segunda-feira, 18 de agosto de 2014

MINHA ESCOLA NÃO EXISTE MAIS

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Benilson Toniolo

Chamava-se Escola Estadual de Primeiro Grau da Vila Santa Rosa e foi, de 1976 a 1983, minha segunda casa, onde passava pelo menos quatro horas por dia a aprender as lições da primeira à oitava séries, inicialmente do curso primário, depois do ginásio.
No começo dos anos 1980, certamente por alguma determinação do governo estadual ainda na época da ditadura, mudaram o nome da nossa escola para Escola Estadual de Primeiro Grau Professor Emídio José Pinheiro, o que, do alto dos meus treze anos, causou-me causou grande revolta, pois para mim a escola que levava o nome do nosso bairro deveria assim permanecer. E quando perguntei quem, afinal de contas, tinha sido esse tal de Emídio, e ninguém soube responder, segui protestando e fui levado para a sala da Diretora, onde levei meu primeiro sermão acerca da importância da disciplina e do respeito à autoridade dos professores, e também de onde me retirei levando dentro da garganta um bolo indizível e amargo, que conservo até hoje de acordo com as circunstâncias. É vontade, dizem, de chorar. Pode ser.
Depois do Santa Rosa, minha vida acadêmica foi uma grande alvoroço. Até então eu, que sempre tinha sido um aluno acima da média, modestamente falando, enfrentei inúmeras dificuldades para concluir o curso colegial, que é como nós, os ancestrais, chamamos o que hoje chamam de Ensino Médio.
Mas a vida passa e, em determinado momento, e para algumas pessoas, ocorre que nos surge uma certa necessidade de, de alguma forma, retribuir certas coisas a quem nos foi importante ao longo da jornada. E me lembrei que, em determinada ocasião, por iniciativa do professor de História, Ettore Quaranta, e sob sua coordenação, um grupo de cinco ou seis alunos nos mobilizamos para reorganizar uma biblioteca na escola. Em dois sábados, nos dedicamos a limpar as prateleiras, organizar os livros, passar pano úmido nas paredes e no piso de tacos, e em poucos dias entregamos à escola uma sala inteira de livros, limpa e, a nosso modo, organizada. Fora do prédio principal, é verdade, mas agora havia em nossa escola uma biblioteca que todos poderiam utilizar. Parece que não, mas em uma época sem computadores, smartphones e afins, isso era importante pra caramba.
Com esta lembrança reavivada, não foi preciso refletir muito, e como os tempos hoje são outros, e muito mais práticos, enviei um e-mail à escola me apresentando, falando do meu carinho pela escola e querendo saber notícias, sem mencionar a biblioteca. Queria saber como estava a escola, quantos alunos a freqüentavam, as ações junto à comunidade, coisas assim. E meu plano, num segundo momento, dependendo das respostas que recebesse, seria quem sabe poder contribuir de alguma forma com algum projeto literário direcionado aos alunos. E se biblioteca não mais houvesse, por que não ajudar a reativá-la, como há trinta anos? Uma forma, pensava eu, e como disse, de retribuir e reafirmar a importância da escola em minha vida e na minha formação Por que eu não poderia me dedicar um pouco à escola da minha infância e adolescência?
Após algumas semanas sem resposta, transcrevi o teor do e-mail em uma carta que enviei com Aviso de Recebimento. Receberam a missiva, pois o aviso voltou assinado mas, resposta, nenhuma. E por ocasião das férias seguintes de agosto, não me fiz de rogado: numa manhã chuvosa de quinta-feira, aproveitei os portões abertos (o seo Dito, porteiro exigente e disciplinado, já deve ter morrido) e me dirigi à secretaria, apresentando-me como um ex-aluno desejoso de rever a escola. A atendente, razoavelmente simpática, pediu um momento para falar com a diretora. Em seguida voltou, dizendo que ela, a diretora, não havia autorizado a minha entrada. Perguntei o motivo, e ela disse que não sabia. Deixei um cartão com um telefone, reforçando que se fosse possível num outro horário que por favor me ligassem, que a diretora nem precisaria se incomodar, que qualquer pessoa poderia me acompanhar, seria uma visita rápida, cinco minutinhos somente, para rever apenas, sem em nada interferir no andamento das aulas, do expediente. Rever, somente. Rever a matar as saudades. Quem sabe até reveria meu pai e minha mãe, ora um, ora outro, me esperando no portão na saída. Mas a diretora não autorizou.

Do lado de fora, a escola está em reforma. Há operários trabalhando nos fundos, muito entulho, sujeira acumulada, andaimes montados, materiais amontoados. E isso é bom. Mas a impressão que tenho, depois de um e-mail ignorado, uma carta não respondida e uma visita não autorizada, é que a principal reforma que precisa ser feita é do lado de dentro, nas pessoas que hoje cuidam da minha escola. Que, pelo que desconfio, já não existe mais.

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