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Benilson Toniolo
Ele tem pouco mais de 40 anos e, em busca
de “felicidade, amor verdadeiro e liberdade”, se separou da família. Porque o
sujeito diz que se separou da esposa, mas esquece que, na verdade, se separou
da família: invariavelmente há os filhos e, no caso dele, dois, de dez e sete
anos. Então, separado e devidamente pronto para adotar seu novo estilo de vida,
ele tomou algumas providências: passou a pagar religiosamente a pensão alimentícia,
a correr 10 quilômetros pelo menos duas vezes por semana, agendou uma cirurgia
para eliminar de vez a miopia (e assim poder usar óculos de sol), comprou uma
bicicleta nova, em dez prestações, para pedalar no final de semana com os
amigos e eventuais novas amigas, matriculou-se numa academia de musculação,
passou a sorrir mais e ficar mais simpático, adotou a moda da depilação masculina,
assumiu de vez a calvície e comunicou ao banco que, doravante, não vai mais
pagar a dívida do cheque especial (claro que, antes disso, abriu conta em outra
instituição, pediu cartão de crédito, dez talões de cheques –para emergências-
e novo limite. Foi atendido, claro, que bancos em geral são entidades muito
preocupadas em atender às necessidades de seus clientes –principalmente os mais
novos). Um dia depois de voltar a morar com a mãe viúva, foi ao shopping e
comprou roupas novas e sapatos novos.
Da partilha, ficou com a TV de 39
polegadas, o home-theater, o carro modelo 2007 faltando dois anos para ser
quitado e que ainda não tem seguro, um guarda-roupas pequeno, uma cômoda, uma
mesinha de centro e uma peça de artesanato de Porto Seguro, lembrança da
lua-de-mel. A casa da mãe, pequena, “ficou ainda menor com tanta tralha”, no
dizer da própria. Mas mãe é mãe e, para ela, filho é sempre aquele menininho
sapeca que merece todos os cuidados: ela lava-lhe as roupas, capricha no
amaciante, faz-lhe os pratos preferidos e deixa a cama sempre pronta para
quando ele chegar para dormir. Já ele, em contrapartida, acompanha-a ao
supermercado, faz o saque mensal do dinheiro da aposentadoria, conserta uma
torneira, troca a resistência do chuveiro, compra o pão e o leite do lanche
vespertino e a deixa na casa da única irmã nas visitas dominicais.
Ele tem novas amigas, troca de namorada
com assustadora freqüência e, com as novas tecnologias, cadastrou-se em sites
para solteiros, onde “sempre aparece alguém mais ou menos interessante”. Se esse
alguém topar, eles saem “para se conhecer melhor” e, dependendo da relação custo-benefício,
ele lança mão de sua nova mania: filmar os dois na intimidade. Geralmente, elas
topam. E retribuem, enviando-lhe via whatsapp fotos em que aparecem em poses
ora sensuais, ora pornográficas. Satisfeito, depois de uma ou duas caipirinhas
com os novos amigos solteiros e descasados como ele, se oferece para exibir seu
rico acervo pornô-tecnológico em seu moderno smart phone: “Essa eu pego, essa
eu passo, essa já arranjou um cara e não está mais disponível, essa não quer
mais nada comigo”. E contam, ele e os amigos, vantagens e desvantagens,
enquanto soltam homéricas gargalhadas e o garçom se prepara para pedir novas porções
e drinks.
Aos finais de semana, leva os filhos ao
shopping. Busca e deixa-os na casa da ex-mulher. Quando não, leva os meninos
para a casa da mãe, onde mandou instalar um vídeo game e TV por assinatura. A
mãe reclama que não consegue assistir mais nada além da novela.
A vida, ele reconhece, está boa,
animada, emocionante, cheia de novidades. Dinheiro não sobra, muito pelo
contrário: além da dívida no banco, faz tempo que não consegue comprar mais
nada além dos tênis importados para suas corridas e treinos. Mas isso não importa,
porque as meninas dividem com ele a despesa do motel e, os amigos, a do
barzinho.
A
ex-mulher parece começar a dar sinais de que voltará a dirigir-lhe a palavra, o
que não deixa de ser um consolo, mas há algo que não está direito, e ele sabe: são
os filhos. Estão crescendo e mudando muito rapidamente. No carro, por exemplo,
eles não se falam. Chegam à casa da avó, o mais velho vai para o computador e o
caçula, para o vídeo-game, enquanto ele aciona sua conta no facebook ou no
whatsapp. O mais velho tirou nota baixa em História, um fato inédito mas que
parece não ter importância alguma. Procura puxar conversa com os meninos, mas não
encontra nada para perguntar, nem assunto algum que valha a pena ser abordado
com eles. Quando dá por si, descobre que não tem sobre o que falar com seus
meninos. Pergunta se querem ir ao shopping e eles dão de ombros, a responder
que “tanto faz”. Pensa em uma sessão de cinema, mas o sinal da internet está instável
e a ideia lhe escapa como brisa. Suspira
com tédio, olha o relógio, confere as horas e em seguida as esquece. Na
cozinha, a mãe solta um palavrão ao deixar cair uma travessa de vidro, que
inacreditavelmente não quebra. Começa a chover. Ele vai ao armário, veste sua
roupa de atleta e anuncia que vai correr. Ninguém responde. Para falar a
verdade, tem a clara impressão de que o que ele vai fazer da vida não interessa
a ninguém presente ali naquela sala. Então ele pega a chave do carro, bate o portão
da casa e sai, sem se dar conta que, dali a cerca de quinze minutos, estará
correndo debaixo de uma chuva forte, tentando atingir com suas pernas
musculosas e depiladas a maior velocidade possível, na tentativa de deixar para
trás o peso que traz no peito e as poucas lágrimas que, sem surpresa alguma, se
acumularão dentro de seus olhos.

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