Benilson Toniolo
Meio de tarde, sol a pino,
venho pela calçada do Mercado de Abernéssia, movimentação suspeita à frente: alvoroçado,
um grupo de pessoas olha para algo que está no chão. Me aproximo e vejo: entre
a rua e o meio-fio, um senhor deitado de bruços, aparentemente desacordado. O
burburinho de sempre: chama a ambulância, já chamaram, deve estar chegando,
está machucado?, ninguém sabe, melhor não por a mão, alguém conhece?, tá sempre
por aqui, será que ta bêbado?, não parece, coitado, deve ser derrame.
Encontro por ali o amigo Tadeu
Salles, fotógrafo, arquiteto e competentíssimo Secretário Municipal Adjunto de
Serviços Públicos. Que que houve, Tadeu? Não sei, estava passando, tinha essa
muvuca aí, mas já chamei a ambulância, deve estar chegando.
Aproximo-me do homem caído e
vejo que está consciente. A poucos centímetros dele, uma marmita no chão com
restos de comida, que certamente trazia nas mãos quando caiu.
- Como é que está aí, senhor?
Ele fala baixo, quase um
sussurro. Mas fala.
- Tudo bem.
Tem um filete de sangue saindo
da boca.
- Tá doendo alguma coisa?
- A perna.
- Como é que o senhor se
chama?
- José.
- Machucou a perna então, seo
José?
- É.
O homem tem arroz nos cabelos.
O resto da comida que vinha na marmita está jogado no chão.
- Mas o senhor está tranqüilo?
- Tá tudo bem, meu filho.
- Como é que foi, o senhor
caiu?
Que pergunta, a minha, meu
Deus. Claro que o homem caiu.
- Caí.
- Fica tranqüilo aí, que uma
ambulância tá vindo aí ver essa perna.
Ele faz menção de se mexer.
- Não se mexe, não, já estão
vindo aí buscar o senhor. Se mexer, a perna vai doer mais.
- Tá bom, meu filho.
Despeço-me do Tadeu e vou
saindo, que a vida urge e são inúmeras as obrigações do dia. E quando dou três,
quatro passos, ouço lá de baixo a voz do seo José, vindo dos fundos da calçada
onde se encontra, agora um pouco mais que um sussurro:
- Vai com Deus, meu filho.
Foi esta a mensagem do homem
pobre, simples e mal-vestido, com restos de comida nas orelhas, nos cabelos nas
roupas. O homem sem dentes, de aspecto pobre, de sapatos pobres, agasalho pobre
e puído, calça suja, que por algum motivo caíra entre o meio-fio e a rua e reclamava
que a perna estava doendo, e que talvez não tivesse sequer reparado que havia
um riacho rubro a sair-lhe da boca, provavelmente machucada quando da queda.
Apesar de tudo –da pobreza, do povo em volta, da situação em que se
encontrava-, seo José lembrava-se de Deus, e não deixava de recomendar,
enquanto esperava o socorro da ambulância, que eu O levasse comigo, fosse qual
fosse meu destino.
De onde estava, elevei a voz:
- Fique com Ele, também.
Não entendi bem o que se
passara. Sou um sujeito ruim de simbolismos. Mas o que houve ali, naquela tarde
calorenta de Abernéssia, guardei no coração para o dia em que me reencontrar
com o seo José, em alguma das calçadas de nossa Cidade. E, independente de qual
de nós estiver de pé ou caído, jamais me esquecerei de dizer a ele que o que
ele me desejou acabou dando certo. Pelo menos, é o que espero que tenha
acontecido.

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