Benilson Toniolo
Não gostei do tom usado por
uma usuária do twitter ao protestar pelo fato de ter sido acordada às sete da manhã de sábado
com uma ligação de um presídio – o velho golpe do seqüestro. Tudo bem que o caso
é grave e as autoridades brasileiras parecem não fazer o menor esforço para
eliminar esta inaceitável prática do nosso cotidiano, mas daí a aceitar que a
moça escreva que "o Brasil é um país de merda", já é um pouco demais. Afinal,
era só desligar o celular e voltar a dormir.
Não, não chegamos a tanto. Mas
vale a pena analisar, ainda que superficialmente, duas matérias destacadas na
Folha do mesmo sábado, para que tenhamos uma idéia mínima do rumo que esta imensa catraia chamada Brasil
está tomando –se é que há algum rumo neste oceano interminável de tragédias.
E veremos que, diferentemente
do que disse a tuiteira, somos no máximo, no máximo, um grande flato, para
ficarmos na esfera gastrointestinal do problema.
O POTÁSSIO É NOSSO
Duas novas jazidas de potássio
descobertas na bacia do Amazonas podem ajudar o Brasil a acabar com a dependência
externa do produto –ingrediente básico dos fertilizantes. No último ano, o país
importou 6 milhões de toneladas, o que representa mais de 90% do consumo total.
Segundo Hélio Diniz,
presidente da Potássio do Brasil –subsidiária da canadense Brazil Potash
Corporation- ‘as seis minas descobertas têm capacidade para produzir todo o
volume consumido pelo Brasil’.
Entretanto, em função do alto
investimento necessário para iniciar o projeto de extração (US$ 2 bi), a
empresa pretende iniciar a produção somente em 2018.
Sei não, mas tenho a impressão
que tem coisa (s) errada (s) nessa história. A responsável pelo potássio em
solo brasileiro é uma empresa canadense, que chama para si a responsabilidade pela extração de um mineral que, afinal, está
em solo brasileiro. Ou seja, a independência do país com relação ao potássio
está nas mãos dos canadenses. Venderam o solo brasileiro, sim. Mas para quem?
Quando? Por quanto? De que forma?
E continuaremos –pois esta é
nossa sina- importando milhões de toneladas ao ano daquilo que, em nosso solo,
abunda. Pelo menos até 2018, quando muito provavelmente o Brasil passará a considerar
a possibilidade de comprar dos canadenses aquilo que está em seu –dele- próprio
território. Se é que o território ainda é nosso...
Aumentou em 46% o roubo de cargas
(preponderantemente, de celulares e computadores) na região de Campinas. A
situação é de absoluto descontrole. Os aumentos registrados neste ano são de
700% em Itupeva, 400% em Indaiatuba, 167% em Vinhedo, 150% em Jundiaí, 117% em
Valinhos e 67% em Louveira. Ou seja, perdeu-se o controle de forma definitiva
do que a bandidagem apronta na região.
Além das conseqüências naturais
de uma terra sem lei, quem paga o prejuízo somos nós, os consumidores de bem
que não cometem crimes. Porque, se o roubo aumenta, o preço do seguro das
cargas aumenta na mesma proporção, o que causa também aumento no preço final do
produto. Podemos entender que as quadrilhas agem livremente, o governo permanece na
habitual inércia e o consumidor é quem arca com todo o prejuízo. Mas tudo bem,
porque nós, os eternos otários, compramos e pagamos em 12 vezes no cartão de
crédito, carnê, cheque pré-datado ou boleto bancário -sem juros, evidentemente, como anunciam na TV que, por sinal, ainda estamos pagando- e saímos da loja
convencidos de que fizemos um bom negócio.
Mas voltando ao tema: segundo
profissionais dos setores de transportes e segurança, a falta de combate à receptação
é o principal estímulo ao roubo de cargas.
O comando da PM na região informa
que ‘estamos mapeando as regiões e os horários mais críticos e desenvolvendo um
serviço de inteligência para combater esse tipo de crime’. Resposta
burocrática, protocolar e repleta de gerúndios para informar que pouco ou nada
está sendo feito de prático para resolver o problema. Talvez em 2015, depois
das eleições para o Governo do Estado...
Aos poucos, vou entendendo
melhor por qual motivo a coluna dominical de Daniel Piza no Estadão chamava-se ‘Por
que não me ufano’. Nada mais apropriado.
Falando nisso, que falta faz o
Daniel...

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