Benilson Toniolo
Tenho tentado, ao longo dos anos, vencer
algumas de minhas paixões. Se não vencer, pelo menos não permitir que elas
sejam tão maiores do que eu. Não se trata de nenhum projeto pessoal para
alcançar a santidade, nada disso. Já estou convencido que dificilmente haverá
um lugar para mim junto ao sumo criador, e devo passar mesmo a eternidade em
meio às danações e desmantelos destinados a sujeitos da minha estirpe. Se no
inferno houver bons livros e bons autores em carne, alma, osso, metáforas e
ideias, pelo menos, já será um consolo. Mas voltando ao assunto, o que pretendo com isso é
passar a sofrer menos com certos sentimentos e levar uma vida mais sadia, menos
desgastante, mais equilibrada. Como pretendo ainda permanecer, pelo menos, uns
trinta anos entre os chamados seres vivos antes de me dedicar ao ócio em meio a
labaredas, espetadas contumazes e cheiro de enxofre (situação com a qual a
gente acaba se acostumando, assim espero), compreendi que devo me cercar de
certos cuidados, principalmente no que diz respeito ao coração. Pretendo, já
disse, passar o maior tempo possível por aqui. O mundo é bom, apesar das
inúmeras provas em contrário.
Paixões desenfreadas costumam ser boas
quando vividas no tempo certo, ao modo peculiar de cada idade: arrebatadoramente
na juventude e moderadamente na madureza. Comportamentos juvenis e
inconseqüentes não combinam com cãs, pés-de-galinha e calvície. Cada coisa na sua hora. Um pouco
de moderação e tolerância caem muito bem, principalmente depois de certa idade.
Tenho me dedicado a tentar ouvir melhor,
considerar e respeitar a opinião dos outros e deixar que meu interlocutor
termine o raciocínio sem interrompê-lo. Procuro compreender carências e
revoltas, e observar os sinais que existem além de conversas que não levam a
lugar nenhum. Pretendo pensar mais pausadamente e não ser tão afoito. É
recomendável também vislumbrar contextos antes de formar uma idéia geral. Saber
outros pontos de vista. Perguntar mais, silenciar quando não for preciso falar,
comentar somente quando minha opinião for pedida por ser considerada importante
para a tomada de alguma decisão, ou a solução de algum problema. Tem dado certo
e, acreditem, me proporcionado até mesmo uma certa tranqüilidade.
O desafio mais difícil, entretanto, e eu
assumo, é a relação com o futebol. Apaixonado que sempre fui pelo esporte e
pelo meu clube, tem sido cada vez mais complicado adotar uma postura neutra com
relação ao assunto. Na frente da tevê ou no estádio, ainda é o Santos quem me
tira do sério. Quando percebo, já pulei, já gritei, já xinguei, já desejei ver
a perna do adversário estraçalhada, já antevi a arquibancada que comporta a
torcida deles ruir e não deixar ninguém vivo para contar história, já fiz minha
separação imaginária entre “nós” e “eles” e já experimentei minha ânsia semanal
de pavor de um dia ver o manto sagrado de meu clube penando no holocausto da
segunda divisão.
Quem busca uma vida mais harmoniosa e
equilibrada, meus amigos, deve manter distância segura do futebol. Isso é uma
verdadeira doença. Independente se o time do coração estiver em boa ou má fase
(como é o nosso caso, neste momento, na modestíssima décima colocação do
Campeonato), o amor pelo clube é capaz de levar o indivíduo do mais profundo
abismo do desespero ao mais arrebatador dos orgasmos. Isso em fração de
segundos. Há quem diga, inclusive, com inegável capacidade lógica, que a
situação do time no campeonato tem reflexo direto na performance sexual do
torcedor. Deve estar certo.
Mas tenho feito meus progressos,
reconhecendo a superioridade dos rivais, o mérito diante de uma tabela bonita,
um gol bem feito, uma grande defesa, um contra-ataque imarcável –mesmo quando
estão do outro lado. É um esforço, mas vou tentando.
Daí que, em pleno Dia dos Pais, a CBF me
tem a desgraçada idéia de marcar um clássico na Vila, o que acaba com o domingo
de qualquer um. O ritual se repete: cubro-me da cabeça aos pés com as cores do
manto sagrado e me dirijo com a família ao Capivari para o almoço especial que
a data exige. Escolhemos o restaurante (pelo preço, evidentemente) e, altivo
como sói acontecer quando me visto com o branco e preto do meu time, ouço surpreso
alguém dentro do restaurante tossir em volume mais alto do que o normal. Dirijo
meu olhar para a direção da mesa em que alguém parece estar passando mal e vejo
uma família, um jovem casal, um bebê num carrinho e uma senhora, certamente a
avó da criança. O sujeito que tossiu é jovem, daqueles neo-fortões que infestam
as cidades hoje em dia. Ao me ver, ele se inclina, pega o agasalho que está
sobre a cadeira onde está sentado e, de forma provocadora, olhando-me
fixamente, dá um beijo no escudo do... Corinthians. Rio um pouco mais alto do
que o normal, balanço a cabeça negativamente, sigo adiante, dirijo-me a uma mesa
localizada duas fileiras atrás da deles e ali nos acomodamos.
O almoço transcorre tranqüilo.
Escolhemos nossos pratos, conversamos sobre diversos assuntos, tiramos fotos,
mas a provocação permanece no ar. O que fazer? Ir até a mesa do desconhecido,
passar-lhe uma carraspana, perguntar por que fez aquilo, dar-lhe boas vindas à
nossa Cidade (o sujeito, pelo visto, era turista), mandá-lo à merda? Vale a
pena estragar o almoço do Dia dos Pais com uma discussão que pode perfeitamente
ser evitada, por um motivo que, afinal, se enquadra como “banal”? E se o
objetivo dele foi o de somente fazer uma brincadeira, e quem está dando
importância exagerada ao fato sou eu? Nada a fazer, nada feito.
O almoço estava ótimo e nem notamos
quando o provocador saiu. À noite, depois do jogo (que o Santos perdeu), Bruno
ainda comentou: ‘viu o que fez o corintiano no restaurante, pai?’. ‘Vi, sim,
filho. Coitado’. Ele arremata: ‘esse torce pro time certo, mesmo’.
É, ainda falta muito para que certas
paixões tenham o tratamento que merecem: apenas paixões. Enquanto isso, as
pessoas continuarão matando e morrendo em nome daquilo que amam. Eu, pelo
menos, me incomodo e tento fazer a minha parte. O que, pelo jeito, parece ser ainda
muito pouco.

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