segunda-feira, 21 de julho de 2014

TIO BERALDO E O SANTOS

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Benilson Toniolo

Tio Beraldo era um exímio pedreiro, que fez nome e quase-fortuna na construção dos prédios verticais e tortos da cidade de Santos. Quer dizer, fortuna mesmo ele não fez, muito por culpa do alcoolismo. Mas foi bem. Tão logo se casou com tia Idalina, portuguesinha filha de dona de pensão viúva, tratou de construir seu sobradinho de madeira e alvenaria para os lados do canal dois.
Cedo vieram os filhos, Alberto, Elvira e Eduardo, pela ordem, que no futuro hão de ser profissionais, assim como o pai, acima de qualquer suspeita: dentista, professora e engenheiro, respectivamente, com a vantagem de nenhum deles ter se deixado levar pelo vicio da bebida. Cada um nasceu, cresceu, estudou e formou família graças ao trabalho caprichado e irretocável do pai. Em cada diploma recebido na formatura, estavam os calos de suas mãos, o suor de sua testa e de suas costas, a engenhosidade de seus cálculos e de sua liderança, a retidão de seu caráter. Seu Beraldo era honesto ao extremo. A gente santista sabia disso, e a ele confiava o sonho da construção de suas casas numa cidade que já começava a habituar-se às grandiosidades que fariam dela o que é hoje.
Os problemas cardíacos de seo Beraldo começaram por volta dos cinqüenta anos. Uma pontada, sudorese gelada, tremores, vista turva e o medo de morrer ali, em meio ao trabalho, sem ao menos se despedir de sua amada Idalina. Recuperado após uma noite de observação na Santa Casa, procurou o cardiologista. Exames, milhares deles. Levou os resultados ao doutor, tendo ao lado dona Idalina, que ela sim conhecia a linguagem de médicos e hospitais.
- Aqui está tudo ruim, seo Beraldo. Quatrocentos e noventa e nove de colesterol total. Quinhentos e cinqüenta de triglicerídeos, ácido úrico passando de doze. Glicemia, cento e vinte e dois. O senhor fuma?
Fumava.
- O senhor bebe?
Danou-se. Tinha que responder isso também?
- Tem casos cardíacos na família?
O pai morrera de derrame. A mãe tinha pressão alta. Perdera um tio com câncer. O resto, que ele soubesse...
- O que o senhor come?
Foi falando daquele jeito, meio-fala-meio-não-fala. Dona Idalina tomou a palavra e entregou. Contou tudo. O médico ficou bravo.
- O senhor quer morrer, seu Beraldo?
Queria não.
O doutor continuou bravo, prescreveu dieta rófoda e imediata e um monte de medicamentos para baixar as taxas constantes dos exames. Dona Idalina acompanhava tudo com olhos atentos e arregaladíssimos, assentindo com a cabeça o que dizia o doutor e estendendo ao marido sua expressão de reprovação. E não se conteve, quando o médico já se preparava para se despedir.
- Fala do Santos, Beraldo.
Beraldo balbuciou algo incompreensível. O médico:
- Como?
- O Santos, Beraldo. Fala do Santos.
O Beraldo, nada. Ela, já cheia de coragem, não vacilou e entregou mais esta:
- Esse aí é fanático, doutor. Chega a passar mal por causa desse time. Ouve os jogos pelo rádio, vai nos treinos, já chegou a brigar na rua por causa disso. E quando está escutando os jogos, doutor, ninguém pode nem chegar perto, fica num nervoso que o senhor não acredita. Xinga, fala palavrão, grita que nem louco, o coitado do juiz é que sofre. E quando o time perde, então, é um deus-nos-acuda. Já chegou a ficar cinco dias sem nem dirigir a palavra a ninguém dentro de casa, porque o time perdeu uma final de campeonato. Qualquer hora vai ter um negócio, esse homem, por causa do Santos, doutor, o senhor entende?
Não, ele não entendia, e aumentou a lista de recomendações: proibiu o homem de escutar os jogos do Santos. Comprasse  jornal no dia seguinte para saber o resultado, ou perguntasse para alguém, mas não podia mais ouvir os jogos do time. O senhor pode morrer de um ataque fulminante do coração, o senhor está me entendendo?
Seu Beraldo não disse nada. Homem de poucas palavras e habituado e tratar com respeito e servidão aos seus patrões, dos quais inúmeros eram médicos, concordou com tudo e saiu da sala. Na volta, no trólebus, não dirigiu a palavra à esposa. Considerava-se um homem condenado a morrer a qualquer momento, e muito em breve. Olhava para a rua, para as pessoas, para as casas, como se delas se despedisse. Quase chorou. Iria morrer, não tinha jeito. Se não fosse com um cigarro na boca, seria com um copo de cerveja. Ou com o radinho de pilha grudado no ouvido gritando gol do Pelé.
A tática adotada foi a seguinte: ele não ouvia mais o jogo inteiro, mas calculava mentalmente o tempo e, faltando cinco minutos para o final, ligava o rádio. Ali, acompanhava os cinco minutos restantes para o fim da partida, e mais os comentários, as entrevistas, as discussões acerca do resultado. Dona Idalina resmungava:
- Não foi isso que o médico mandou fazer.
Aos poucos, seo Beraldo foi melhorando. Cortou carne vermelha e frituras, reduziu de dois para meio maço de cigarros por dia e passou a tomar sua cervejinha só aos finais de semana –cortou o conhaque e a jurubeba. Voltou ao médico, fez novos exames, foi parabenizado pelo resultado e pediu à mulher que não falasse nada sobre seu amor pelo time. O médico provocou:
- E o Santos, seu Beraldo, como é que anda?
Ele desconversou, fez sinal de positivo e saiu. E ainda acompanhou os títulos paulistas de 67, 68, 69, 73, 78 e 84 –ano em que comemorou como um louco o gol do título estadual, feito pelo Serginho Chulapa, já no leito da Beneficência Portuguesa, onde morreu de câncer no pâncreas.

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