segunda-feira, 18 de agosto de 2014

ELA

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Benilson Toniolo

Certo dia ela descobriu que nos dias de folga, em casa, enquanto ela, cansada, ia para a cama, o marido ficava até alta madrugada no computador acessando sites pornográficos. Descobriu por acaso, ao ligar o notebook dele para ver se o problema do sinal da internet era geral ou só na máquina dela. Ficou surpresa, claro. Julgava ter com ele uma vida afetiva e sexual satisfatória. Sem os arroubos da juventude e do começo da relação, claro, mas satisfatória. Não que considerasse as aventuras virtuais do marido algo muito grave. Homem é assim, mesmo, e no final das contas é melhor que seja assim do que sabê-lo na rua em busca de aventuras extraconjugais, a trair a ela e à família.
A descoberta do sexo pelo homem, ela sabe, é um processo que começa na adolescência e passa necessariamente pela descoberta do próprio corpo. Acontece com muitas pessoas, ela sabe, levar certos hábitos adquiridos nesta época pelo resto da vida, independente de ter ou não relações afetivas satisfatórias. Sim, ela sabe.
Entendia também o fato de o marido manter esta prática em segredo. Nada mais natural. Seria, no mínimo, constrangedor para ambos se ele se aproximasse e, sem rodeios, declarasse: “olha, eu acesso pornografia na internet, e isso me diverte e excita”. Ou então, quando se aproximasse dele para dar-lhe o beijo de boa-noite, ele dissesse: “isso, vá, sim, porque aí eu posso acessar imagens que, com você circulando pela casa, eu não posso acessar”. Compreensível, claro. O importante era a manutenção da fidelidade, da estabilidade e do bom ambiente familiar. Ela entendia, claro que entendia.
O que não estava bom era aquele sentimento que passava a invadir seu coração quando pensava no assunto. Afinal, ela estava ou não estava sendo traída? Ele era um bom marido, trabalhador, cumpridor de seus deveres, bom pai, gentil e carinhoso. Um pouco calado, sim, mas era assim desde que tinham se conhecido e ela se acostumara, e até gostava, de seu jeito reservado e silencioso. Mas agora ele mentia. Dizia que ia trabalhar no computador até mais tarde e na verdade se dedicava a acessar material pornográfico na internet de casa, sem que ela soubesse. Quem faz isso, é capaz de fazer coisa bem pior. A coisa não era tão compreensível assim. Mentir é trair. Trair é, antes de mais nada, faltar com a verdade. Mas sexo virtual conta? Era só pornografia, ou ele entrava em salas de bate-papo?
Ele estaria insatisfeito? Se sim, porque não dividia com ela, sua esposa, sua insatisfação? Porque não a chamava para uma conversa? Teria outra mulher, talvez no escritório, e fazia com ela o que via na internet? E se estava satisfeito com a vida que levavam, por que esta dupla vida sexual? A compreensão inicial transmudava-se em apreensão, temor, dúvidas, desconfiança, ciúme.
Não precisou pensar muito para decidir tratar do assunto com o marido. Esclarecer, como se diz. Esperaria um momento em que estivessem sozinhos, sem os filhos por perto, seguraria carinhosamente suas mãos, olharia em seus olhos (talvez fizesse-lhe um carinho no rosto) e esclareceria tudo. Se ele quisesse continuar com suas práticas, que continuasse, mas que soubesse que isso já era do conhecimento dela. Ela o amava, era sua esposa, mãe de seus filhos e estaria disposta a satisfazer as necessidades dele, se fosse o caso. Mas sem mais mentiras.
Naquela noite, mandou os filhos para a casa da mãe e esperou que ele chegasse. Na hora de sempre, ele abriu a porta da sala, beijou-a como fazia todas as noites e ofereceu-lhe um surpreendente e inesquecível buquê de flores do campo que trazia nas mãos. Abraçou-a fortemente, sussurrou em seu ouvido que a amava e sugeriu que fossem buscar as crianças, porque ele ia pedir uma pizza para todos. E, como no dia seguinte era sua folga, programou uma ida ao pesqueiro, comentando: “faz tempo que a gente não vai, e as crianças adoram”.

Naquela noite ninguém ligou a internet em casa, e mulher e marido adormeceram abraçados, enquanto os computadores descansavam.

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