alfemminile.it
Benilson Toniolo
O chute veio do meio do campo e já
sabíamos, pela força e altura com que a bola vinha, que só podia ter sido
desferida pelo tio. E um chute daqueles, quando o tio pegava na veia, era duro
de defender. Prima Angela e eu, quando vínhamos no ônibus a caminho da praia,
já tramávamos a tática do jogo que não permitiria que nosso time, o Siri
Futebol e Praia, não saísse derrotado: não se podia deixar o tio Aldo -meu tio
e pai dela- acertar um chute daqueles. Quem estivesse na defesa –o Nal, o Xé ou
quem ali estivesse- tinha que dar um jeito de parar a jogada. Não foi o que
aconteceu.
Havíamos acabado de tomar o terceiro gol
sem ter feito nenhum e decidimos, eu e ela, ambos jogar de goleiro para evitar
mais gols e uma goleada ainda maior. Avisamos o Xé, meu irmão caçula, que
naquele dia estava no nosso time: “fica aí e não deixa eles chegarem perto do
gol! Cuidado com a marcação”, alertávamos em tom professoral. No momento me
pareceu meio maluca aquela história de dois goleiros no mesmo time, com um
jogador de linha somente, mas como tinha sido ideia dela, logo compreendi que
provavelmente daria certo. Angela era assim, acertava sempre, e eu já havia
entendido isso há algum tempo.
O Xé fazia o que podia correndo entre as
linhas rabiscadas que demarcavam o campo de jogo, no meio da areia da praia.
Chegou até a acertar um chute de bico na tentativa de marcar nosso tento de
honra, mas a bola saiu em direção do sorveteiro, que devolveu de primeira. E
Angela e eu ali, debaixo do gol, lado a lado a defender nossa cidadela. Vencia
o time que primeiro fizesse cinco gols, e nós tomando de três a zero. O que era
bem estranho para nós, porque geralmente as partidas eram bastante
equilibradas. A gente ganhava e perdia na mesma proporção, acho. De repente,
quando demos conta, lá vinha a bola, alta, forte e certeira, sem curvas,
chutada em direção à nossa meta. Saltamos com os dois pés e com toda a impulsão
que nossos dez anos de existência nos permitiam para tentar alcançá-la e
assistimos, vencidos e impotentes, ela passar velocíssima sobre nossos dedos
esticados. Era outro gol deles, outro gol do tio, e não conseguíramos fazer
nada para impedir a iminente goleada que humilhava o Siri Futebol e Praia.
Angela ficou nervosa, diria que prestes
a chorar. Dedo em riste e cenho franzido, os olhos azuis contrastando com raios
vermelhos, caminhou a passos largos em direção ao
seu enorme pai, gritando e repetindo: “não valeu, não valeu, a gente não
alcançou!”. E então, ainda caído no chão, vi o tio abrir-lhe os braços num
sorriso branco que era do tamanho daquela praia toda, agarrá-la fortemente e
dizer: “vamos dar um mergulho, filharada!”. Corremos todos como crianças que
éramos em direção ao mar absoluto que nos esperava, também ele, num sorriso
silencioso, branco e verde.
Eram assim as férias da nossa infância.
Os tios que vinham de longe, do interior onde não havia praia, os primos que no
fundo eram irmãos, as brincadeiras de verão e de inverno. E o futebol, paixão
do tio e também nossa, a contagiar a todos. Jogávamos na praia, no quintal da
casa após o almoço, e à noite, antes de dormir e depois da janta, o jogo de
botão na mesa da cozinha. Campeonato com
tabela, artilharia e tempo cronometrado.
Até que um dia começamos, eu e Xé, a
jogar bola com a molecada da rua, quase todas as noites, depois da escola e
antes de a mãe chamar para a janta. Todas as ruas do bairro eram de terra, e
jogava-se o futebol em praticamente todas elas. Na nossa, principalmente, dada
a grande quantidade de meninos que nela moravam. De tanto jogar, aprendemos. E
nas férias seguintes, já não éramos mais, eu e meu irmão, os meninos de antes.
Passamos a jogar com nossos tios e primos de outra forma. Jogávamos
malandramente, driblávamos, fazíamos tabelas, aprendêramos formas diferentes de
bater na bola, tínhamos regras novas, estratégias, manhas, jeitos de parar a
jogada. Até que um dia, na praia, o Xé deu um chapéu no tio. Jogou a bola por
cima dele e buscou do outro lado, voltando a dominá-la antes de ela quicar no
chão –um lance perfeito. O tio não disse nada, continuou jogando. Na hora,
entre a euforia da jogada e o respeito e a admiração pelo tio, meu coração
disparou. O tio Aldo, que antes era imarcável e incomparável, agora se cansava
e não conseguia acompanhar nosso ritmo. E tomara um chapéu do seu sobrinho.
Queríamos fazer jogadas de efeito, dar passe de calcanhar, matar a bola no
peito e sair jogando. Agora, éramos quase craques. Matamos, sem querer, a
ingenuidade e a pureza do futebol de praia que até outro dia praticávamos como
brincadeira. Para nós, aquilo era futebol, uma coisa séria. Aquele chapéu matou
o Siri Futebol e Praia.
Nas férias seguintes Angela trouxe na
bagagem seu primeiro namorado, que para piorar ainda era palmeirense. O bom é
que não jogava nada. Nas que vieram depois, foi a vez de Silvia e seu
são-paulino gordinho metido a engraçadinho e, ele também, perna-de-pau. Como
podiam nossas irmãs arranjarem namorados? Como podiam passar a recusar
sistematicamente nossos convites para dar um mergulho com a repetitiva desculpa
de que estavam com dor de cabeça (um dia comentei com meu irmão, “mas que
diabos que essas meninas agora têm dor de cabeça todo dia?”)? Nossa vingança
era, evidentemente, no futebol. Tripudiavámos: na cidade de vocês ninguém sabe
jogar bola, não? Ao fim do jogo lá iam os quatro, os dois casais de braços
dados para os abraços do mar. Nós? Voltávamos ao futebol, contrariados e
inertes, fingindo indiferença à alegria dos novos namorados.
Tio Aldo costumava acompanhar os jogos
do Santos num radinho de pilha que tinha uma capinha marrom e chiava um bocado
(o rádio, não o tio). Invariavelmente, eu estava ao lado dele, nos meus
primeiros sofrimentos alvinegros. Numa ocasião, reclamei: “tio, esse time só
ganha de um a zero”. “E não está bom?”, respondeu. Uma vez empatávamos contra o
Noroeste, em Bauru, o que me deixava muito irritado. O tio achou tentou compensar: “melhor do que
perder”. Noutra oportunidade, o América de Rio Preto fez um a zero no comecinho
do jogo, com um ponta direita chamado Marinho que era, dizem, um cracaço, e
nada de o Santos empatar. Nilton Batata acertou uma bola na trave. Quando o
narrador anunciou quarenta minutos do segundo tempo, ele pousou uma das mãos no
meu braço, me olhou com aqueles imensos olhos azuis e profetizou, com uma confiança
que até então eu não conhecia: “o Santos vai empatar esse jogo”. Não empatou.
Comecei a torcer pelo Santos por causa
do tio Aldo. Quando, sozinho em casa, eu me dedicava a ouvir os jogos
nos rádios que meu pai trazia para consertar, eu sabia que, lá em Campinas, meu
tio também estava a ouvir a mesma partida. E tentava adivinhar suas reações a
cada gol feito, a cada gol perdido, a cada gol tomado. Quando nos
encontrávamos, era só do Santos que falávamos. Tio, tu viu o gol do Pita? Quem
é esse volante novo que o Santos comprou? Tio, será que se fosse o Vitor no
lugar do Flávio tinha defendido aquele pênalti? Tio, mais de tardezinha vamos
jogar bola? Eu guardava os comentários para quando me encontrasse com ele, nas
férias que viriam.
Até que um dia, sem que ninguém
esperasse, e apesar da doença que o consumia, o tio não voltou. E, para dizer a
verdade, não voltou nunca mais. E nem respondeu a carta que lhe enviei, dizendo que
sua doença não havia de ser nada, e que ruim mesmo era a defesa do Santos.

Sem comentários:
Enviar um comentário