quarta-feira, 11 de junho de 2014

RECONSTRUIR

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Benilson Toniolo

A bem da verdade, nunca nos demos bem. Trabalhamos juntos por mais de quatro anos e, devido a uma série de circunstâncias diversas, passei a considerá-lo um péssimo funcionário, e não me dava conta que também eu estava me saindo um péssimo gerente.
Demiti-o. Anos depois, deixei a empresa posteriormente e passamos a fingir que não nos conhecíamos, quando por acaso nossos caminhos se cruzavam pelas ruas e calçadas da nossa pequena cidade.
Para mim, era um desconforto. E, quero crer, para ele também. Por mais de dez anos, nossos olhares se cruzaram inúmeras vezes. Sempre um desviava o olhar e continuava o caminho. Uma vez, liguei em uma empresa para contratar um serviço e sei que quem me atendeu foi ele. Identifiquei-me com outro nome.
Isso durou mais de dez anos.
Esta semana, fui com Simone a um café e, enquanto esperávamos, vi-o entrando. Carregava uma caixa e usava o uniforme da empresa onde estávamos. A cena se repetiu: me viu, o vi, desviamos o olhar. E então aconteceu: recaiu-me a vergonha absoluta de portar dentro de mim um ressentimento desnecessário, hipócrita, estúpido. Não precisava daquilo. Se durante tanto tempo fingi que toda aquela porcariada que trazia com relação a ele não existia, a vergonha do sentimento abjeto veio à tona. Num ímpeto, disse a Simone que tinha que resolver algo dentro da loja e já voltava.
Entrei, e não o vi. Alguns clientes, funcionários, corredores, prateleiras, materiais, cartazes. Movimento de final de expediente, seis e meia da tarde. No fundo do corredor, uma porta. Nada. Quando já voltava para o café, olhei novamente e lá estava. Dei a volta por um corredor e fui  em sua direção. Perfilou-se como se fosse atender a mais um cliente. Estendi-lhe a mão. Cumprimentos. Disse-lhe:
- Acho que, dez anos depois, podemos voltar a nos falar, não?
Ele sorriu.
- Acho que sim.
Pausa. Ele:
- Outro dia te vi no desfile de aniversário da cidade. Ia falar com você, mas estava muito movimentado, muita gente...
Olhei-o fixamente. Sorri, também.
- Que Deus o abençoe.
- A você também.
Novo aperto de mãos, desta vez mais forte, e despedimo-nos. Voltei ao café, que já estava servido. Simone, acostumada com minhas esquisitices e repentes, não perguntou o que teria eu ido fazer no fundo de uma loja de materiais de construção. Logo eu, que volto e meia me dedico, justamente, a visitar minhas ruínas e tentar reconstruir certas coisas.  

A vida é boa.

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