sábado, 26 de julho de 2014

O SIRI FUTEBOL E PRAIA E AS PAIXÕES DA INFÂNCIA

alfemminile.it

Benilson Toniolo

O chute veio do meio do campo e já sabíamos, pela força e altura com que a bola vinha, que só podia ter sido desferida pelo tio. E um chute daqueles, quando o tio pegava na veia, era duro de defender. Prima Angela e eu, quando vínhamos no ônibus a caminho da praia, já tramávamos a tática do jogo que não permitiria que nosso time, o Siri Futebol e Praia, não saísse derrotado: não se podia deixar o tio Aldo -meu tio e pai dela- acertar um chute daqueles. Quem estivesse na defesa –o Nal, o Xé ou quem ali estivesse- tinha que dar um jeito de parar a jogada. Não foi o que aconteceu.
Havíamos acabado de tomar o terceiro gol sem ter feito nenhum e decidimos, eu e ela, ambos jogar de goleiro para evitar mais gols e uma goleada ainda maior. Avisamos o Xé, meu irmão caçula, que naquele dia estava no nosso time: “fica aí e não deixa eles chegarem perto do gol! Cuidado com a marcação”, alertávamos em tom professoral. No momento me pareceu meio maluca aquela história de dois goleiros no mesmo time, com um jogador de linha somente, mas como tinha sido ideia dela, logo compreendi que provavelmente daria certo. Angela era assim, acertava sempre, e eu já havia entendido isso há algum tempo.
O Xé fazia o que podia correndo entre as linhas rabiscadas que demarcavam o campo de jogo, no meio da areia da praia. Chegou até a acertar um chute de bico na tentativa de marcar nosso tento de honra, mas a bola saiu em direção do sorveteiro, que devolveu de primeira. E Angela e eu ali, debaixo do gol, lado a lado a defender nossa cidadela. Vencia o time que primeiro fizesse cinco gols, e nós tomando de três a zero. O que era bem estranho para nós, porque geralmente as partidas eram bastante equilibradas. A gente ganhava e perdia na mesma proporção, acho. De repente, quando demos conta, lá vinha a bola, alta, forte e certeira, sem curvas, chutada em direção à nossa meta. Saltamos com os dois pés e com toda a impulsão que nossos dez anos de existência nos permitiam para tentar alcançá-la e assistimos, vencidos e impotentes, ela passar velocíssima sobre nossos dedos esticados. Era outro gol deles, outro gol do tio, e não conseguíramos fazer nada para impedir a iminente goleada que humilhava o Siri Futebol e Praia.
Angela ficou nervosa, diria que prestes a chorar. Dedo em riste e cenho franzido, os olhos azuis contrastando com raios vermelhos, caminhou a passos largos                                  em direção ao seu enorme pai, gritando e repetindo: “não valeu, não valeu, a gente não alcançou!”. E então, ainda caído no chão, vi o tio abrir-lhe os braços num sorriso branco que era do tamanho daquela praia toda, agarrá-la fortemente e dizer: “vamos dar um mergulho, filharada!”. Corremos todos como crianças que éramos em direção ao mar absoluto que nos esperava, também ele, num sorriso silencioso, branco e verde.
Eram assim as férias da nossa infância. Os tios que vinham de longe, do interior onde não havia praia, os primos que no fundo eram irmãos, as brincadeiras de verão e de inverno. E o futebol, paixão do tio e também nossa, a contagiar a todos. Jogávamos na praia, no quintal da casa após o almoço, e à noite, antes de dormir e depois da janta, o jogo de botão  na mesa da cozinha. Campeonato com tabela, artilharia e tempo cronometrado.
Até que um dia começamos, eu e Xé, a jogar bola com a molecada da rua, quase todas as noites, depois da escola e antes de a mãe chamar para a janta. Todas as ruas do bairro eram de terra, e jogava-se o futebol em praticamente todas elas. Na nossa, principalmente, dada a grande quantidade de meninos que nela moravam. De tanto jogar, aprendemos. E nas férias seguintes, já não éramos mais, eu e meu irmão, os meninos de antes. Passamos a jogar com nossos tios e primos de outra forma. Jogávamos malandramente, driblávamos, fazíamos tabelas, aprendêramos formas diferentes de bater na bola, tínhamos regras novas, estratégias, manhas, jeitos de parar a jogada. Até que um dia, na praia, o Xé deu um chapéu no tio. Jogou a bola por cima dele e buscou do outro lado, voltando a dominá-la antes de ela quicar no chão –um lance perfeito. O tio não disse nada, continuou jogando. Na hora, entre a euforia da jogada e o respeito e a admiração pelo tio, meu coração disparou. O tio Aldo, que antes era imarcável e incomparável, agora se cansava e não conseguia acompanhar nosso ritmo. E tomara um chapéu do seu sobrinho. Queríamos fazer jogadas de efeito, dar passe de calcanhar, matar a bola no peito e sair jogando. Agora, éramos quase craques. Matamos, sem querer, a ingenuidade e a pureza do futebol de praia que até outro dia praticávamos como brincadeira. Para nós, aquilo era futebol, uma coisa séria. Aquele chapéu matou o Siri Futebol e Praia.
Nas férias seguintes Angela trouxe na bagagem seu primeiro namorado, que para piorar ainda era palmeirense. O bom é que não jogava nada. Nas que vieram depois, foi a vez de Silvia e seu são-paulino gordinho metido a engraçadinho e, ele também, perna-de-pau. Como podiam nossas irmãs arranjarem namorados? Como podiam passar a recusar sistematicamente nossos convites para dar um mergulho com a repetitiva desculpa de que estavam com dor de cabeça (um dia comentei com meu irmão, “mas que diabos que essas meninas agora têm dor de cabeça todo dia?”)? Nossa vingança era, evidentemente, no futebol. Tripudiavámos: na cidade de vocês ninguém sabe jogar bola, não? Ao fim do jogo lá iam os quatro, os dois casais de braços dados para os abraços do mar. Nós? Voltávamos ao futebol, contrariados e inertes, fingindo indiferença à alegria dos novos namorados.

Tio Aldo costumava acompanhar os jogos do Santos num radinho de pilha que tinha uma capinha marrom e chiava um bocado (o rádio, não o tio). Invariavelmente, eu estava ao lado dele, nos meus primeiros sofrimentos alvinegros. Numa ocasião, reclamei: “tio, esse time só ganha de um a zero”. “E não está bom?”, respondeu. Uma vez empatávamos contra o Noroeste, em Bauru, o que me deixava muito irritado.  O tio achou tentou compensar: “melhor do que perder”. Noutra oportunidade, o América de Rio Preto fez um a zero no comecinho do jogo, com um ponta direita chamado Marinho que era, dizem, um cracaço, e nada de o Santos empatar. Nilton Batata acertou uma bola na trave. Quando o narrador anunciou quarenta minutos do segundo tempo, ele pousou uma das mãos no meu braço, me olhou com aqueles imensos olhos azuis e profetizou, com uma confiança que até então eu não conhecia: “o Santos vai empatar esse jogo”. Não empatou.

Comecei a torcer pelo Santos por causa do tio Aldo. Quando, sozinho em casa, eu me dedicava a ouvir os jogos nos rádios que meu pai trazia para consertar, eu sabia que, lá em Campinas, meu tio também estava a ouvir a mesma partida. E tentava adivinhar suas reações a cada gol feito, a cada gol perdido, a cada gol tomado. Quando nos encontrávamos, era só do Santos que falávamos. Tio, tu viu o gol do Pita? Quem é esse volante novo que o Santos comprou? Tio, será que se fosse o Vitor no lugar do Flávio tinha defendido aquele pênalti? Tio, mais de tardezinha vamos jogar bola? Eu guardava os comentários para quando me encontrasse com ele, nas férias que viriam.


Até que um dia, sem que ninguém esperasse, e apesar da doença que o consumia, o tio não voltou. E, para dizer a verdade, não voltou nunca mais. E nem respondeu a carta que lhe enviei, dizendo que sua doença não havia de ser nada, e que ruim mesmo era a defesa do Santos.

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