sábado, 27 de setembro de 2014

DE ATENDIMENTO EM ATENDIMENTO

www.gerypalazzotto.it

Benilson Toniolo

Uma coisa eu posso garantir, até mesmo por experiência própria: Campos do Jordão sempre foi reconhecida nacionalmente pela excelência dos serviços hoteleiros e gastronômicos. Quem já se hospedou nos nossos hotéis e pousadas, ou sentou-se para se dedicar à gastronomia em alguns de nossos restaurantes, pode sair reclamando de qualquer coisa, menos do atendimento dado pelos nossos profissionais. Nosso povo é ordeiro, hospitaleiro, aplicado, disciplinado e muito empenhado em atender, e em algumas vezes até em superar, as expectativas dos turistas. Não sou eu quem está dizendo. É uma constatação nacional. Quando viajo e digo que sou de Campos do Jordão, sempre tem alguém para me contar uma experiência inesquecível, e muito positiva, dos passeios que fez, das fotos que tirou, do hotel onde se hospedou, do restaurante onde comeu. Somos sinônimo de qualidade em serviços. E é isso que me preocupa.
Nas últimas duas semanas passei por nada menos do que três experiências de atendimento em restaurantes da cidade que me aborreceram bastante. Evidentemente não citarei seus nomes, mas não vai ser muito difícil, para os jordanenses, saber de quem estou falando.
Fui com a família (o pessoal de casa mais o de Guarujá, ao todo, nove pessoas) jantar em uma pizzaria de Abernéssia, que sempre freqüentávamos (reparem no tempo do verbo) pela honestidade da comida e do preço. Enquanto esperávamos a comida, os garçons, em rodinha, divertiam-se mostrando uns aos outros vídeos em seus respectivos celulares. A segunda rodada de pizza foi servida por mim, uma vez que o garçom desapareceu sem se preocupar em pedir a nenhum colega que o substituísse em sua ausência. Quando voltou, pedimos mais bebidas, que ele se esqueceu de trazer. Mas não esqueceu de voltar a se reunir com os demais garçons para continuar suas sessões de vídeos. Estávamos bem próximos de onde fica o forno. Três funcionários ali estavam, todos com celulares nas mãos, completamente alheios aos pedidos. Um entregador chegou, entrou no local onde fica o forno, retirou o capacete e o deixou sobre o balcão, exatamente onde ficam as pizzas depois de prontas. Como se não bastasse, retirava com suas próprias mãos algumas pequenas porções de azeitonas, frios e o que mais estivesse em seus respectivos potes e levava à boca. Tudo isso enquanto conversava com os colegas, num tom de voz excessivamente elevado. No caixa o filho do dono, que faz as vezes de gerente, mexia também no celular. Todos conversavam, riam e não davam a mínima para os clientes. Fui ao caixa, reclamei, pedi a conta –até porque já tinha desistido de procurar o garçom que nos atendia- e paguei, tomando o cuidado de pedir a retirada da taxa de serviço. E deixei claro, mais uma vez, o tempo do verbo.
Venho da abertura de um congresso em Capivari e, com fome, perto das dez da noite, paro numa “Casa de Delícias” (pelo menos é esse o nome que consta na placa, por mais pretensioso que seja) para fazer uma boquinha antes de voltar para casa e peço o de sempre: um suco de laranja, um misto quente e um café expresso. Apenas alguns poucos clientes ainda circulam, no que parece ser o final de um expediente que começou cedo, como acontece todos os dias. Mas cliente é cliente, e o bom atendimento deve ser uma constante enquanto as portas estiverem abertas. Levei um livro para ler enquanto esperava o pedido ficar pronto, mas não consegui me concentrar na leitura, tantas eram as risadas, as conversas em voz alta, as rodinhas de funcionários (dentro da cozinha, na área dos pães, no caixa) e os inseparáveis celulares tocando música. Aliás, por que as pessoas acham que todas as outras no mesmo ambiente são obrigadas a ouvir a mesma música que elas? Vieram o suco, feito com laranjas passadas e sem a pedra de gelo que pedi), o misto-quente (com mussarela no lugar do queijo prato e com pão velho) e o café (menos ruim que os demais acompanhamentos, mas ainda assim longe de ser bom). Fui ao caixa (a rodinha ainda estava lá, e falava alto e ria, como riem os trabalhadores da área de serviços hoje em dia!), paguei e até reclamaria, se a funcionária me dirigisse um segundo de sua atenção –mas ela se dedicava a continuar a rir com os colegas que estavam atrás dela.
Saímos de uma apresentação no Espaço Cultural Dr. Além e vamos ao Capivari comer alguma coisa. Pizza em pedaços. Duas mesas ocupadas com turistas, acomodamo-nos e fizemos nossos pedidos. Uma das funcionárias, atrás do balcão, resolve mostrar para os dois colegas um vídeo (ele de novo) que recebera de uma colega pelo uatezápe. Era um vídeo em que uma criança (parecia ser uma criança, pelo menos era uma voz de criança) proferia uma série interminável de palavrões. Acabou, todos gargalharam e, não satisfeita, ela resolveu fazer nova apresentação, como que para certificar-se do sucesso de seu patrimônio tecnológico. Os clientes fizeram que não ouviram. Olhei para trás tentando expressar um olhar de reprovação, mas nem um deles percebeu. Quando saíamos, uma das funcionárias passou por baixo do balcão e, da porta, anunciou aos colegas: “vou ali chamar a Lu pra você mostrar pra ela”. Isso, vai, responderam todos. Saímos, e enquanto me dirigia para o carro imaginei todos os trabalhadores do Capivari marchando para a pizzaria, doidos para ver o que é que havia no celular da menina, alguns já começando a gargalhar antes mesmo de chegar. 
Nas três situações, existe o fato de funcionários em horário de serviço estarem portando aparelhos celulares e a eles se dedicarem enquanto deveriam estar cuidando dos clientes. Se seus empregadores não sabem disso, é porque provavelmente estão deixando de controlar a produtividade de seus empregados durante o horário de trabalho.  Se estivessem em uma linha de produção, estariam em flagrante situação de risco, e o número de acidentados seria enorme. Como estamos falando de uma atividade onde o atendimento é o principal produto a ser vendido, o maior risco que se corre é o cliente ficar insatisfeito. Em ambos os casos, os danos ao negócio podem ser irreparáveis.
Há também o risco de a cidade passar a, com o tempo, não mais ser reconhecida pela excelências nos serviços, por pura falta de concentração do pessoal de atendimento e de pulso firme por parte dos encarregados. Afinal de contas, não é interessante para uma cidade que vive exclusivamente do Turismo ser nivelado, em atendimento, com outras onde a economia é gerada por outros meios de produção.
Uma sugestão: antes do expediente, todos os funcionários deixam seus aparelhos celulares em poder da gerência. Se receber alguma chamada urgente, o funcionário será informado. Como fazem os professores em algumas escolas.
Porque a verdade é uma só: cliente mal atendido não volta, e ainda sai falando mal. E isso é fatal para qualquer negócio. Ou, no caso, para a Cidade.

Ou então sou só eu que vou me tornando, definitivamente e a cada dia, um chato.


A VOLTA DO PAI

Benilson Toniolo


Tanto tempo depois, eis que reaparece no mesmo lugar: nos sonhos.
E está bonito, risonho, bem arrumado. O cabelo está um pouco comprido. Precisa cortar, diria a mãe.
É sempre assim: vou a caminho de algum compromisso profissional para o qual estou atrasado. Quando chego ao meu destino, ele lá está, sentado confortavelmente e muito atento ao que está a se passar: uma palestra, uma aula, uma apresentação qualquer.
Ao vê-lo, me emociono, corro em sua direção, ajoelho e o abraço longamente.
Ele fica onde está e eu me encaminho para meu compromisso.
Ah, sim: na noite passada, quando cheguei, ele sorria enquanto conversava com alguém sentado ao seu lado.
Quando o encontro, sei que ele está de volta, e tem muitas coisas para me contar.
Na noite de hoje, quando me deitar, terei o coração esperançoso e pronto para celebrar a serenidade da infância.
E sei que, de alegria e encantamento, como acontece sempre, vou chorar.

domingo, 7 de setembro de 2014

DOMINGAÇÕES DE 31 DE AGOSTO DE 2014

wp.clicrbs.com.br

Benilson Toniolo

Os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal encaminharam para o Congresso um pedido de aumento de salário. Se aprovado (alguém tem alguma dúvida que será?), cada um deles terá seu salário majorado de quase 30 mil para cerca de 36 mil mensais, mais carro com motorista, passagens aéreas e diárias quando em viagem. Há, e sempre há, outras benesses não declaradas. Só com isso, segundo os cálculos do articulista Elio Gaspari, cada ministro do STF custa para os cofres públicos a bagatela de 210 mil dólares por ano, só de salários. Nos Estados Unidos, os nove ministros da Suprema Corte custam 214 mil dólares cada, mais nada. Dirigem seus próprios veículos e pagam do próprio bolso suas despesas de viagem.


Ao contrário de Dilma Roussef, Evo Morales deve ser reeleito presidente da Bolívia nas eleições marcadas para o dia 12 de outubro. A Bolívia, nas mãos de Evo, transformou-se no paraíso das bolsas auxilio, com distribuição de renda para famílias que mantém crianças na escola, grávidas ou mulheres que acabaram de dar à luz e idosos que nunca contribuíram para o sistema previdenciário. Até aí, nenhuma novidade para nós, brasileiros. O que pouca gente sabe, e que Clóvis Rossi ressalta em sua coluna, é que a Bolívia cresceu 6,8% em 2013 e deve crescer 5,7% neste ano. De janeiro a agosto, o índice de crescimento do PIB já chegou aos 5%. ‘Estagnação econômica”, na Bolívia de Evo Morales, só se usa quando alguém se refere a países como o Brasil, por exemplo, e El Salvador –as piores nações latino-americanas quando se fala em crescimento econômico. Melhor dizendo, as duas nações que não crescem no continente. E isto é mais representativo que quaisquer pesquisas de intenção de voto.


Eliane Cantanhêde: “não há uma crise, há uma má gestão. Como Campos dizia, ‘Dilma é a primeira presidente a entregar o país pior do que encontrou. Dilma e Mantega culpam o cenário internacional. Marina, rumo à vitória, e Aécio dizem que não é bem assim e apontam quem vai aranhar o joelho, cortar o cotovelo e talvez machucar a cabeça se a economia for ladeira abaixo. O eleitor, claro”.


Secret é o nome do aplicativo para telefones celulares criado para que as pessoas possam publicar, curtir, compartilhar e comentar frases e fotos sem necessidade de identificação. Segundo seus criadores, foi criado para se tornar uma espécie de auto-ajuda, onde as pessoas pudessem pedir conselhos sem se identificar. Pois bem. Recém-chegado ao Brasil, o aplicativo se tornou um inferno para professores e administradores de escolas, devido ao fato de, justamente por não exigir identificação, servir de instrumento para que jovens, adolescentes e adultos façam uso do aplicativo para, protegidos pela película do anonimato, caluniar, difamar, constranger e criar fotomontagens envolvendo pessoas do seu círculo de amizades e, em especial, seus desafetos. Fotos, comentários e demais publicações ,em geral mentirosas e de cunho pornográfico, são compartilhadas em grande escala e transformam em um verdadeiro inferno a vida de todos. Mais do que um simples bullying cibernético, trata-se da mais pura faceta da canalhice humana.  Já há registros de tentativas de suicídio, internações e agendamento de consultas com psicólogas tanto para vítimas das postagens quanto para aqueles que não conseguem parar de usar o aplicativo.
As escolas fazem o que podem. Agendam palestras de aconselhamento com advogados que alertam para os riscos jurídicos de postagens mentirosas, tanto para os alunos quanto para os pais e responsáveis, bloqueiam o acesso ao site nas redes internas e quebram a cabeça para que incitações ao ódio, ao racismo e mensagens alusivas a comportamentos autodestrutivos comprometam o ambiente dentro da escola.
A coisa vai longe. A Justiça do Espírito Santo mandou Google e Apple suspenderem a venda do aplicativo no Estado e o removerem remotamente dos aparelhos em que estão instalados. Medida restritiva, mas limitada: nada pode impedir alguém de reinstalar o aplicativo apenas acessando o site.

Tudo isso para mostrar que estamos ainda muito longe do dia em que usaremos a internet, assim como outros recursos, somente para o que edifica e ajuda a desenvolver nossa espécie. Desconfio, enfim que somos mesmo um bicho que nasceu sob o signo da auto-destruição.


NÃO SABER, SABENDO

www.wsantacruz.com.br

Benilson Toniolo

Dois fatos importantes ligados à campanha da presidenciável Marina Silva, do PSB, ocorridos nesta semana, ligaram o sinal amarelo de que o País pode estar muito próximo de entrar numa barafunda sem volta. Ei-los:

1)      A candidata atribuiu a um “erro editorial” o trecho de seu programa de governo anunciado no dia 29 de agosto no qual manifestava apoio a propostas da comunidade LGBT, em que ela se comprometia a, se eleita, atuar em favor de projetos e emendas constitucionais  que garantiriam, entre outras questões, a aprovação de lei que criminaliza a homofobia e os direitos das uniões estáveis homoafetivas. Pressionado fortemente por setores significativos da ala evangélica representada pelo pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus (denominação que Marina segue), contrários à luta pela igualdade de direitos das pessoas independente de suas características e tendências afetivas, o trecho foi suprimido do programa 24 horas depois. Em substituição, foi inserida a expressão “garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo”, o que já é garantido pelo Supremo Tribunal Federal (STF);

2)      Marina alegou que não sabia que o jatinho utilizado por Eduardo Campos que caiu no dia 13 de agosto, matando Eduardo e sua comitiva, era bancado com dinheiro não declarado, o chamado “caixa-dois”. Neste caso, não saber é tão grave quanto saber e não fazer nada. Para deixar bem clara a gravidade de uma alegação como esta, Elio Gaspari nos lembra que Lula, em uma de suas campanhas, fez uso de dois jatinhos: um pertencia ao filho do deputado João Alves, um dos chamados Anões do Orçamento e que ficou famoso por creditar à loteria esportiva seu abissal enriquecimento pessoal (na ocasião, Alves declarou: ‘Deus me ajudou, e eu fiquei rico”). O segundo jatinho usado por Lula pertencia a uma empresa que fornecia alimentos à prefeitura de São Paulo, à época governada pelo PT. Na ocasião, Lula declarou que estavam “querendo jogar o PT na mesma lama dos outros partidos”. Lula também não sabia da existência do mensalão.

É através de situações como estas, revestidas de muxoxos, dissimulações  e rodapés de páginas e mal-entendidos nunca explicados que a gente acaba tendo uma idéia de quem os políticos são, e o que em geral escondem. Salvo engano, estamos diante de uma candidata que se reveste de uma aura de candura e de  messianismo que esconde, no fundo, a mesma essência que caracteriza a imensa maioria dos políticos brasileiros. Alegar desconhecimento diante de um fato tão importante como a existência de um caixa dois em seu partido (não, a Rede não existe, o que existe é o PSB) e mudar seu plano de governo para agradar determinada parcela do eleitorado não é mais do que vender a alma ao diabo para ganhar uma eleição. O que, em se tratando de Marina Silva, é uma contradição indesculpável.


O fato de Marina substituir Eduardo Campos, morto em um acidente aéreo, não quer dizer que exista um “plano divino, arquitetado no sobrenatural” que nos obrigue a votar nela para “que se cumpra a profecia”. Votos emocionais e sem base racional, além de perigosos, podem ser fatais para o futuro do País. Resta a nós, os eleitores, acompanhar atentamente o que vem por aí.

sábado, 6 de setembro de 2014

NÃO SOMOS A BÉLGICA

www.istoedinheiro,com.br

Benilson Toniolo


Recentemente, na Bélgica, um casal, homem e mulher, foi condenado e preso por furto e fraude ao sistema financeiro do país. Eis o caso: correntistas de um banco estatal, ambos dirigiram-se a um caixa automático para fazer um saque da conta-corrente. Digitaram o valor desejado e a máquina acabou dispensando uma quantidade de dinheiro muito maior do que a que eles haviam solicitado -maior inclusive do que o próprio saldo que eles possuíam disponível na conta. Um problema técnico, portanto, como pode acontecer com qualquer equipamento. Diante daquela dinheirama toda, o que fizeram os correntistas? Ficaram com o dinheiro, mesmo sabendo tratar-se de um erro do equipamento. Ou seja, ainda que conscientes de que estavam fazendo algo errado, apoderaram-se indevidamente do que não lhes pertencia. Detectada a diferença na máquina, o banco levou o caso adiante e, muito provavelmente, procurou a justiça após tentar e não conseguir reaver o dinheiro com os clientes. Logo, cadeia neles.
Num caso como esse, a gente fica imaginando o tipo de frases que as pessoas devem proferir em sua “defesa”. “A culpa não é minha, é do banco”. “O que eu posso fazer se o banco não cuida da manutenção de suas máquinas?”. “É que me enganei com o valor”. “Fiz confusão”. “Devolver? Ih, agora já gastei”. “Pensei que fosse algum tipo de promoção, a gente pede um valor e o banco dá mais”. “Ah, e era pra devolver?”. “O banco me dá um prêmio e agora quer que eu devolva?”. “Não me lembro disso, não”. “Dinheiro? Que dinheiro?”. “Esse aí na câmera não sou eu, não”. “Mas nesse dia eu nem fui no banco...”. “Não dá pra parcelar?”. E por aí vai. Claro que, dependendo do país onde o caso se dê, é bem capaz de alguma destas justificativas ser aceita e, o processo, remetido para arquivo.
Lembrei dessa história depois de ler uma outra, não menos escabrosa e igualmente recente. O cidadão brasileiro Aldemir Bendine adquiriu, em 2010, um imóvel avaliado em 200 mil reais que pagou, segundo sua declaração de Imposto de Renda, em dinheiro vivo. O problema é que ele não conseguiu comprovar de onde saiu o dinheiro para a aquisição. Além desse valor, Bendine não explicou também em sua declaração a origem de outros 280 mil reais, o que fez com que a Receita Federal promovesse a abertura de uma investigação de suspeita de lavagem de dinheiro que poderia embasar um eventual processo. Para evitar tamanha chateação, entretanto, Aldemir preferiu tomar uma atitude mais cômoda, tanto para ele quanto para a Receita: pagou, em dinheiro vivo, no último dia 27 de agosto, uma multa de 122 mil reais, recolhimento este que encerra a investigação, evita maiores aborrecimentos e permite que tudo, afinal, se acomode.
Só um detalhe: o cidadão Aldemir Bendine é o atual presidente do Banco do Brasil, cargo que assumiu em 2009. Seu perfil, logo se vê, é diferenciado, muito diferente do obscuro cidadão belga que tentou passar a perna em um dos bancos do seu país. No Brasil, isto jamais aconteceria, não é mesmo? Afinal, não somos a Bélgica. E “fraude ao sistema financeira”, aqui e lá, pelo jeito, possuem conceitos e interpretações diferentes.



"NO CALOR DO JOGO"

www.torcedores.com.br

Benilson Toniolo

A jovem Patrícia Moreira, gremista, gaúcha, bonita, branca e muito bem empregada no setor de Odontologia da Brigada Militar do Rio Grande do Sul veio a público na última quarta-feira explicar por qual motivo foi flagrada por uma câmera de TV nas arquibancadas do estádio do Grêmio Porto-Alegrense chamando o goleiro Aranha, do Santos, de ‘macaco”, durante a partida de ida das oitavas-de-final da Copa do Brasil. A cena correu o mundo: o jogador, que é negro,  gesticulava revoltado por estar sendo ofendido por xingamentos de teor racista provenientes da torcida do time da casa, localizada atrás da trave onde ele estava. O jogo foi paralisado, representantes da equipe gaúcha se dirigiram à torcida e pediram que as ofensas parassem porque aquilo prejudicava o time, que perdia por dois a zero e precisava virar o jogo, que era eliminatório. No meio de tudo isso, uma câmera de tevê flagrou Patricinha xingando o goleiro de “macaco”, o que derruba qualquer presunção de inocência que se pudesse tentar alegar para livrar o time do pagamento de multa e exclusão da competição, o que foi anunciado pelo Superior Tribunal da Justiça Desportiva – o famigerado STJD- também na última semana.
Na entrevista coletiva de quarta-feira passada, entre um choro aparentemente sem lágrimas e uma expressão de puro desespero e arrependimento, Patricinha pediu perdão, disse que não é racista, que não tinha intenção de ofender o jogador e que fez isso porque o Grêmio, que ela ama, estava perdendo. Pediu “desculpas à nação tricolor e ao Grêmio“ e justificou: “foi  no calor do jogo”.
Ah, certo. O calor do jogo. Pois bem. Pois foi justamente no “calor do jogo” que, recentemente, um vereador corinthiano matou um palmeirense; que outros corinthianos mataram um torcedor boliviano com um rojão no meio da cabeça dentro do estádio; que um santista foi espancado até a morte numa tocaia preparada por são-paulinos; que cruzeirenses e atleticanos seguem disputando para ver qual dos times tem mais torcedores assassinados pela torcida adversária. No “calor do jogo”, Patricinha, palmeirenses e são-paulinos protagonizaram uma batalha campal inesquecível na final de uma Copa São Paulo de Juniores. No “calor do jogo”, vascaínos e torcedores do Atlético Paranaense se lincharam uns aos outros em frente às câmeras de tevê pelo Brasileirão do ano passado dentro do estádio. No “calor do jogo” dezenas de  torcedores da Juventus, da Itália, foram massacrados ao serem empurrados contra um alambrado em um estádio da Bélgica. No “calor do jogo” um jovem torcedor do Vitória  perdeu a visão ao ter os olhos atingidos por uma barra de ferro arremessada contra sua cabeça. No “calor do jogo”, Patricinha, um torcedor do Santa Cruz morreu ao ser atingido na cabeça, pasmem, por um vaso sanitário atirado do alto das arquibancadas de um estádio no Recife (você sabe onde fica Recife, Patricinha?). No “calor do jogo” homossexuais são assassinados com pedradas pelo simples fato de estarem vivos e andarem pela rua. No “calor do jogo” índios são queimados, presidiários são decapitados à vista de todos  e mendigos são destruídos na calada da noite. No “calor do jogo” há os Amarildos, os Juans  e os Bernardos de cuja existência só tomamos conhecimento quando suas tragédias e seus assassinatos, cometidos pelo Estado, são anunciados no jornal. No “calor do jogo” o governo brasileiro comprometeu o orçamento do País na construção de estádios colossais para uma Copa do Mundo deficitária e que decretou o fim dos tempos gloriosos da Seleção Brasileira de Futebol –a mesma Copa que foi recusada pelo Presidente João Figueiredo, o último, grotesco e mais folclórico dos presidentes militares, que se recusou a organizar o Mundial de 1986 por não concordar com o risco financeiro que isso representaria para o País. No “calor do jogo” o assassinato de torcedores por torcedores rivais deixou de virar escândalo. No “calor do jogo” amizades se acabam por causa de futebol. No “calor do jogo” o futuro de milhares de crianças brasileiras desaparece, porque os meninos deixam de lado os estudos para tentar a carreira de jogador de futebol, comprometendo muitas vezes o futuro de toda a família que concentra seus esforços e seu parco capital no sonho do menino em ficar milionário chutando uma bola. No “calor do jogo” é que jogadores iletrados, incultos e arrogantes são tratados como semi-deuses, em detrimento de profissionais como os professores e cientistas, estes sim, que lutam diariamente para levar o País adiante apesar das condições muitas vezes subumanas de trabalho e de salário. No “calor do jogo” ‘é que governos de todas as siglas e matizes usam dinheiro não-declarado para comprar apoio de parlamentares inescrupulosos. No “calor do jogo” é que pessoas morrem na porta de hospitais por falta de médicos e de medicamentos. No “calor do jogo”, Patricinha, é que ficamos com peninha de você, fanática pelo seu time, cheia de chapinha no cabelo e que acha que porque seu time, que você chama de “imortal”, está perdendo, você pode ofender as pessoas e chamar de “macaco” alguém que você considera inferior por ter a cor da pele diferente da sua.
Mas fique tranqüila. Provavelmente, nada acontecerá com você e nenhuma punição lhe será imputada, e você poderá guardar para o futuro um álbum cheio de fotografias e reportagens para poder mostrar para os netos,orgulhosa por um dia ter sido celebridade num país de sociedade hipócrita e, em alguns casos, permissiva. E, claro, bonito por natureza.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A CONVERSÃO

www.canelada.com.br

Benilson Toniolo

Eu era o único infante da família que não torcia para o Santos. Primos, primas, irmãos, toda aquela meninada era santista. Menos eu. Más influências, amizades ruins, e eu acabei torcendo para o time errado. Não vou declarar aqui meu time à época para que ninguém pense mal de mim. Sabe como são essas coisas, as pessoas não costumam perdoar certos deslizes, mesmo quando eles acontecem quando a gente ainda é menino. Vida dura, mundo injusto, e vamos nós.
A notícia se espalhou pela família. O menino tinha se desviado, e era preciso fazer alguma coisa. Quem é que ia cuidar disso? Alguém chegou a lembrar que o vô Mario virou Palestra tão logo desembarcou no porto, vindo de Gênova. Mas o vô podia, oras, tinha seus motivos mais do que justificados. Com esse negócio de pátria ninguém mexe, que isso para certas pessoas é sagrado. E as pessoas costumam ser mais nacionalistas quando longe da terra natal, disso todo mundo sabe.
Até que chegou, vindo do interior para passar as férias em casa, como fazia todos os anos, o tio Aldo, a grande autoridade futebolística da família. Também ele, em terra estranha (mudara-se de Santos para Campinas por ocasião do casamento com a tia Emília), fazia questão de sempre que possível reafirmar sua condição de caiçara, praieiro e, evidentemente, santista. Porque time não se escolhe – é o time que escolhe a gente.
Numa tarde de domingo, depois do almoço, o tio me chamou na mesa da cozinha e me mandou sentar. Abriu uma tubaína gelada e foi direto ao assunto: tu não é santista por quê? Ah, tio, eu gosto mais é do outro. Mas por que tu gosta mais do outro? Ah, lá na escola todo mundo que eu conheço gosta mais do outro.
Então o tio tirou, de dentro de um envelope enorme, um livro. Era um livro em preto e branco, cheio de ilustrações, que contava a história do bi-campeonato mundial conquistado pelo Santos em uma final contra o Milan, em 1963. E o tio foi mostrando o que tinha o livro, e ia falando: aqui o Pelé, o maior jogador de todos os tempos; aqui é o Maracanã onde foi disputada a final, veja quanta gente, todo mundo torcendo para o Santos, porque o Santos ali estava representando o Brasil;  aqui a taça de campeão; um ano antes a gente ganhou o primeiro título mundial goleando o Benfica lá em Portugal, dizem os portugueses que foi a maior exibição de um time de futebol na história; o Milan é da Itália, terra do meu pai, seu avô, e a Itália é a terra do Mussolini, que matou muita gente, então a vitória foi muito importante para derrotar esse assassino; aqui a volta olímpica; olha que taça bonita; aqui nosso presidente; nosso técnico; esse outro é o Pepe, também conhecido como O Canhão da Vila, pois quando ele chuta a bola com o pé esquerdo a bola vai com tanta força que é capaz até de furar a rede do gol do adversário; esse de preto é o Gilmar, que é o melhor goleiro do mundo; veja como a torcida ficou feliz com a vitória do Santos, que na verdade é o Brasil; aliás, na escola você já deve ter aprendido que o nosso porto é o maior da América Latina, e fica bem pertinho do nosso estádio; que é só você pegar o circular 94 ali na Ponta da Praia que você desce na porta, se você quiser amanhã a gente vai lá conhecer a Vila Belmiro, que é o nome do nosso estádio; esse time aí que você falou tem estádio?
Pronto, estava feito. Foi coisa, acho, de mais ou menos uma meia hora, e a catequização estava completada. O tio guardou o livro dentro do envelope e me liberou. Cheguei no quintal e vi meu irmão e meu primo sentados debaixo da goiabeira, esperando o “sol baixar” pra poder jogarem bola. Anunciei: agora eu sou santista. Ambos me cumprimentaram como os meninos se cumprimentam.
Assim foi, e continua a ser. Para o bem de todos e felicidade geral da molecada da casa –principalmente de Bruno e Leonardo, meus filhos, que já nasceram assim e não precisaram perder tempo com conversões.