quinta-feira, 12 de junho de 2014

A LIÇÃO DO ‘SEO’ JOSÉ – O HOMEM E SUA QUEDA


Benilson Toniolo

Meio de tarde, sol a pino, venho pela calçada do Mercado de Abernéssia, movimentação suspeita à frente: alvoroçado, um grupo de pessoas olha para algo que está no chão. Me aproximo e vejo: entre a rua e o meio-fio, um senhor deitado de bruços, aparentemente desacordado. O burburinho de sempre: chama a ambulância, já chamaram, deve estar chegando, está machucado?, ninguém sabe, melhor não por a mão, alguém conhece?, tá sempre por aqui, será que ta bêbado?, não parece, coitado, deve ser derrame.
Encontro por ali o amigo Tadeu Salles, fotógrafo, arquiteto e competentíssimo Secretário Municipal Adjunto de Serviços Públicos. Que que houve, Tadeu? Não sei, estava passando, tinha essa muvuca aí, mas já chamei a ambulância, deve estar chegando.
Aproximo-me do homem caído e vejo que está consciente. A poucos centímetros dele, uma marmita no chão com restos de comida, que certamente trazia nas mãos quando caiu.
- Como é que está aí, senhor?
Ele fala baixo, quase um sussurro. Mas fala.
- Tudo bem.
Tem um filete de sangue saindo da boca.
- Tá doendo alguma coisa?
- A perna.
- Como é que o senhor se chama?
- José.
- Machucou a perna então, seo José?
- É.
O homem tem arroz nos cabelos. O resto da comida que vinha na marmita está jogado no chão.
- Mas o senhor está tranqüilo?
- Tá tudo bem, meu filho.
- Como é que foi, o senhor caiu?
Que pergunta, a minha, meu Deus. Claro que o homem caiu.
- Caí.
- Fica tranqüilo aí, que uma ambulância tá vindo aí ver essa perna.
Ele faz menção de se mexer.
- Não se mexe, não, já estão vindo aí buscar o senhor. Se mexer, a perna vai doer mais.
- Tá bom, meu filho.
Despeço-me do Tadeu e vou saindo, que a vida urge e são inúmeras as obrigações do dia. E quando dou três, quatro passos, ouço lá de baixo a voz do seo José, vindo dos fundos da calçada onde se encontra, agora um pouco mais que um sussurro:
- Vai com Deus, meu filho.
Foi esta a mensagem do homem pobre, simples e mal-vestido, com restos de comida nas orelhas, nos cabelos nas roupas. O homem sem dentes, de aspecto pobre, de sapatos pobres, agasalho pobre e puído, calça suja, que por algum motivo caíra entre o meio-fio e a rua e reclamava que a perna estava doendo, e que talvez não tivesse sequer reparado que havia um riacho rubro a sair-lhe da boca, provavelmente machucada quando da queda. Apesar de tudo –da pobreza, do povo em volta, da situação em que se encontrava-, seo José lembrava-se de Deus, e não deixava de recomendar, enquanto esperava o socorro da ambulância, que eu O levasse comigo, fosse qual fosse meu destino.
De onde estava, elevei a voz:
- Fique com Ele, também.

Não entendi bem o que se passara. Sou um sujeito ruim de simbolismos. Mas o que houve ali, naquela tarde calorenta de Abernéssia, guardei no coração para o dia em que me reencontrar com o seo José, em alguma das calçadas de nossa Cidade. E, independente de qual de nós estiver de pé ou caído, jamais me esquecerei de dizer a ele que o que ele me desejou acabou dando certo. Pelo menos, é o que espero que tenha acontecido.

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