A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo (José Saramago)
No fundo, sou mesmo praieiro.
Praieiro de pé no chão: na lama, no asfalto escaldante, na areia da praia, no
alto das pedras, na beirada da água, onde a arrebentação não alcança. Com o
suor escorrendo o dia inteiro pelo corpo, a testa ensebada, a vista a perder de
vista pela linha reta do horizonte mais adiante.
No fundo, sou litorâneo. O mar
me fez poeta, com seus mistérios e vertigens. O balanço das barcas do estuário,
as ostras enclausuradas, os peixes nos barcos, as redes esticadas ao longo do
dorso oceânico.
No fundo, sou caiçara.
Respeito Iemanjá e seus filhos que se atiram nas águas ainda de madrugadinha,
quando só a lua vela por todos, do alto de sua morada no céu infinito.
Catei siris ao pôr-do-sol,
joguei muita bola pelas ruas de terra e pelas faixas de areia escura, vi o
afogado passar bem ao lado da catraia. Namorei nos bancos da praia, fotografei
turistas, cismei no quebra-mar da Ponta das Galhetas, tive medo de morrer nas
pedras do Guaiúba.
Emudeci diante da visão do
Monte Serrat.
Chorei de tristeza e de
alegria nas arquibancadas da Vila, o uniforme branco maculado pela derrota mais
humilhante e canonizado na vitória mais consagradora.
Bebi cerveja nas Bocas, joguei
sinuca no Marapé, amanheci esperando os ônibus
do Macuco.
No fundo, é de lá que eu sou.
Das quebradas do Itapema, da Vila
Zilda, Jardim dos Pássaros. Jabaquara. Aparecida, Boqueirão, Embaré,
Encruzilhada.
Vô e vó no Saboó e pai na
Areia Branca. Conheço. É de lá que eu sou.
Das lindezas das Astúrias, da
praia de Pernambuco, das amizades da Santa Rosa, da Pouca Farinha.
Sou o gordo do coleginho, sou
eu mesmo. O louco por bola, o que queria ser goleiro e era míope, o que sofreu
quando os amigos partiram, sabe Deus para onde.
O que ficou devendo, o que não
arrumava emprego, o que queria voar.
O que mentiu e acreditou, o
que cantou árias pra lua, o que quis morrer e teve medo de tentar.
No fundo, sou isso mesmo.
E é para lá que eu volto, por
estes dias que ainda restam do ano de dois mil e treze. Com mulher e filhos, a
celebrar com a mãe e o irmão a festa do Natal.
Volto diferente, que muitos
anos se passaram desde que vim para a montanha. Mas eu volto porque preciso. De
descanso, de repouso, de silêncio, de estar com aqueles que amo. Há quem diga
que o que é busco é o retorno ao útero materno. Pode ser, não desminto. Aquela
história de segurança, de vínculo, etc. Pode ser. Chamem como quiser, o que eu
quero é estar em casa.
No porta-malas levo livros
para os amigos e a cabeça pronta para novas memórias.
Passado o Natal volto para a
Montanha, que é o lugar que agora me cabe, e onde pretendo ficar.
Venham comigo, meus amigos, meus
irmãos: a vida é apenas aquilo que somos, com todos os vícios e virtudes de que somos feitos. O resto é péssima
literatura.
Na época da celebração do
nascimento de Cristo (que, afinal, é o dono da festa), é para minha mãe que volto.
Mãe-terra, mãe-cidade, mãe-gente.
Que Deus nos abençoe.

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