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Benilson Toniolo
A bem da verdade, nunca nos
demos bem. Trabalhamos juntos por mais de quatro anos e, devido a uma série de
circunstâncias diversas, passei a considerá-lo um péssimo funcionário, e não me
dava conta que também eu estava me saindo um péssimo gerente.
Demiti-o. Anos depois, deixei
a empresa posteriormente e passamos a fingir que não nos conhecíamos, quando
por acaso nossos caminhos se cruzavam pelas ruas e calçadas da nossa pequena
cidade.
Para mim, era um desconforto. E,
quero crer, para ele também. Por mais de dez anos, nossos olhares se cruzaram
inúmeras vezes. Sempre um desviava o olhar e continuava o caminho. Uma vez,
liguei em uma empresa para contratar um serviço e sei que quem me atendeu foi
ele. Identifiquei-me com outro nome.
Isso durou mais de dez anos.
Esta semana, fui com Simone a
um café e, enquanto esperávamos, vi-o entrando. Carregava uma caixa e usava o
uniforme da empresa onde estávamos. A cena se repetiu: me viu, o vi, desviamos
o olhar. E então aconteceu: recaiu-me a vergonha absoluta de portar dentro de
mim um ressentimento desnecessário, hipócrita, estúpido. Não precisava daquilo.
Se durante tanto tempo fingi que toda aquela porcariada que trazia com relação a
ele não existia, a vergonha do sentimento abjeto veio à tona. Num ímpeto, disse
a Simone que tinha que resolver algo dentro da loja e já voltava.
Entrei, e não o vi. Alguns
clientes, funcionários, corredores, prateleiras, materiais, cartazes. Movimento
de final de expediente, seis e meia da tarde. No fundo do corredor, uma porta.
Nada. Quando já voltava para o café, olhei novamente e lá estava. Dei a volta
por um corredor e fui em sua direção. Perfilou-se
como se fosse atender a mais um cliente. Estendi-lhe a mão. Cumprimentos.
Disse-lhe:
- Acho que, dez anos depois,
podemos voltar a nos falar, não?
Ele sorriu.
- Acho que sim.
Pausa. Ele:
- Outro dia te vi no desfile de
aniversário da cidade. Ia falar com você, mas estava muito movimentado, muita
gente...
Olhei-o fixamente. Sorri,
também.
- Que Deus o abençoe.
- A você também.
Novo aperto de mãos, desta vez
mais forte, e despedimo-nos. Voltei ao café, que já estava servido. Simone,
acostumada com minhas esquisitices e repentes, não perguntou o que teria eu ido
fazer no fundo de uma loja de materiais de construção. Logo eu, que volto e
meia me dedico, justamente, a visitar minhas ruínas e tentar reconstruir certas
coisas.
A vida é boa.

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