domingo, 29 de dezembro de 2013

A IMORTALIDADE POR MERECIMENTO

Benilson Toniolo

Existem dois brasileiros, atualmente, a quem a imortalidade, se existisse, cairia muito bem: Ariano Suassuna e Manoel de Barros.
O primeiro, recém egresso de um infarto e de duas internações hospitalares que deixaram em polvorosa o meio cultural brasileiro, acaba de aceitar o convite do Governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para coordenar a elaboração do plano de políticas culturais e educacionais do seu programa de governo, pré-candidato que é à Presidência da República nas eleições do próximo ano. Além disso, anunciou que pretende sair às ruas em campanha pela candidatura do neto, João Suassuna (homônimo do pai de Ariano, assassinado em 1930 por forças políticas adversárias que também haviam acabado de matar João Pessoa, no Rio de Janeiro, por motivos até hoje mal explicados), a deputado federal. Suassuna, um verdadeiro guardião da cultura brasileira, tão logo recuperou minimamente a saúde, retomou suas aulas-espetáculo em todo o Brasil, multiplicando sua sabedoria e seus ensinamentos para ouvintes de todos os recantos e sotaques. Recentemente alguém definiu suas apresentações como ‘stand-up comedy’. Para quem conhece a obra do paraibano o mínimo que seja, sabe o quanto o ofenderia esta definição totalmente desprovida de bom-senso. Seria como chamar Bill Clinton de nordestino. Valter Hugo Mãe, dia desses, contou que fez uma visita a Ariano em sua casa, no Recife, durante sua participação na última Fliporto, e saiu de lá ‘em choque’, ao contar que Ariano, em determinado momento, olhou-o fixamente e vaticinou: ‘Eu não pretendo morrer’. A julgar pela retomada de sua vida pública, é bom que ninguém duvide que Ariano Suassuna seja capaz de derrotar Caetana, como intitula a morte.
Já o mato-grossense Manoel de Barros resistiu como poucos à morte de João, seu filho mais velho, ocorrida há cerca de sete anos num desastre aéreo. Recluso em sua fazenda no Pantanal, continua, do alto de seus quase cem anos de vida, a escrever, criar e a observar as ‘coisas e acontecimentos desimportantes’ do mundo, que recolhe e transforma em poesia –uma poesia inédita, forte, intensa, viva e identificada com aquilo que o Brasil tem de mais valoroso, que é o seu povo.
Justiça houvesse no mundo, Ariano e Manoel já teriam sido reconhecidos, no mínimo, com o Prêmio Nobel de Literatura. Caberia uma ação efetiva do Governo brasileiro na indicação de ambos para que fossem reconhecidos mundialmente por sua luta em prol da cultura deste País. Mas como estamos muito preocupados com campeonatos de futebol, muito provavelmente o máximo que os governantes dediquem aos dois seja um lacônico e protocolar anúncio de pêsames em suas exéquias.
Isso, somente quando estes dois guerreiros se derem por satisfeitos e resolverem dar trégua a Caetana. O que, pelo jeito e felizmente, para o bem da cultura e do povo brasileiro, ainda vai demorar muito para acontecer.

Manoel de Barros

Ariano Suassuna
                         

                                             




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