Benilson Toniolo
Existem dois brasileiros,
atualmente, a quem a imortalidade, se existisse, cairia muito bem: Ariano
Suassuna e Manoel de Barros.
O primeiro, recém egresso de
um infarto e de duas internações hospitalares que deixaram em polvorosa o meio
cultural brasileiro, acaba de aceitar o convite do Governador de Pernambuco,
Eduardo Campos, para coordenar a elaboração do plano de políticas culturais e
educacionais do seu programa de governo, pré-candidato que é à Presidência da
República nas eleições do próximo ano. Além disso, anunciou que pretende sair
às ruas em campanha pela candidatura do neto, João Suassuna (homônimo do pai de
Ariano, assassinado em 1930 por forças políticas adversárias que também haviam
acabado de matar João Pessoa, no Rio de Janeiro, por motivos até hoje mal
explicados), a deputado federal. Suassuna, um verdadeiro guardião da cultura
brasileira, tão logo recuperou minimamente a saúde, retomou suas
aulas-espetáculo em todo o Brasil, multiplicando sua sabedoria e seus
ensinamentos para ouvintes de todos os recantos e sotaques. Recentemente alguém
definiu suas apresentações como ‘stand-up comedy’. Para quem conhece a obra do paraibano
o mínimo que seja, sabe o quanto o ofenderia esta definição totalmente
desprovida de bom-senso. Seria como chamar Bill Clinton de nordestino. Valter
Hugo Mãe, dia desses, contou que fez uma visita a Ariano em sua casa, no
Recife, durante sua participação na última Fliporto, e saiu de lá ‘em choque’,
ao contar que Ariano, em determinado momento, olhou-o fixamente e vaticinou: ‘Eu
não pretendo morrer’. A julgar pela retomada de sua vida pública, é bom que
ninguém duvide que Ariano Suassuna seja capaz de derrotar Caetana, como
intitula a morte.
Já o mato-grossense Manoel de
Barros resistiu como poucos à morte de João, seu filho mais velho, ocorrida há
cerca de sete anos num desastre aéreo. Recluso em sua fazenda no Pantanal,
continua, do alto de seus quase cem anos de vida, a escrever, criar e a
observar as ‘coisas e acontecimentos desimportantes’ do mundo, que recolhe e
transforma em poesia –uma poesia inédita, forte, intensa, viva e identificada
com aquilo que o Brasil tem de mais valoroso, que é o seu povo.
Justiça houvesse no mundo,
Ariano e Manoel já teriam sido reconhecidos, no mínimo, com o Prêmio Nobel de
Literatura. Caberia uma ação efetiva do Governo brasileiro na indicação de
ambos para que fossem reconhecidos mundialmente por sua luta em prol da cultura
deste País. Mas como estamos muito preocupados com campeonatos de futebol,
muito provavelmente o máximo que os governantes dediquem aos dois seja um
lacônico e protocolar anúncio de pêsames em suas exéquias.
Isso, somente quando estes
dois guerreiros se derem por satisfeitos e resolverem dar trégua a Caetana. O
que, pelo jeito e felizmente, para o bem da cultura e do povo brasileiro, ainda
vai demorar muito para acontecer.
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| Manoel de Barros |


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