Benilson Toniolo
É comum que a gente demore um
pouco –ou até resista um pouco- a reconhecer a importância das relações humanas
no trabalho. Estamos tão preocupados com o resultado final de nossas ações e tão
comprometidos com o foco, que deixamos de lado o processo. E, na grande maioria
das vezes, é justamente por falhas durante o planejamento e execução do
processo que o resultado deixa de ser alcançado. E quando isto acontece, o
normal é ocorrer uma verdadeira ‘caça às bruxas’, procurando identificar
culpados. Poucas vezes nos debruçamos sobre um fracasso com olhos neutros,
buscando entender o que deu errado para, da próxima vez, acertarmos. Procurar
culpados é o primeiro passo para a desmotivação e o desfazimento de equipes
que, muitas vezes, poderiam gerar bons resultados se fossem trabalhadas com
mais atenção por seus lideres.
Um resultado negativo no
trabalho começa, muitas vezes, pelo fracasso nas relações humanas. Uma equipe cujos
membros não se gostem, ou que tenham diferenças entre si que não tenham sido
equacionadas, que não esteja motivada e comprometida, dificilmente chega a um
resultado positivo.
Até aí, nenhuma novidade.
Podemos até achar que se trata de mera retórica de especialistas em administração,
mas vejam esta experiência que tive com uma equipe de atendimento em um hotel
em que atuei nos anos 1990.
A equipe era eficiente. Não era
brilhante, nem mesmo excelente. Era uma boa equipe, com altos e baixos, como
geralmente acontece. Atendia direitinho e cumpria satisfatoriamente suas atribuições.
Dava entrada e saída de hóspedes, abria e fechava contas, arquivava documentos,
controlava o follow de reservas,
relacionava-se bem com os outros setores. Davam-se muito bem entre si. Alguns eram
amigos, freqüentavam as casas uns dos outros, saiam juntos, riam. É claro que
alguns se destacavam sobre outros. Sempre é assim.Não havia registro de
reclamações dos clientes quanto a atendimento. Mas, na minha opinião, faltava
um algo mais. Faltava um plus. O
diferencial. Aquilo que faz com que uma equipe deixe de ser somente boa para
ser inesquecível. Diferenciada. Que se destacasse entre as equipes dos outros
hotéis da cidade. Faltava, na minha opinião, uma atençãozinha maior ao detalhe,
à necessidade de cada hóspede, um cuidado diferente para que o cliente se
sentisse, mais do que bem atendido, bem tratado. A equipe fazia, e muito bem
feito, o arroz-com-feijão. Mas faltava o molho, o toque especial que haveria de
tornar o prato uma experiência inesquecível. Como gestor, eu entendia que
faltavam, no atendimento, algumas atitudes que fariam daquela equipe não
somente uma equipe eficiente, mas uma equipe capaz de encantar os clientes. E
eu não estava conseguindo. Dava treinamentos, palestras, chamei consultores,
especialistas. Gente que tinha uma mensagem a passar. E não dava certo. A
equipe chegara, pelo visto, ao seu limite. E daí não passava. Comprometido com
o resultado, eu me angustiava. Como uma equipe daquelas não conseguia alcançar o
objetivo? Mudanças eram necessárias. Mas quais?
Numa ocasião, surgiu a
necessidade de implantação de um novo sistema informatizado. E, para surpresa
geral, grande parte da equipe revelou relevante dificuldade em assimilar o
treinamento e a instalação do método. O que era uma impressão passou a se
constituir em algo inquestionável e claro: era preciso reforçar a equipe.
Abrimos processo seletivo e,
em determinado momento, surgiu à minha frente o Aldo. Bem falante, articulado,
com alguma experiência na área de atendimento, disponibilidade de horário,
fluente em inglês e japonês (morara por cerca de dois anos no Japão), além de bons
conhecimentos em espanhol, era o candidato dos sonhos de qualquer gestor. Idealista, planejava ingressar num curso superior de Administração de Empresas
e, depois de formado, mudar-se para os Estados Unidos. Detalhe: ninguém na
equipe falava outra língua. Levantamos dados nos empregos anteriores e o
contratamos, antes que alguém o fizesse.
Em três meses de trabalho, os
resultados apresentados por Aldo eram dignos de alguém que estava claramente acima
do seu cargo. Vejamos: além de assimilar o novo sistema com singular facilidade,
disponibilizou-se a treinar os colegas, permitindo assim que dispensássemos o
técnico responsável pela implantação, e que recebia por dia trabalhado. Inseriu
sozinho todas as reservas no sistema –que, até então, eram feitas de forma
manual, em formulário próprio e burocrático. Criou uma planilha para controlar
as entradas sem reserva, e uma espécie de ranking
entre os colegas. Cadastrou os hóspedes, a programação de eventos, o histórico de
veículos, informatizou o Livro de Ocorrências, instalou um módulo de ‘treino’
do software, atualizou formulários, escalas de trabalho, livro-caixa, pediu
orçamentos, deu dicas à equipe de segurança, fez back-up da auditoria. Aldo era
um fenômeno. Comecei a ficar desconfiado: como é que um profissional daquele
porte tinha ficado desempregado? Por via das dúvidas, enquanto ele ainda
cumpria seu período de experiência, solicitei ao pessoal do RH que conferisse
novamente sua vida profissional pregressa. Felizmente, nada havia que o
desabonasse.
A coisa estava indo tão bem
que me acomodei e ‘esqueci’ o restante da equipe. E, quando dei por mim,
problemas sérios haviam surgido. O ambiente de trabalho havia mudado, e o
primeiro sinal disso eram as reclamações dos hóspedes quanto a pedidos que não eram
atendidos, ou mal-atendidos. Passei a observar melhor e notei que a equipe se desunira.
Havia rusgas, respostas atravessadas, cinismo, pouco-caso, dissimulação, impaciência. Os
cadastros estavam errados e, o sistema, subutilizado. Todos os controles
criados por Aldo estavam desatualizados. E as reservas passaram a ser
registradas em folhas soltas, separadas. Não se usava nem mais o antigo formulário.
Chamei a equipe, e não foi
preciso muito tempo para entender que o problema era o novo contratado.
Observando um pouco mais atentamente, pude constatar que Aldo era um sujeito,
como se diz, ruim de se conviver. Áspero, irônico, impaciente, desorganizado e dono
de um ego do tamanho do prédio, comportava-se como se todos os demais fossem inferiores. Gabava-se da aproximação dele comigo. Considerava-se um privilegiado instalado no topo da cadeia. Liguei para a sede da empresa e pedi uma reunião com o Gerente de Recursos Humanos. Narrei-lhe a situação, e ele foi enfático: “se
ele não sabe trabalhar em equipe, não é bom. Dispense”.
Não o fiz por achar que,
acompanhando o caso de forma mais próxima, conseguiria reverter o quadro. Não consegui.
Chegamos a um ponto em que alguns membros de equipe deixaram de se falar. Além
do mais Aldo revelou-se, entre outras coisas, um profissional desonesto e caluniador. Cinco meses após contratá-lo, demiti-o,
e me vi com uma equipe inteira nas mãos a ser reconstruída –e reconquistada.
Tudo isto devido à falta de
acompanhamento do processo. Do meio. Do durante. Do dia-a-dia, das rotinas, do
andamento das atribuições cotidianas, que é onde se encontra a chave para que o
resultado seja alcançado. Tudo isto porque nos furtamos, na maioria das vezes,
a ouvir os que caminham ao nosso lado. Mas principalmente por, muitas vezes, dedicarmos tanto
esforço ao momento de alcançar a linha de chegada, sem atentar para as
armadilhas presentes na caminhada.

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