Benilson Toniolo
Tenho um ‘amigo’ na rede
social chamado Ray-Llander Fagundes. Não é erro de digitação, não, o nome dele
é esse mesmo. Ray-Llander. Deve ser uma variação daquele personagem de cinema
que não morria nunca. Aliás, Ray-Llander, talvez influenciado pelo nome que
escolheram para ele, também deve achar que é imortal. Pela sua forma de agir,
aliás, imagino que pense assim. Ninguém vem ao mundo com um nome desses
impunemente, ora bolas.
Ray-Llander posta na internet
muitas fotos de si mesmo, e sempre fotos em que ele aparece sozinho, nunca
olhando para a câmera, tendo por fundo uma paisagem do exterior. Pirâmides do
Egito, canais de Veneza, Louvre, Capitólio, safáris na África, palácios russos,
Taj-Mahal, cais de Cuba, o diabo. Ray-Llander está em todas, e em todos os
lugares. Quando a gente menos espera, ei-lo na tela à frente. Deve ser
médico, porque em algumas fotos (as que tira em solo tupiniquim) aparece de
jaleco branco e estetoscópio. Ray, ou Llander, é um sujeito importante. Viaja
muito. Deve ter mais milhas obtidas em viagens internacionais nos seus inúmeros
cartões de crédito do que eu, de vôos domésticos.
Diz ser escritor. E assume
esta condição com a mesma convicção com que eu evito dar a mim mesmo este
título. Ser escritor é coisa séria. É quase como um sacerdócio. Subir em um
altar com a Bíblia nas mãos para tentar decifrar à turba o que é que Deus quis
dizer com isto ou aquilo é tarefa para pouquíssimos –ou para loucos. Dizer-se
escritor é quase a mesma coisa. Dizer-se escritor significa assumir que esta é
a sua profissão, e que erros de gramática, por exemplo, comum a todos os
mortais, não lhe ocorrem jamais. Coisa para loucos. Ray-Llander não. Ele não
erra nunca.
Algumas de suas postagens me incomodam.
Recentemente, ele disse que não há nada mais desprezível que um escritor que paga
para publicar seus livros. Como se trata do meu caso –e de, certamente, 95% dos
casos de quem escreve livros no Brasil, achei que era o caso de responder à
postagem informando-o da injustiça, da indelicadeza, que estava cometendo. Nesse dia, quase pedi
a ele que me devolvesse o livro que um dia lhe enviei pelos Correios, e que ele
nunca acusou recebimento. Mas fiquei quieto, por achar que não valia a pena
‘comprar uma briga cibernética’ que certamente traria a mim, pobre mortal, mais
prejuízos que a ele, que está acima de todas as coisas.
Engoli mais este batráquio que
veio do Nordeste, onde vive Llander, o escritor que não precisa pagar para
publicar seus livros.
Outra postagem que me chamou a
atenção é a que ele qualifica José Dirceu e sua quadrilha como ‘heróis do povo
brasileiro’. Perguntei-lhe por qual motivo dedicava tamanha admiração e
subserviência a políticos que foram acusados, investigados, julgados e presos
por formação de quadrilha, evasão de divisas, improbidade administrativa e
outros crimes contra a Nação. Ele respondeu, entre outras coisas, que tratam-se
de pessoas que trazem em sua história de vida o fato de terem integrado as
guerrilhas que lutaram contra a ditadura militar, tendo sido inclusive torturadas
e exiladas pelo regime. Perguntei se este histórico dava a elas o direito de surrupiar dinheiro público para comprar apoio de parlamentares ao governo Lula, e
ele respondeu que eu, como membro de uma elite branca e paulista que busca
anular os avanços conquistados pelo governo PT, sou mais um influenciado pela
mídia fascista e de direita, revoltada com o fim dos nefastos privilégios
imposto pelo presidente Lula, que acabou por alçar o Brasil ao posto de potência
indiscutível e irremediável no cenário mundial. Tá, mas e o mensalão? ‘Nunca
existiu’, disse ele.
Nos últimos dias, atingiu o
ápice. Escreveu lá em sua página pessoal que o ódio que as elites têm de Lula é
maior do que o ódio dos alemães aos judeus. Não dá pra comentar. Nem pra levar
a sério.
Ray-Llander é danado. Traduz
para o inglês os próprios livros, execra todo aquele que é contra seu credo
(principalmente o político) e ultimamente tem postado fotos recebendo cumprimentos
em clubes literários. Está sempre muito bem acompanhado nas fotografias. Mas
continua olhando de lado, sem encarar a câmera. Faz de conta que receber
cumprimentos, posar para fotos no exterior faz parte do seu cotidiano. E deve
fazer, mesmo.
No fundo, o mais provável seria
pensar que o Doutor Ray-Llander não passa de um factóide, um personagem que
alguém tenha criado para atazanar a vida dos outros que, como eu, prestam
atenção no que as pessoas têm a dizer. Com um nome desses, e com posicionamentos
deste teor... mas não. Ele existe, pensa, trabalha e se posiciona. E adora
aparecer em fotografias.
Estive a ponto, mais de uma
vez, de excluí-lo de minha rede de contatos. Seria a atitude mais fácil:
bloqueio, deleto, elimino, excluo, e pronto, me vejo livre de suas postagens. Seria
a saída mais confortável –e a mais covarde também.
Se por um lado ninguém é
obrigado a conviver com quem não simpatiza, por outro não é de bom alvitre
simplesmente fingir que não existe alguém que não comunga do mesmo pensamento
que nós. Não foi isso que aprendi ao longo da vida. Não é isso que tento
aprender e incorporar a cada dia. Não é esse tipo de pensamento e postura que
pretendo deixar de exemplo aos meus filhos.
Portanto, não excluirei o
Doutor Ray-Llander Fagundes de minha rede de contatos na internet. Estou ciente de que
continuar com ele ainda vai me trazer muitos dissabores, caso ele continue
agindo da forma que age. Mas vai me proporcionar também praticar com freqüência
o exercício da tolerância, do respeito à opinião alheia, da convivência
pacífica entre iguais que pensam diferente. E vai me permitir trocar boas porradas ideológicas, pelo menos virtualmente.
Por isso vou continuar
acompanhando o que se passa pela cabeça deste meu ‘amigo’. No mínimo, ele me auxiliará a elaborar melhor os meus pontos-de-vista. E a entender que ninguém,
muito menos eu, e muito menos ele, somos donos da verdade.
Às armas, 'companheiro'!
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