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Benilson Toniolo
No primeiro hotel em
que trabalhei existiam, no setor de Manutenção, dois funcionários que tinham o
mesmo nome: José. O líder era o Zezinho Caçapava, que tinha este apelido por
ser proveniente, evidentemente, da cidade paulista localizada no Vale do Paraíba.
Tranqüilo, fazia o servicinho dele e não incomodava ninguém. Ria pouco, era
muito calado e, contam, bebia muito. Tinha vindo para o Guarujá depois de
abandonar a família, e depois também da morte de uma das filhas, atropelada
quando tentava atravessar a via Dutra de bicicleta. O dono do hotel, muito
piedoso, mandou construir para ele uma pequena espelunca à base de madeira
compensada e zinco ao lado da caldeira, entre o mar de Pitangueiras e o morro
do Maluf. À noite, sem poder dormir por causa do calor e da saudade da filha,
Zezinho bebia sua cachaça observando a paisagem noturna da praia. E bebia até
dormir, quando o amortecimento causado pelo álcool vencia a temperatura
altíssima, a sudorese excessiva, o exército insaciável de pernilongos e as injustiças
da condição humana. Talvez por isso quase não sorria, o Caçapava.
O outro era um
nordestino de baixa estatura, atarracado, cara de poucos amigos e que atendia
pela alcunha de Zé Doido. Sempre enfezado, sem paciência para tratar com os
outros e pronto para mandar para aquele lugar quem viesse com muita pergunta,
era a eficiência em pessoa. Aliás, os dois eram muito eficientes. Não havia
problema de manutenção que eles não resolvessem, inclusive quando chamados fora
do horário de serviço. E num edifício velho, em que todos os equipamentos estavam
em situação precária (desde os elevadores até os aparelhos de ar refrigerado
dos apartamentos), prescindir dos dois seria uma loucura.
Meu problema mesmo era
com o Zé Doido. Eu não o suportava. Não fui com a cara dele desde o primeiro
dia. Para que aquela ignorância toda? Falar com os outros daquela maneira,
coisa mais estúpida, sem sentido. Custava ser um pouco mais solícito, gentil, amigável?
Sempre que era preciso acioná-lo para alguma coisa, eu respirava fundo, contava
até dez, escolhia as palavras. Com ele era sempre na base do por favor, se for
possível, quando você puder, isso é importante pra gente, você vai nos ajudar
muito se fizer isto, só você pode fazer, tenho certeza que você resolve, pra
você isso é moleza, muito obrigado, te devo essa, valeu, Zé, ficou muito bom, o
hóspede ficou bastante satisfeito, Zé, você é o cara. Com ele tinha que ser na
base da diplomacia. Se não, era na porrada. E na porrada nunca dá certo.
Nunca passamos disso.
Eu pedia, ele fazia. Às vezes se esquecia de dar o retorno da minha solicitação,
mas se o problema não persistisse era sinal que ele tinha resolvido. E o doido
do Zé sempre resolvia.
Um dia, numa rara confraternização
de final de ano, eu conversava com alguns colegas quando o Zé Doido passou e
deu um tapa nas minhas costas. Um pouco mais forte que o habitual, é verdade,
mas sem violência. Virei-me para ele, que apertou minha mão com a mesma força e
disse algo parecido com isto: “você é um sujeito que eu considero. Sempre foi
educado e me tratou com respeito. Não é que nem esse pessoal daqui que, porque
a gente faz serviço sujo, trata a gente que nem bicho. Você não. Você respeita
a gente. Por isso, tem minha consideração”. Me desejou feliz Natal e foi
embora.
Era doido mesmo, aquele
Zé Doido. Tão maluco que até fazia a gente se emocionar sem necessidade.

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