segunda-feira, 21 de julho de 2014

SEGUNDAÇÕES DE 21 DE JULHO DE 2014

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Benilson Toniolo

O deputado federal Manato (só consta, na matéria do jornal, seu “nome de guerra”) faltou na última segunda-feira à formatura de sua filha, que ocorria na cidade de Vitória (ES) porque deveria, no mesmo dia, apresentar aos seus colegas um projeto no plenário da Câmara. Ao chegar para trabalhar e perceber que o local estava vazio e deveria falar apenas para as cadeiras, foi ao plenário e iniciou sua participação dirigindo-se à filha ausente: “peço a Deus que em sua formatura não haja o mesmo ato irresponsável como esse que me tirou daí para ficar sem fazer nada aqui”. Em época de campanha política, e justamente para o Congresso, nunca é demais lembrar que pode tratar-se apenas de uma bravata do parlamentar. Ma se non è vero, è ben trovato. E a história não deixa de ter seu lado bonito e, em se tratando de políticos, ainda por cima, brasileiros, tocante.
Na mesma semana o pensamento brasileiro perdeu, num intervalo de 24 horas, respectiva e desgraçadamente, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. Sobre o primeiro, bem mais famoso e popular, choveram reprises de entrevistas e participações em mesas redondas de eventos literários, aos quais assisti a boa parte. De Sargento Getúlio, seu grande livro (ainda não li O Sorriso do Lagarto e Viva o Povo Brasileiro), retirei uma frase como epígrafe para meu Porró do Beco das Almas, que fala dos estertores de um homem diante da morte. Grande, mas não surpreendente perda, dados seus notórios problemas com os vícios do fumo e do álcool, que ao acompanharam até o fim. Quanto a Rubem, fica como legado sua inquietação, sua capacidade de questionamento e de repensar a educação brasileira. Por ter trilhado o caminho da academia, tornou-se voz fundamental também em áreas como teologia, filosofia e sociologia. E tem gente que ainda pensa que nossa maior perda no ano foi o jogo para a Alemanha na Copa do Mundo.
Em ano eleitoral, a coisa está feia para os lados do PT. Segundo pesquisa Datafolha, Dilma tem o dobro de rejeição de Aécio (35% contra 17%) e mais que o dobro da de Eduardo Campos (35% contra 12%). Num eventual segundo turno, ela está a apenas sete pontos percentuais do pernambucano (45% a 38%) e meros 4 pontos (44% a 40%) do mineiro –diferença esta que,em fevereiro, chegava a 27 pontos. Já para o governo de São Paulo, as intenções de votos em Alckmin chegam a 50%, e Serra lidera com folga a corrida para o Senado. Na esfera municipal, o índice de satisfação de Haddad à frente da prefeitura paulistana é de 17%, o que provocou a ira de Lula e a convocação do alcaide para uma reunião de emergência para tratar de estratégias que garantam a melhora dos números –e a conseqüente elevação das intenções de voto no candidato do partido ao governo do Estado, o obscuro (em todos os sentidos) Alexandre Padilha que, apesar de contar com todo o aparelhamento público, consegue ficar atrás do peemedebista Paulo Skaf, o decano do capitalismo. Voltando a Dilma: ou vence logo no primeiro turno, ou provavelmente perde a eleição. A três meses do pleito, Lula terá que operar novos milagres para conseguir manter seu projeto de poder. O que, em se tratando dele, não é nada impossível. Enquanto isso, como diria Verissimo, “o povo vai pagando impostos”, sem saber direito por quê, para quê.

A chuva de corpos humanos (inteiros e, em sua grande maioria, aos pedaços) que desabou proveniente do avião da Malaysia Airlines carregado de passageiros sobre uma região da Ucrânia na última semana atingiu hortas, telhados, quintais, uma plantação de girassóis e é mais um duro golpe na fé que ainda conservo com relação à humanidade –quer dizer, a esta altura dos acontecimentos, nem sei se é fé o que trago comigo. Também não sei qual seria minha reação ao ver o corpo nu de um ser humano, inteiro ou aos pedaços, desabando do céu sobre o teto de minha casa depois do avião em que viajava ser atingido por um míssil disparado da terra. Nem falo aqui das crianças despedaçadas, dos brinquedos, das bagagens, das roupas, das fotografias, das memórias que se foram. O que quero dizer é que, se perdemos a capacidade de chorar diante de uma cena destas, então é sinal de que também nós já não estamos vivos -e faz tempo. Ou, pelo menos, de que tenhamos já deixado de viver.

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