Benilson Toniolo
Deu-se comigo, hoje, um fato inédito: perdi o vôo. Por uma série de trapalhadas da pessoa encarregada de me trazer ao aeroporto, apresentei-me ao guichê da companhia aérea no exato momento em que o avião iniciava seus mastodônticos movimentos em pista para decolar. Paciência. Taxas pagas e embarque remarcado para dali a três horas, consolei-me com a possibilidade de que, no fim das contas, talvez eu não devesse mesmo embarcar naquele vôo. Sempre acontece assim nos grandes acidentes aéreos: sempre fica alguém que, por ter se atrasado para o embarque, foi poupado da morte trágica de um desastre a dez mil pés de altura do chão. Neste caso, felizmente, ambos os vôos, o que eu perdi e o que entrei depois, aterrissaram bem, e sãos, e salvos. Ao menos pelo que eu saiba. Maktub, como diriam Coelho e os adventistas.
Não, não briguei, não fiz
escândalo, não me exaltei. Guardei em mim a inevitável frustração causada pelo atraso e, quando finalmente
chegamos, desejei ao motorista uma boa viagem de regresso. Isso deve tê-lo
acalmado.
Ocorreu que, de ineditismo em
ineditismo, deu-se-me outro: o de ter pela frente três horas absolutamente
ociosas, obsequiosas de preenchimento, a perambular pelo aeroporto. Refiro-me a
um ineditismo de, pelo menos, três meses para cá. Três horas inteiras, que
preenchi colocando em dia as leituras atrasadas do fim-de-semana, tomando um
lanche e um chope –caríssimos, por sinal.
Vou à livraria Saraiva e, para me
atualizar do que está acontecendo no lugar de destino –Brasília- resolvo comprar
o Correio Braziliense, que retiro da prateleira. Pago o valor no caixa –R$ 2-
e, enquanto aguardo a notinha que o atendente em treinamento tenta imprimir,
percebo que o jornal é do dia anterior. Neste momento já estou em outro caixa,
já que o atendente em treinamento não conseguiu imprimir o recibo.
- Moça, vou ali trocar o jornal,
porque este aqui é de ontem.
- Não tem, moço. Jornais de
outros estados, só temos os do dia anterior.
- Bom, então vou trocar por uma
Folha de S. Paulo, que pelo menos é de hoje.
- Não pode. A Folha, o senhor vai
ter que comprar.
- Mas isso está errado. Não posso pagar por um jornal de ontem. Como é que vocês botam para vender um jornal de
ontem?
- ...
- Me diga uma coisa: por acaso são
muitas as pessoas que entram aqui e pedem para comprar um jornal do dia
anterior?
Pego a Folha. A atendente –que não
está em treinamento- está de posse do meu jornal de ontem, pelo qual já paguei
e não pretendo ler.
- Vou tentar fazer a troca. O
senhor tem cadastro na Saraiva?
- Eu, não. Minha mulher deve ter.
- O senhor sabe o número do CPF
dela?
- Sei.
Simone, isso mesmo. Ela confirma
o nome.
- O senhor está com documento da
sua esposa aí?
- Olha, milha filha, vamos fazer
o seguinte. Você me devolve os R$ 2 que paguei e vou embora.
- O senhor está com a notinha aí?
- Não, não estou. Porque seu
colega não sabia imprimir.
Olho em volta e o atendente em
treinamento sumiu.
- Então não vai ser possível,
senhor...
Pago mais R$ 3 pela Folha e mando
a menina enfiar o jornal de ontem de volta na prateleira. Poderia até trazer, mas sabe
como é. Jornal de ontem.
É por cenas assim, por
acontecimentos tão pequenos, mas tão constrangedores, que a gente percebe por
que é que um país não dá certo. Por que é que um país implode.
A senhora de olhos fixos no
telefone celular, parada no meio do saguão, eleva o tom de voz e determina: ‘vem
aqui, Isabel’. A menina Isabel está bem ao seu lado, segurando uma mochilinha
cor-de-rosa, e dirige-se à mulher num olhar interrogativo: ‘tô aqui, vó’. Mas a
avó da Isabel só tem olhos para a tela do celular. Pobre celular.
O apartamento do hotel é
exatamente defronte ao Estádio Nacional Mané Garrincha, um dos vários
construídos no Brasil para o Mundial de Futebol do ano que vem –todos erguidos
com uma velocidade espantosa para dar conta das exigências impostas pelo
‘padrão FIFA’. Ligo a tevê e recebo a trágica notícia da morte de três
operários nas obras do estádio de São Paulo. Segundo dizem, já são seis os
trabalhadores brasileiros mortos nestas obras. Será que precisamos mesmo disso?
Quantos trabalhadores ainda serão sacrificados para organizarmos um campeonato
de futebol? Impossível não me lembrar do General Figueiredo, que no fim dos
anos 1970 recusou uma proposta para organizar o mundial de 1986 em nosso País
devido aos absurdos custos envolvidos. É em momentos como este que começamos a
entender porque algumas nações avançam, e outras implodem. Nas pequenas e
grandes tragédias.
Brasília continua linda, apesar
das inúmeras e gigantescas obras a que está submetida e que causam os
transtornos naturais que empreitadas como estas costumam causar. A visão
noturna da Catedral e da Praça dos Três Poderes, todas iluminadas, é das mais
bonitas. Lugares tão monumentais, alguns dos quais que se constituem nos
grandes centros nervosos das principais decisões tomadas pelos três principais
poderes políticos, mergulhados no silêncio ensurdecedor e escuro do oeste,
remetem a breves reflexões e causam o tremor característico de quando nos
flagramos exatamente no meio da História de um país. É sempre bom rever a
capital federal, antes que imploda.

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