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Benilson Toniolo
Mandaram-me ao Tabelião, e
estava eu a caminho. Com uma pasta pesada e repleta de documentos, saí do
edifício comercial na Rua Riachuelo com destino à Praça Mauá. Assim era, todos
os dias, no meu primeiro emprego, aos quatorze anos, num escritório de
advocacia. Contínuo, guardinha, office-boy, ou simplesmente, boy. Diariamente
ia ao fórum, aos cartórios, à prefeitura, ao prédio da Receita Federal, ao
banco, à lanchonete buscar sanduíches, pasteis e sucos para os empregados mais
antigos e melhor graduados. Sempre com muitas pastas, processos, documentos. Tinha
duas certezas: a primeira, que não sabia absolutamente nada sobre o que deveria
fazer nestes lugares, nem mesmo o que diziam os documentos que levava.
Limitava-me a cumprir ordens. Entregue, registre, pague, protocole, tire
cópias. A segunda, que me perderia e erraria o caminho, levando portanto mais
tempo para cumprir minhas funções e tendo que inventar desculpas a cada dia
para justificar minhas demoras.
Naquela tarde de chuvisco, a caminho
de cumprir mais uma dura missão na minha rotina, meu principal objetivo era
terminar o serviço logo, de preferência sem me molhar muito para não voltar
ensopado para casa e ter tempo para comer um pastel no Café Carioca.
Com aquela idade e naquele
tempo, eu tinha três preocupações prioritárias:
uma, dar conta do emprego e passar de ano na escola –e eu estava cada vez mais
enrolado em ambos os quesitos; segunda, começar a namorar alguma menina bonita –o
que, considerando as transformações físicas que me deixavam ainda mais feio do
que eu já era, e ainda mais com dupla jornada, era uma possibilidade, mais do
que remota, praticamente impossível –não era naquele ano, e daquele jeito, que
eu conseguiria beijar alguém pela primeira vez na vida; a terceira, que o
Santos fosse campeão paulista. Das três, esta era a que tinha melhores condições
de ser realizada. Primeiro, porque não dependia da minha intervenção (apesar das
superstições que eu seguia e que sempre davam certo); segundo, porque o time
estava bem na tabela, liderando desde a primeira rodada o campeonato de pontos
corridos com vantagem de três pontos (naquele tempo, a vitória valia só dois
pontos, e não os três de hoje); terceiro, que o penúltimo jogo seria em casa, o
que nos possibilitaria, dando tudo certo, levantarmos a taça dentro do gramado
da Vila Belmiro; e quarto, que o time era bom e muito melhor que os outros
concorrentes. A Diretoria havia decidido contratar alguns dos melhores
jogadores em atividade no País e acabar com aquela pasmaceira que o time
enfrentava desde o título de 78.
Ia eu pensando no próximo jogo
(quarta-feira à noite, contra o Taquaritinga, fora de casa) e na ausência do
Paulo Isidoro no time titular e também se o treinador Castilho ia botar o
Humberto ou o Mario Sergio pra compor o meio-de-campo quando avistei, do outro
lado da XV de Novembro, um sujeito cabeludo, alto, magro, e caminhando
rapidamente (quase correndo, na verdade) e tive um calafrio: meu Deus, é o
Lino! Como, que Lino, meu amigo? O Lino, meio-campista rápido e habilidoso que
fazia o contraponto do Dema, o volante que só batia. O Lino, o homem de confiança
do treinador e de toda a torcida santista, que dava ao meio-campo a leveza necessária
para que o time saísse tocando a bola velozmente em direção ao ataque. Era ele
o responsável por acionar o Zé Sérgio e o Chulapa. E fazia seus gols, também, com
alguma freqüência. O Lino, que também podia jogar mais avançado, ajudava na marcação
quando o lateral-direito Chiquinho avançava. Lino, o coringa do time, que tinha
vindo do Atlético Paranaense. Como, que Lino? O Lino, caramba, ali, quase na
minha frente.
Torcedor apaixonado, ainda
mais adolescente, é como um apaixonado com tendências suicidas quando não é
correspondido: um perigo à civilização, seja lá que civilização for. Era o meu
caso (o do torcedor, pois outras paixões só me ameaçariam alguns anos mais
tarde). Ao avistar um dos meus ídolos, pulei da calçada para o meio da Rua
General Câmara e empreendi uma
velocidade que surpreendeu não só a mim mesmo (nem nas peladas da Vila Santa Rosa
eu corria daquele jeito) mas também a quem passasse por mim, em direção ao meu
alvo. Driblei pedestres, fiscais, bicicletas, os ônibus que chegavam e saíam da
praça, sempre olhando para onde é que o Lino ia. E fui correndo, fui chegando,
o Lino ia ficando cada vez mais próximo (é ele, é ele sim!), diminuindo o ritmo
à medida em que chegava mais perto. Ele ia abrindo a porta de seu carro (também
trazia nas mãos uma pasta cheia de documentos), apertei o passo e, enquanto
entrava, me aproximei e continuei andando, para que ele não se assustasse e não
percebesse a maratona que empreendi para poder me aproximar. Passei então a
andar normalmente e, enquanto ele entrava no carro, passei e disse: “Fala, Lino”.
Ele virou-se e respondeu: “Opa” ao mesmo tempo em que adentrava em seu veículo
esporte. Eu continuei meu caminho, como se encontrar com um jogador de futebol
no meio da rua, e cumprimentá-lo como a um velho conhecido, se configurasse em
fato corriqueiro e comezinho, que acontece todos os dias. Na verdade, aquela
era a primeira vez que eu me aproximava de alguém que me era tão conhecido –das
narrações e entrevistas das rádios, do jornal, e muito mais raramente, da tevê.
E um dos artilheiros do meu time de futebol de botão, principalmente nos chutes
à meia distância.
Foi só isso. Mais nada. Com a
boca seca e as pernas trêmulas, ainda o vi ligar o carro e ganhar a rua,
enquanto eu retomava minha caminhada em direção ao Tabelionato.
Ao chegar em casa, à noite, eu
ainda anunciaria, emocionado e saboreando cada sílaba contida na frase a ser
proferida, mas sem grandes expectativas de ver meu ato heróico reconhecido: “hoje
encontrei o Lino na rua”. Em meio ao som do jornal na tevê, alguém ainda
perguntou, distraidamente: “que Lino?”.
E eu, sem perder o brilho nos olhos.
O Lino, ué. O Lino, do Santos Futebol Clube.

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