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Benilson Toniolo
Chamava-se Escola Estadual de Primeiro
Grau da Vila Santa Rosa e foi, de 1976 a 1983, minha segunda casa, onde passava
pelo menos quatro horas por dia a aprender as lições da primeira à oitava
séries, inicialmente do curso primário, depois do ginásio.
No começo dos anos 1980, certamente por
alguma determinação do governo estadual ainda na época da ditadura, mudaram o
nome da nossa escola para Escola Estadual de Primeiro Grau Professor Emídio
José Pinheiro, o que, do alto dos meus treze anos, causou-me causou grande
revolta, pois para mim a escola que levava o nome do nosso bairro deveria assim
permanecer. E quando perguntei quem, afinal de contas, tinha sido esse tal de
Emídio, e ninguém soube responder, segui protestando e fui levado para a sala
da Diretora, onde levei meu primeiro sermão acerca da importância da disciplina
e do respeito à autoridade dos professores, e também de onde me retirei levando
dentro da garganta um bolo indizível e amargo, que conservo até hoje de acordo
com as circunstâncias. É vontade, dizem, de chorar. Pode ser.
Depois do Santa Rosa, minha vida
acadêmica foi uma grande alvoroço. Até então eu, que sempre tinha sido um aluno
acima da média, modestamente falando, enfrentei inúmeras dificuldades para
concluir o curso colegial, que é como nós, os ancestrais, chamamos o que hoje
chamam de Ensino Médio.
Mas a vida passa e, em determinado
momento, e para algumas pessoas, ocorre que nos surge uma certa necessidade de,
de alguma forma, retribuir certas coisas a quem nos foi importante ao longo da
jornada. E me lembrei que, em determinada ocasião, por iniciativa do professor
de História, Ettore Quaranta, e sob sua coordenação, um grupo de cinco ou seis
alunos nos mobilizamos para reorganizar uma biblioteca na escola. Em dois
sábados, nos dedicamos a limpar as prateleiras, organizar os livros, passar
pano úmido nas paredes e no piso de tacos, e em poucos dias entregamos à escola
uma sala inteira de livros, limpa e, a nosso modo, organizada. Fora do prédio
principal, é verdade, mas agora havia em nossa escola uma biblioteca que todos
poderiam utilizar. Parece que não, mas em uma época sem computadores,
smartphones e afins, isso era importante pra caramba.
Com esta lembrança reavivada, não foi
preciso refletir muito, e como os tempos hoje são outros, e muito mais
práticos, enviei um e-mail à escola me apresentando, falando do meu carinho
pela escola e querendo saber notícias, sem mencionar a biblioteca. Queria saber
como estava a escola, quantos alunos a freqüentavam, as ações junto à
comunidade, coisas assim. E meu plano, num segundo momento, dependendo das
respostas que recebesse, seria quem sabe poder contribuir de alguma forma com
algum projeto literário direcionado aos alunos. E se biblioteca não mais
houvesse, por que não ajudar a reativá-la, como há trinta anos? Uma forma,
pensava eu, e como disse, de retribuir e reafirmar a importância da escola em
minha vida e na minha formação Por que eu não poderia me dedicar um pouco à
escola da minha infância e adolescência?
Após algumas semanas sem resposta,
transcrevi o teor do e-mail em uma carta que enviei com Aviso de Recebimento.
Receberam a missiva, pois o aviso voltou assinado mas, resposta, nenhuma. E por
ocasião das férias seguintes de agosto, não me fiz de rogado: numa manhã
chuvosa de quinta-feira, aproveitei os portões abertos (o seo Dito, porteiro
exigente e disciplinado, já deve ter morrido) e me dirigi à secretaria, apresentando-me
como um ex-aluno desejoso de rever a escola. A atendente, razoavelmente
simpática, pediu um momento para falar com a diretora. Em seguida voltou,
dizendo que ela, a diretora, não havia autorizado a minha entrada. Perguntei o
motivo, e ela disse que não sabia. Deixei um cartão com um telefone, reforçando
que se fosse possível num outro horário que por favor me ligassem, que a
diretora nem precisaria se incomodar, que qualquer pessoa poderia me
acompanhar, seria uma visita rápida, cinco minutinhos somente, para rever
apenas, sem em nada interferir no andamento das aulas, do expediente. Rever,
somente. Rever a matar as saudades. Quem sabe até reveria meu pai e minha mãe,
ora um, ora outro, me esperando no portão na saída. Mas a diretora não
autorizou.
Do lado de fora, a escola está em
reforma. Há operários trabalhando nos fundos, muito entulho, sujeira acumulada,
andaimes montados, materiais amontoados. E isso é bom. Mas a impressão que
tenho, depois de um e-mail ignorado, uma carta não respondida e uma visita não autorizada,
é que a principal reforma que precisa ser feita é do lado de dentro, nas
pessoas que hoje cuidam da minha escola. Que, pelo que desconfio, já não existe
mais.
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