pessoas, sobretudo numa época em que a velocidade acaba por nos impor o
emburrecimento e a apatia. O Teatro Mágico, com suas letras altamente
elaboradas e a diversidade de suas melodias, fala ao coração de quem está
insatisfeito com o mundo e com o rumo que ele toma.
Eu ansiava pela vida do TM já há
algum tempo. Posso dizer que se tratava de um sonho, realizado com rara
brevidade. Porque, com a devida licença, entendo que a existência de um grupo
como o Teatro Mágico, num país como o nosso, com esta indústria de
entretenimento que permitiram que aqui fosse instalada e com esta banalização da
cultura popular a que temos assistido diariamente, se constitui em quase um
milagre.
Acho que é isso. Num país que
trata sua cultura com “tiro, porrada e bomba”, a existência do Teatro Mágico é
quase um milagre –uma inspiração que faz brilhar ainda mais forte a fria e
renovada atmosfera jordanense, e que nos inspira a buscar cada vez mais, e com
mais afinco, a poesia escondida que reside em cada um dos recantos desta
Cidade.

Sem comentários:
Enviar um comentário