terça-feira, 19 de agosto de 2014

ZÉ DOIDO E ZÉ CAÇAPAVA

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Benilson Toniolo

No primeiro hotel em que trabalhei existiam, no setor de Manutenção, dois funcionários que tinham o mesmo nome: José. O líder era o Zezinho Caçapava, que tinha este apelido por ser proveniente, evidentemente, da cidade paulista localizada no Vale do Paraíba. Tranqüilo, fazia o servicinho dele e não incomodava ninguém. Ria pouco, era muito calado e, contam, bebia muito. Tinha vindo para o Guarujá depois de abandonar a família, e depois também da morte de uma das filhas, atropelada quando tentava atravessar a via Dutra de bicicleta. O dono do hotel, muito piedoso, mandou construir para ele uma pequena espelunca à base de madeira compensada e zinco ao lado da caldeira, entre o mar de Pitangueiras e o morro do Maluf. À noite, sem poder dormir por causa do calor e da saudade da filha, Zezinho bebia sua cachaça observando a paisagem noturna da praia. E bebia até dormir, quando o amortecimento causado pelo álcool vencia a temperatura altíssima, a sudorese excessiva, o exército insaciável de pernilongos e as injustiças da condição humana. Talvez por isso quase não sorria, o Caçapava.
O outro era um nordestino de baixa estatura, atarracado, cara de poucos amigos e que atendia pela alcunha de Zé Doido. Sempre enfezado, sem paciência para tratar com os outros e pronto para mandar para aquele lugar quem viesse com muita pergunta, era a eficiência em pessoa. Aliás, os dois eram muito eficientes. Não havia problema de manutenção que eles não resolvessem, inclusive quando chamados fora do horário de serviço. E num edifício velho, em que todos os equipamentos estavam em situação precária (desde os elevadores até os aparelhos de ar refrigerado dos apartamentos), prescindir dos dois seria uma loucura.
Meu problema mesmo era com o Zé Doido. Eu não o suportava. Não fui com a cara dele desde o primeiro dia. Para que aquela ignorância toda? Falar com os outros daquela maneira, coisa mais estúpida, sem sentido. Custava ser um pouco mais solícito, gentil, amigável? Sempre que era preciso acioná-lo para alguma coisa, eu respirava fundo, contava até dez, escolhia as palavras. Com ele era sempre na base do por favor, se for possível, quando você puder, isso é importante pra gente, você vai nos ajudar muito se fizer isto, só você pode fazer, tenho certeza que você resolve, pra você isso é moleza, muito obrigado, te devo essa, valeu, Zé, ficou muito bom, o hóspede ficou bastante satisfeito, Zé, você é o cara. Com ele tinha que ser na base da diplomacia. Se não, era na porrada. E na porrada nunca dá certo.
Nunca passamos disso. Eu pedia, ele fazia. Às vezes se esquecia de dar o retorno da minha solicitação, mas se o problema não persistisse era sinal que ele tinha resolvido. E o doido do Zé sempre resolvia.
Um dia, numa rara confraternização de final de ano, eu conversava com alguns colegas quando o Zé Doido passou e deu um tapa nas minhas costas. Um pouco mais forte que o habitual, é verdade, mas sem violência. Virei-me para ele, que apertou minha mão com a mesma força e disse algo parecido com isto: “você é um sujeito que eu considero. Sempre foi educado e me tratou com respeito. Não é que nem esse pessoal daqui que, porque a gente faz serviço sujo, trata a gente que nem bicho. Você não. Você respeita a gente. Por isso, tem minha consideração”. Me desejou feliz Natal e foi embora.
Era doido mesmo, aquele Zé Doido. Tão maluco que até fazia a gente se emocionar sem necessidade.

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