segunda-feira, 18 de novembro de 2013

PERDAS

Benilson Toniolo

                                          foto: facebook

O Professor Odair Bernabel nos deixou hoje, aos sessenta e seis anos. Era daquelas pessoas que a gente conhecia mesmo sem nunca ter sido apresentado. Encontramo-nos algumas vezes, e nunca trocamos mais do que meia dúzia de palavras. Cidade pequena, sabe como é. Grandalhão, jeito simples e sossegado, parecia ser daquelas pessoas que nunca se zangam. Passos lentos. Olhos atentos ao movimento das pessoas, das ruas.
Mas como conhecê-lo, sem nunca termos sido apresentados um ao outro? Simples: pelo que se dizia dele. Professor Odair –ou Dairzão, pela estatura e por outras características morais- caminhava pelas calçadas de Abernéssia sem precisar se apresentar a ninguém. Sua história como pai, cidadão, trabalhador e avô falavam por ele. Desnecessário que ele se apresentasse. Assim é com os que andam direito nesta vida: a própria vida se encarrega de dizer quem somos. Com Professor Odair foi assim que se deu.
Quando partiram Dynéas Aguiar e, mais recentemente, Daniel Corrêa Cintra, cheguei à conclusão que a melhor maneira de prestar-lhes homenagem era fazer o que eles fizeram de melhor enquanto aqui estiveram, ou seja, trabalhar. Trabalhar pela cultura, pelo conhecimento, pela educação, pela disseminação do conceito de que somente através do trabalho e do estudo poderemos construir pessoas melhores e, consequentemente, uma sociedade mais justa e fraterna. Um mundo melhor. Uma Cidade melhor, mais comprometida com seu futuro e menos presa a mesquinharias, pequenezas e a esta terrível subserviência que nos limita tanto.

Mais um bom que se vai, deixando a Cidade mais pobre intelectual e moralmente. O que nos preocupa é a falta de reposição: homens como Odair são cada vez mais raros, hoje em dia. O que nos resta é prosseguir trabalhando e confiando, como ele fez durante a vida, na mais nobre das profissões: a de professor. Professor Dairzão. 



Nunca li nada de Doris Lessing, que também bateu asas hoje, aos noventa e quatro. Nascida no Irã e criada em Zimbábue, vivia na Inglaterra há muitos anos. Lembro-me de sua foto estampada nos jornais quando ganhou o Nobel, chegando da feira –ou do supermercado- com seu improvável, para o momento, carrinho de compras (alguém poderia imaginar a escritora mais galardeada do mundo empurrando um carrinho de feira na fria manhã inglesa?) e fazendo cara de espanto ao ver a multidão de fotógrafos defronte sua casa. Diante da pergunta de um repórter sobre o prêmio, disse: “eu só escrevo, mais nada’. Lá vai Doris, aumentar nosso inventário de perdas irreversíveis.


Há quem diga que é o ciclo da vida. Pode ser o da morte, do qual a vida, necessária e fundamentalmente, é parte integrante.

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