Benilson Toniolo
Surpresa, consternação, choque, o
horror: a notícia do acidente aéreo ocorrido em Santos e que matou o
ex-governador de Pernambuco e candidato do PSB à Presidência da República,
Eduardo Campos, além das outras seis pessoas que estavam a bordo do jato, no último
dia 13 de agosto, mergulhou o País num ambiente de profunda tristeza.
Um dos maiores danos causados pela
ditadura militar ao Brasil foi justamente ter tirado de cena algumas de nossas futuras
principais lideranças políticas. Muitos dos que tiveram seus corpos
pulverizados pelos militares seriam, certamente, líderes de destaque com
importante atuação no presente. Passados quase trinta anos da democratização,
ainda padecemos da falta de líderes na condução dos destinos políticos do
Brasil. Talvez por isso figuras abjetas como Sarney, Maluf e Calheiros ainda
estejam à frente de muitos dos processos em andamento.
Eduardo, na linha natural sucessória de
seu avô Miguel Arraes, foi um líder nato. Criado no colo do PT, soube o momento
certo de desvincular sua imagem da imagem desgastada do partido e traçar sua trajetória,
resistir às investidas de Lula (de quem ignorou os apelos para abrir mão de sua
candidatura ao Planalto em troca de apoio em 2018) e construir identidade
própria. A adesão de Marina Silva como vice em sua chapa foi um golpe de
mestre, que aumentou sua visibilidade
por todo o País e tornou-o uma alternativa possível para derrotar a polarização
PT-PSDB que há vinte anos governa um Brasil hoje estagnado e sem rumo. Faltando
pouco mais de dois meses para o pleito de 5 de outubro e menos de uma semana
para o início da campanha política no rádio e na televisão, Eduardo tinha, sim,
chances de se eleger Presidente da República, derrotando Dilma Roussef no
segundo turno.
Eduardo teve uma morte bonita, porque
morreu lutando. Tinha o apoio incondicional de Ariano Suassuna, escritor,
poeta, dramaturgo, professor, grande amigo de seu avô e um dos maiores baluartes da cultura
brasileira de todos os tempos, cujo caixão ajudou a conduzir sustentando uma
das alças há menos de um mês, na mesma cidade do Recife que hoje chora sua
morte precoce e dolorosa. No mesmo dia em que o jato em que viajava se
espatifou sobre os prédios do Boqueirão, havia agendado uma reunião na capital
federal com o senador Cristovão Buarque, cuja pauta principal era como
desenvolver um plano de erradicação completa do analfabetismo no Brasil.
O clima de comoção e sentimentalismo
parece estar presente em todo o país, não só em função da trágica e inesperada morte
do jovem líder político que teria, sendo ou não eleito, um papel fundamental na
tomada das decisões mais importantes acerca dos destinos da Nação, como também
devido à emotiva cobertura dada pela imprensa, sobretudo no que se refere à
estrutura familiar sólida do candidato, casado com a única namorada da
adolescência e pai de cinco filhos, sendo que o último, nascido há sete meses, é
portador da síndrome de Down. Magoado, entristecido e solidário por natureza, o
povo brasileiro abraça a família Campos e a candidata a vide de sua chapa.
O quadro está pronto. O modelo petista
de governar atingiu o grau máximo de desgaste junto à população, Aécio não empolga
e a tragédia, passadas as primeiras horas de pesadelo, parecem trazer à tona um
novo tempo para a política brasileira. Marina tomará o lugar de Eduardo e
Renata, a viúva, deve atender à convocação do povo pernambucano para figurar
como candidata a vice-presidente da República.
Parece haver algo de sobrenatural no
cerne destes acontecimentos. Como já se disse em outra ocasião, Eduardo sai da
vida para entrar na História.
Neste domingo de velório brasileiro em
que as velas ardem, as bocas murmuram orações e os olhos do povo vertem
lágrimas, os mestres da literatura de cordel cismam, contam as sílabas e afiam
suas penas. Parece haver um outro Brasil insistindo em nascer lá pelos lados de
Pina, Casa Amarela, Boa Viagem...

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