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Benilson Toniolo
Tio Beraldo era um exímio
pedreiro, que fez nome e quase-fortuna na construção dos prédios verticais e
tortos da cidade de Santos. Quer dizer, fortuna mesmo ele não fez, muito por
culpa do alcoolismo. Mas foi bem. Tão logo se casou com tia Idalina,
portuguesinha filha de dona de pensão viúva, tratou de construir seu sobradinho
de madeira e alvenaria para os lados do canal dois.
Cedo vieram os filhos,
Alberto, Elvira e Eduardo, pela ordem, que no futuro hão de ser profissionais,
assim como o pai, acima de qualquer suspeita: dentista, professora e
engenheiro, respectivamente, com a vantagem de nenhum deles ter se deixado
levar pelo vicio da bebida. Cada um nasceu, cresceu, estudou e formou família graças
ao trabalho caprichado e irretocável do pai. Em cada diploma recebido na
formatura, estavam os calos de suas mãos, o suor de sua testa e de suas costas,
a engenhosidade de seus cálculos e de sua liderança, a retidão de seu caráter.
Seu Beraldo era honesto ao extremo. A gente santista sabia disso, e a ele
confiava o sonho da construção de suas casas numa cidade que já começava a
habituar-se às grandiosidades que fariam dela o que é hoje.
Os problemas cardíacos
de seo Beraldo começaram por volta dos cinqüenta anos. Uma pontada, sudorese
gelada, tremores, vista turva e o medo de morrer ali, em meio ao trabalho, sem
ao menos se despedir de sua amada Idalina. Recuperado após uma noite de observação
na Santa Casa, procurou o cardiologista. Exames, milhares deles. Levou os resultados
ao doutor, tendo ao lado dona Idalina, que ela sim conhecia a linguagem de
médicos e hospitais.
- Aqui está tudo ruim,
seo Beraldo. Quatrocentos e noventa e nove de colesterol total. Quinhentos e cinqüenta
de triglicerídeos, ácido úrico passando de doze. Glicemia, cento e vinte e
dois. O senhor fuma?
Fumava.
- O senhor bebe?
Danou-se. Tinha que
responder isso também?
- Tem casos cardíacos
na família?
O pai morrera de
derrame. A mãe tinha pressão alta. Perdera um tio com câncer. O resto, que ele
soubesse...
- O que o senhor come?
Foi falando daquele
jeito, meio-fala-meio-não-fala. Dona Idalina tomou a palavra e entregou. Contou
tudo. O médico ficou bravo.
- O senhor quer morrer,
seu Beraldo?
Queria não.
O doutor continuou
bravo, prescreveu dieta rófoda e imediata e um monte de medicamentos para
baixar as taxas constantes dos exames. Dona Idalina acompanhava tudo com olhos
atentos e arregaladíssimos, assentindo com a cabeça o que dizia o doutor e
estendendo ao marido sua expressão de reprovação. E não se conteve, quando o
médico já se preparava para se despedir.
- Fala do Santos,
Beraldo.
Beraldo balbuciou algo incompreensível.
O médico:
- Como?
- O Santos, Beraldo.
Fala do Santos.
O Beraldo, nada. Ela,
já cheia de coragem, não vacilou e entregou mais esta:
- Esse aí é fanático,
doutor. Chega a passar mal por causa desse time. Ouve os jogos pelo rádio, vai
nos treinos, já chegou a brigar na rua por causa disso. E quando está escutando
os jogos, doutor, ninguém pode nem chegar perto, fica num nervoso que o senhor não
acredita. Xinga, fala palavrão, grita que nem louco, o coitado do juiz é que
sofre. E quando o time perde, então, é um deus-nos-acuda. Já chegou a ficar
cinco dias sem nem dirigir a palavra a ninguém dentro de casa, porque o time
perdeu uma final de campeonato. Qualquer hora vai ter um negócio, esse homem,
por causa do Santos, doutor, o senhor entende?
Não, ele não entendia,
e aumentou a lista de recomendações: proibiu o homem de escutar os jogos do
Santos. Comprasse jornal no dia seguinte
para saber o resultado, ou perguntasse para alguém, mas não podia mais ouvir os
jogos do time. O senhor pode morrer de um ataque fulminante do coração, o
senhor está me entendendo?
Seu Beraldo não disse
nada. Homem de poucas palavras e habituado e tratar com respeito e servidão aos
seus patrões, dos quais inúmeros eram médicos, concordou com tudo e saiu da
sala. Na volta, no trólebus, não dirigiu a palavra à esposa. Considerava-se um
homem condenado a morrer a qualquer momento, e muito em breve. Olhava para a
rua, para as pessoas, para as casas, como se delas se despedisse. Quase chorou.
Iria morrer, não tinha jeito. Se não fosse com um cigarro na boca, seria com um
copo de cerveja. Ou com o radinho de pilha grudado no ouvido gritando gol do
Pelé.
A tática adotada foi a
seguinte: ele não ouvia mais o jogo inteiro, mas calculava mentalmente o tempo
e, faltando cinco minutos para o final, ligava o rádio. Ali, acompanhava os
cinco minutos restantes para o fim da partida, e mais os comentários, as
entrevistas, as discussões acerca do resultado. Dona Idalina resmungava:
- Não foi isso que o
médico mandou fazer.
Aos poucos, seo Beraldo
foi melhorando. Cortou carne vermelha e frituras, reduziu de dois para meio
maço de cigarros por dia e passou a tomar sua cervejinha só aos finais de
semana –cortou o conhaque e a jurubeba. Voltou ao médico, fez novos exames, foi
parabenizado pelo resultado e pediu à mulher que não falasse nada sobre seu
amor pelo time. O médico provocou:
- E o Santos, seu
Beraldo, como é que anda?
Ele desconversou, fez
sinal de positivo e saiu. E ainda acompanhou os títulos paulistas de 67, 68,
69, 73, 78 e 84 –ano em que comemorou como um louco o gol do título estadual,
feito pelo Serginho Chulapa, já no leito da Beneficência Portuguesa, onde morreu
de câncer no pâncreas.

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