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Benilson Toniolo
Na mesma semana o pensamento
brasileiro perdeu, num intervalo de 24 horas, respectiva e desgraçadamente, João
Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. Sobre o primeiro, bem mais famoso e popular, choveram
reprises de entrevistas e participações em mesas redondas de eventos
literários, aos quais assisti a boa parte. De Sargento Getúlio, seu grande
livro (ainda não li O Sorriso do Lagarto e Viva o Povo Brasileiro), retirei uma
frase como epígrafe para meu Porró do Beco das Almas, que fala dos estertores
de um homem diante da morte. Grande, mas não surpreendente perda, dados seus
notórios problemas com os vícios do fumo e do álcool, que ao acompanharam até o
fim. Quanto a Rubem, fica como legado sua inquietação, sua capacidade de
questionamento e de repensar a educação brasileira. Por ter trilhado o caminho
da academia, tornou-se voz fundamental também em áreas como teologia, filosofia
e sociologia. E tem gente que ainda pensa que nossa maior perda no ano foi o
jogo para a Alemanha na Copa do Mundo.
Em ano eleitoral, a coisa está
feia para os lados do PT. Segundo pesquisa Datafolha, Dilma tem o dobro de rejeição
de Aécio (35% contra 17%) e mais que o dobro da de Eduardo Campos (35% contra
12%). Num eventual segundo turno, ela está a apenas sete pontos percentuais do
pernambucano (45% a 38%) e meros 4 pontos (44% a 40%) do mineiro –diferença
esta que,em fevereiro, chegava a 27 pontos. Já para o governo de São Paulo, as intenções
de votos em Alckmin chegam a 50%, e Serra lidera com folga a corrida para o
Senado. Na esfera municipal, o índice de satisfação de Haddad à frente da
prefeitura paulistana é de 17%, o que provocou a ira de Lula e a convocação do
alcaide para uma reunião de emergência para tratar de estratégias que garantam
a melhora dos números –e a conseqüente elevação das intenções de voto no
candidato do partido ao governo do Estado, o obscuro (em todos os sentidos)
Alexandre Padilha que, apesar de contar com todo o aparelhamento público,
consegue ficar atrás do peemedebista Paulo Skaf, o decano do capitalismo.
Voltando a Dilma: ou vence logo no primeiro turno, ou provavelmente perde a eleição.
A três meses do pleito, Lula terá que operar novos milagres para conseguir
manter seu projeto de poder. O que, em se tratando dele, não é nada impossível.
Enquanto isso, como diria Verissimo, “o povo vai pagando impostos”, sem saber
direito por quê, para quê.
A chuva de corpos humanos
(inteiros e, em sua grande maioria, aos pedaços) que desabou proveniente do avião
da Malaysia Airlines carregado de passageiros sobre uma região da Ucrânia na
última semana atingiu hortas, telhados, quintais, uma plantação de girassóis e
é mais um duro golpe na fé que ainda conservo com relação à humanidade –quer dizer,
a esta altura dos acontecimentos, nem sei se é fé o que trago comigo. Também não
sei qual seria minha reação ao ver o corpo nu de um ser humano, inteiro ou aos pedaços,
desabando do céu sobre o teto de minha casa depois do avião em que viajava ser
atingido por um míssil disparado da terra. Nem falo aqui das crianças despedaçadas,
dos brinquedos, das bagagens, das roupas, das fotografias, das memórias que se
foram. O que quero dizer é que, se perdemos a capacidade de chorar diante de
uma cena destas, então é sinal de que também nós já não estamos vivos -e faz
tempo. Ou, pelo menos, de que tenhamos já deixado de viver.

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