domingo, 23 de fevereiro de 2014

DAMIANA


Benilson Toniolo

Chama-se Damiana e apresentou-se como a nova  garçonete da pastelaria que freqüentamos em Abernéssia. Baixinha, morena, jovem ainda. Vinte e dois, vinte e três anos. Nordestina, que nessas adivinhações raramente me engano. Só não sabia de onde, nem quis perguntar. Cantarolava baixinho, ares de boa gente, recém-chegada à cidade.
Acabada a rodada de pastel, pedi uma tapioca.
- O senhor quer de quê?
Pedi a de sempre. Coco com leite condensado. Passado um tempinho, me trouxe na cestinha.
- É assim que o senhor quer?
Respondi com um sorriso.
- Não é a que se come na Paraíba, mas tá bom.
Ela ampliou um sorriso maior que o tamanho da tapioca.
- O senhor é da Paraíba, é?
- Não, mas morei lá por dois anos. João Pessoa. Conhece?
- Conheço não. Nunca fui na Paraíba.
- Você é de onde?
- Pernambuco.
- Que lugar?
- O senhor conhece Pernambuco?
- Morei lá perto, como disse. Conheço um pouco. De qual cidade você é?
- Goiana.
- Então, quando a gente sai da Paraíba pra Pernambuco, passa em Goiana. Faz tempo que você veio pra cá?
- Faz não. Faz dois meses.
- E está gostando?
- Aqui é bom. Mas não sei...
- Está estranhando? Muito frio?
- Tem o frio, sim, mas não é isso.
- O que é, então?
- É que aqui é esquisito, moço. Diferente de lá.
- Bom, diferente é, mesmo. Você mora com quem aqui?
- Sozinha.
- E veio fazer o quê, aqui?
- Ah, vim porque disseram que era bom. Aí eu vim. Lá não tinha emprego, não tinha nada. Aí eu vim. Mas não sei.
- Você é casada?
- Não.
- Tem filhos?
- Não.
- Nem lá, em Goiana?
- Tenho não. Tinha um paquerinha, só.
- E seus pais? São vivos?
Damiana deixa de sorrir. Baixa os olhos e, com os dedos indicador e polegar de ambas as mãos, começa a enrolar a ponta do avental. Nervosa, começa a chorar.
- Eu tenho muita saudade deles, moço. Muita saudade.
- E você fala com eles?
- De vez em quando eu telefono. Eles não usam computador, senão eu ia numa lan-house e falava com eles pela internet. Mas eles não sabem usar, e não é sempre que meus irmãos estão em casa pra ligar o computador e ajudarem eles a falar comigo. Então eu telefono. Olha, o número do meu celular ainda é de lá.
- Quais são seus planos aqui?
- Queria estudar, arrumar um emprego, crescer na vida.
- E lá não dá pra fazer isso?
- Lá não tem quase emprego não. Mas também, ficar aqui e ganhar tão pouquinho como eu ganho aqui...
- Este é seu primeiro emprego na cidade?
- É, sim. Foi fácil arranjar. No primeiro dia que saí procurando já arranjei este aqui. Aqui é bom, o pessoal que vem aqui é educado, trata bem à gente.  Faz um mês só, que estou aqui. Já registraram em carteira, já está tudo certinho.
Ela sorri, dá as costas, volta para perto do caixa e limpa o rosto com as costas de uma das mãos. Em breve para de chorar, volta a sorrir, mas de forma mais tímida. É simpática. Feiosa e simpática.
Peço a conta, ela traz,  vou ao caixa tratar do pagamento da despesa. Saio e, na calçada, me dirijo novamente a ela.
- Faz o seguinte, menina. Vai embora. Vai ficar do lado dos teus pais. Aproveita enquanto ainda estão vivos.  Volta pra tua casa, pra tua gente, pro teu povo. Não fica aqui, não. Fica do lado deles. Ninguém merece ficar separado de quem gosta, principalmente de pai e de mãe. Dá esse presente pra eles, e pra você também. Se um dia você quiser voltar para cá, para esta cidade, você volta. Mas agora, não. Agora você tem que voltar para o lado do teu pai e da tua mãe.
Ela sorriu de novo e voltou a armazenar água no canto dos olhos. Balbuciou:
- Eles aqui chamam a gente de baiano. A gente não é baiano. Não temos nada contra baiano, não, mas a gente não é baiano. E eles falam de um jeito com a gente, moço... 
Nunca mais perguntei por Damiana. E cada vez que entro na pastelaria me sinto reconfortado ao ver que ela não está mais ali.



JOGO DE BOTÃO: UMA REFLEXÃO SOBRE O TEMPO



Benilson Toniolo 

- Moço, me veja cinquenta centavos de celulóide, por favor.
O balconista depositava sobre o balcão de vidro uma caixa repleta de vidrinhos de relógio de pulso, pra gente escolher. Cinquenta centavos dava uns cinco ou seis celulóides, ou seja, metade de um time. Na semana que vem, teríamos que garimpar mais uma moeda com a mãe pra comprar o que faltava pra montar a equipe –moeda que a mãe ganhava passando roupa semanalmente na casa das patroas.
Recolhidos os dez celulóides, era hora de montar o time. Na página de Esportes da ‘Tribuna’, vinham as imagens em preto e branco dos jogadores em ação. Fotos de jogos, de treinos, de entrevistas. A operação era complexa: pegava-se outra moeda e botava-se em volta do rosto do atleta. Com uma lâmina, dava-se a volta com a moeda bem presa na foto, e tínhamos o jogador pronto pra colar no celulóide. Os melhores –Serginho Chulapa, Paulo Isidoro, Pita, Sócrates, Zico, Nunes e Dinamite, entre outros eleitos, iam parar nos maiores celulóides. Zagueiro também tinha que ser grande: Márcio Rossini, Oscar e Toninho Carlos. Os laterais e pontas –pela ordem, Toninho, Gilberto Sorriso, Zé Sérgio e Serginho Dourado, que também atendia pela alcunha de Serginho Segundo, pelo fato de Chulapa ser não somente o Primeiro, mas também o único - em geral deveriam ser menores, porque levavam a bola pelas pontas e tinham que, muitas vezes, passar em meio aos marcadores sem cometer falta.  Exceção eram Éder e Nelinho que, pela força do chute, deveriam ser grandes. Mas estes apoiavam pouco, permanecendo mais recuados, reforçando a marcação e prontos pra bater falta, cada um do seu lado.
Colar os rostos dos jogadores do lado de dentro dos celulóides exigia uma habilidade, muitas vezes, superior à necessária para o domínio de bola. Fabricávamos a cola com farinha de trigo, porque a cola comprada na papelaria no começo do ano letivo deveria durar até o fim das aulas, devendo, portanto, ser economizada para dar conta dos trabalhos escolares. Com muito cuidado pra não borrar a cara do jogador, depositavam-se pequenas quantidades da cola caseira nas bordas da foto.
O jornal vinha embrulhando as compras da feira ou do açougue. Quando o comerciante ia embrulhar as compras, a gente esticava o pescoço pra ver se o jornal era da página de Esportes. Se fosse, era uma danação. Mal esperávamos a mãe dispensar o jornal. Ainda na cozinha, passávamos à análise das fotos –o perfil dos jogadores, os repetidos. O problema era quando o suco da carne vazava e estragava a foto. Nestes casos, deixava-se a foto secar, para depois colarmos o jogador com cheiro de carne ou de peixe. Frango se comprava em avícola. Não, ninguém ligava de jogar botão com jogador cheirando mal. Bola pra frente. Vai fedido mesmo. O que vale é bola na rede.
A Placar, que era –e ainda é- a única revista de futebol no Brasil, era cara demais. Não dava.
Gostoso mesmo era fazer o goleiro. Uma caixa de fósforos vazia cheia de areia dentro, reforçada com fita isolante ou esparadrapo. Na frente da caixa, a foto do kíper. Rodolfo Rodríguez, Leão, Valdir Peres, Raul, Carlos, Neneca, Jairo, Marolla. Dificilmente o goleiro sorria. Goleiro bom tem que ter cara de brabo. Braços cruzados, cenho franzido, luvas gigantes. Mazaroppi, Benítez, João Leite, Fillol.
A bola era um pequeno disco de diversas dimensões. Na falta dela, valia botão de camisa, comprimido e dadinho. Gol de Coristina chegava a derrubar a trave. AAS era ruim, porque ia desmanchando ao longo do jogo.
A batedeira deveria ser usada, preferencialmente, na vertical. Tinha que ser rígida, robusta, inflexível. Com ela se controlava direção, velocidade e força. Praticamente um mestrado em Física colocado em ação na luta pela posse de bola.
Havia os inimigos terríveis. Os amigos vinham pro jogo com artilharia pesada: Baroninho, Baltazar, Carlos Alberto Seixas, Ataliba, Casagrande. Perder do Corinthians era a morte. Crise na certa. Uma semana sem mexer na caixa onde guardávamos os times. Até que, certo dia, voltando da escola, olhava a caixa debaixo do sofá, de soslaio.  Vamos treinar, minha gente, que vai ter revanche e, se Deus quiser, neguinha –que era como chamávamos o terceiro jogo, provocado quando cada time ganhava uma partida e a série estava empatada.
Juntando-se os primos, era campeonato na certa. Antes e depois do almoço, no insubstituível campo da mesa da cozinha. Os adultos iam conversar na sala. Cozinha era lugar de futebol, ora bolas. A tarde toda.
Os jogos eram narrados por nós mesmos, os jogadores, com a vibração dos grandes narradores. Osmar Santos, Luciano do Valle, Peirão de Castro, Eduardo Baraçal. Sabíamos, e repetíamos ao longo da transmissão, as vinhetas das rádios todas: Globo, Guarujá, Atlântica, Rádio Clube de Santos, Cultura.  Ruídos do fundo da garganta pra imitar o barulho das torcidas. Jogos de dez gols, de seis, de três. Quem fizer, ganha. As mães tinham sossego para cuidar da casa, da roupa, da janta. Vinha a noitinha, e nós lá, ajoelhados na varanda, jogando futebol de botão. Nossa vida era essa: estudar, comer, dormir, jogar botão.
Um dos tios ensinava as técnicas: bater de esguelha, de caiafa, ou como chamávamos, “de-révis’. Bola no ângulo, rasteira, no canto, entre os zagueiros. Não vale gol de antes do meio-de-campo. Par ou ímpar pra ver quem dá a saída. Anota o número do jogador que fez o gol. Artilharia registrada na última folha do caderno escolar. Quebrou, não tem reserva. Joga com um a menos. Esse gol do Sócrates parece que foi ele mesmo quem fez. Gol do Biro-Biro não deveria valer. Acabou o campeonato? Guarda a tabela. Dois-ou-um.
Se éramos crianças mais felizes que as de hoje? Sinceramente, não creio. Certamente os meninos de hoje também o são, e pode até ser que, no futuro, alguns deles acabem escrevendo sobre as emoções que seus jogos eletrônicos lhes proporcionaram.
Mas é que, junto com as memórias do jogo-de-botão, o que nos prende mesmo é a saudade. A saudade do tio, da tia, da chuva depois do almoço, dos primos. Os sonhos com goiabada, o cheiro de café, o ovo cozido comido ainda na casca quente, o bolo de laranja com açúcar em cima, os adultos fumando e conversando na sala.
E é por isso também que me emocionei tanto, dia desses, ao receber o convite inesperado do meu priminho Caio que, caixinha na mão, em meio a uma recente festa de aniversário, me perguntou: ‘vamos jogar botão?’. Jogamos, sim. Três partidas, e perdi as três. Tinha torcida, inclusive. Juntou gente em volta para ver que, na família, jogo de botão é tradição que não morre. Além do mais, o Caio é craque, e anda treinando, o danado, em casa, com os pais.

E também é por isso que, agora, retiro da caixa os jogos de botão dos meus filhos e os distribuo sobre a mesa da sala de jantar para mais uma partida. Para poder ouvir e sentir de novo os sons e os cheiros da infância, que me ocorrem a cada vez que o disco achatado e preto supera os jogadores adversários, e à meia altura, entra no canto direito do gol do meu adversário –que hoje é um só, e chama-se Tempo. E neste jogo, apesar dos gols marcados, sinto que vou acabar perdendo...

domingo, 12 de janeiro de 2014

AS CABEÇAS DE SÃO LUIS, AS CABEÇAS DE BRASÍLIA



Benilson Toniolo

Não assisti às imagens do vídeo veiculado pela Folha dos detentos do presídio de Pedrinhas, no Maranhão, mostrando as três cabeças recém decapitadas de outros presos. Não tive coragem . Nem precisava: no dia seguinte, o jornal apresentava em sua primeira página a foto das cabeças separadas dos corpos. Foi terrível, mas não foi inédito. Lembro-me do fato narrado por um amigo envolvido com Literatura aqui no Vale do Paraíba, que é agente penitenciário em Tremembé, e que me narrou um fato semelhante havido recentemente na unidade prisional onde trabalha. Durante a visita de uma juíza ao local, a cabeça de um detento foi atirada na direção da visitante enquanto ela transitava por um dos corredores, na companhia dos responsáveis pela penitenciária.
Na continuidade dos protestos dos presos de Pedrinhas, ônibus foram incendiados por ordens de facções existentes dentro do próprio presídio, o que culminou na  morte da menina Ana Clara, de seis anos, queimada viva por não ter conseguido descer do ônibus antes de os criminosos atearem fogo ao coletivo.
Depois disso, a imprensa noticiou que o governo do Estado do Maranhão iniciou um processo de licitação para compra de toneladas de itens alimentícios como camarões, lagostas, uísque escocês e champagne, para abastecimento das casas da governadora Roseana Sarney. O custo aproximado da licitação é de cerca de um milhão de reais.
A governadora Roseana veio a público declarar que a explosão da violência no Estado se deve ao fato de que a população está menos pobre, o que, segundo seu raciocínio, aumenta a criminalidade, que por sua vez é um problema nacional. Já a decapitação é fruto do complicado sistema prisional brasileiro, que requer reforma imediata. Ou seja, ela, enquanto máxima mandatária do Estado, nada pode fazer, por se tratar de um problema nacional –de competência, portanto, do Governo Federal –que até o momento não se manifestou, ao contrário do resto do mundo, incrédulo com tamanha violência, crueldade e inércia do governo.
O Governo do Estado do Maranhão recebeu um número incontável de páginas, ao longo dos últimos quatro anos, como resultado de visitas feitas ao presídio por instituições de Direitos Humanos, alertando para as condições subumanas da unidade de Pedrinhas. Uma reunião chegou a ser realizada com a Governadora para tratar do assunto, e a resposta foi que haveria ‘um aporte financeiro substancial que permitiria ao governo recuperar esta e outras unidades em todo o Estado’. Nada aconteceu, até que as mortes, que já chegam a 62 desde o ano passado, passassem a ser noticiadas, bem como o estupro coletivo das companheiras dos detentos que participam das chamadas ‘visitas íntimas’, que acabaram suprimidas pelo excesso de violência.
Seria um caso clássico de intervenção federal, não fosse o fato de o PT contar com o apoio decisivo do PMDB –partido de Roseana- para conseguir a reeleição no pleito de outubro e manter o partido no governo pelo quarto mandato consecutivo. Intervir no Maranhão agora seria perder o apoio do clã Sarney num momento tão importante para dar andamento ao projeto de eternização do Partido dos Trabalhadores no comando do País. A cada ano que passa, o partido e suas estruturas corruptas, lascivas e perniciosas vão se enraizando nos subterrâneos do poder, tornando partido e governo uma coisa só e não distinguindo mais o que é uma coisa e o que é outra. Não só não aprenderam nada com o Mensalão, como continuam agindo diante de uma sociedade indiferente e ignorante, incapaz de reagir com dignidade e já acostumada a mostrar suas entranhas purulentas aos olhos do mundo.

                                                               ***

Adriano Laurentino de Araújo é servidor público do Senado e atua no serviço de publicações da Casa. Ganha 17 mil por mês e afastou-se do serviço por 90 dias para fazer um curso para aprender a navegar na internet e consultar planilhas.
Denise Dal Molin Izaguirre é servidora pública da gráfica do Senado, ganha R$ 16,5 mil por mês  e ficou afastada do serviço por 6 meses para fazer um curso de informática.
Joao Batista de Miranda Torres também trabalha no Senado. Ganha R$ 18 mil mensais e ficou três meses afastado do serviço para fazer dois cursos, um sobre ‘bullying’ e outro sobre a reforma ortográfica.
Já Márcia Vieira Pacheco ganha R$ 19 mil por mês como revisora taquigráfica e ficou 58 dias afastada do serviço para fazer um curso sobre filosofia e existência.
Durante os afastamentos, os salários dos servidores foram pagos integralmente. Até porque o Senado, que não é a casa da mãe-joana, não paga os cursos. Pensa que a vida de funcionário do Senado é moleza?
A servidora responsável pela concessão das licenças chama-se Elga Mara Teixeira Lopes, que atualmente exerce o cargo de diretoria-executiva do ILB – Instituto Legislativo Brasileiro. Ela chegou a dirigir a Secretaria de Comunicação do Senado, nomeada pelo senador José Sarney, e foi demitida em 2009, após ter sido denunciada por trabalhar em campanhas eleitorais para a família Sarney e para o PT sem pedir afastamento do cargo.
No mesmo dia de sua demissão, foi nomeada como assessora especial de Sarney, sendo depois indicada para presidir o ILB.
Quem quiser conferir, basta dar uma olhadinha no caderno ‘Poder” da Folha de hoje. Se tem mentira nessa história, não é culpa minha.

                                                                         ***


São Luís do Maranhão e Brasília: duas capitais a escancarar as entranhas de um gigante que, depois de junho, voltou a dormir profunda e silenciosamente.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

COQUINHO, O ARTILHEIRO DA PRAIA

Benilson Toniolo

                                                       

A bola vinha da direita. Escanteio. O Digo ia bater, e ele só sabia bater por cima. Às vezes ele ia enfileirando os caras pela ponta, e na hora de cruzar o Coquinho se posicionava no meio da área e pedia a bola à meia-altura, que era a bola que atrapalhava a defesa. Cruza baixo, Digo, caralho. E lá vinha a bola pelo alto. Coquinho não era bom de cabeça. Se atrapalhava, perdia o tempo da bola, subia antes, descia antes, e quando estava descendo é que a bola estava chegando lá em cima. Coquinho não alcançava. Cruza baixo, Digo. Muita gente na área, que era o risco que a molecada fazia com um pedaço de pau qualquer, na areia da praia, imitando um campo de verdade. Coquinho foi chegando depois dos demais pra confundir a marcação, sabia que o Digo demorava pra bater. Se chegasse antes, o zagueiro colava nele, ficava difícil encontrar espaço, até a bola vir tinha que ficar brigando por espaço. Nos escanteios, sempre chegava depois. Com o tempo, parou de subir pra disputar o cabeceio. Sabia que perderia. Tinha dezoito anos e contava só um gol de cabeça na vida, ainda sim em gol caixote, na pelada do meio da rua. Depois aquilo foi aborrecendo. Não ganhava uma por cima, os companheiros de time reclamavam. Sobe direito, Coquinho. Coquinho subia, e não ganhava uma. Subia de novo, e nada. Não achava o tempo da bola. Tinha tentado treinar as cabeçadas no quintal de casa, mandava o irmão mais novo jogar a bola bem alta na direção dele, pra ele subir e meter a testa. Às vezes o menino mandava alta demais, ou baixa demais, ele reclamava. Joga essa bola direito, moleque, na altura da minha testa. O menino jogava na altura do nariz, do queixo, do pescoço, mas não chegava na testa. O menino não tinha força. Então ia para a parede, quem errava era ele. Jogava a bola na parede para tentar cabecear na volta. Não dava. Alta demais, baixa demais. Tinha que resolver aquilo. Não existe jogador profissional que não saiba cabecear. Ainda mais centroavante. Tu quer ser centroavante que nem o Chulapa, que nem o Juari? Então vai ter que apreender a usar a cabeça. Foi desistindo. Optou por uma saída tática: nos jogos, fingia que ia pular, o marcador ia, cortava o cruzamento e ele ficava. Não deu certo. Já tinha falado pro Digo, que cruzava da direita, e pro Peu, que cruzava da esquerda: cruza baixo. Pode deixar. Pode deixar, uma ova. Lá vinha aquela lua na direção dele. Subir, até que subia. Nunca pegava nada. Bom, uma vez acertou a bola, que veio com muito efeito, bateu na parte de cima da cabeça (no cucuruto) e saiu bisonhamente por cima do gol. Foi feio, a molecada riu. Voltava pra buscar jogo, se deslocava, tentava entrar tabelando com o pessoal que vinha de trás, batia bem de pé direito. O esquerdo era praticamente uma nulidade, mas o direito compensava. Habilidoso, prendia bem a bola, segurava lá na frente, tinha velocidade. Era só não jogar por cima que estava tudo certo. E lá vinha o escanteio. Ficou atrás do último zagueiro, um pouco antes da marca do pênalti, entre a marca do pênalti e a linha que delimitava a grande área. Finzinho de jogo, três a três, todo mundo já meio com a língua de fora, e ele passando em branco. Já não tinha marcado no jogo da semana passada. Centroavante que não faz gol está pedindo pra deixar o time. O Digo demorando pra bater, e Coquinho ali, um migué danado, dando de morto pra comer o coveiro. O Digo correu, pela troca de pés ia bater com o direito, que esquerdo ele também não tinha. Aliás, na praia quase ninguém era canhoto. Era outra coisa que tinha que aperfeiçoar no futuro, a habilidade com o pé esquerdo. Ela veio alta demais, o goleiro saiu, não alcançou. Ia sobrar para ele, o centroavante. O zagueiro adversário se deslocou de costas em sua direção, e com a mão direita o Coquinho o tirou do lance com um empurrão leve. Se alguém pediu falta, ele não ouviu. Bora. A bola caiu no pé esquerdo, ele dominou e trouxe pro direito. Tudo muito rápido. O zagueiro da cobertura veio, ele puxou pro pé esquerdo e tirou o cara. Veio o seguinte, a mesma coisa: tocou pro esquerdo, veio em velocidade, trouxe pro direito e o cara ficou. O terceiro veio no carrinho, ele tirou do mesmíssimo jeito com que tinha driblado os dois primeiros. Fez tudo isso olhando para o chão, para os pés que trocavam a bola de lugar a cada drible. Sim, tudo muito rápido. Quando olhou adiante estava na frente do gol, teve a impressão que o goleiro sairia para abafar, mas ele ficou. Ainda ouviu a voz do Guto, que era meia e raramente aparecia pra concluir: “toca!”. Tinha duas opções pra finalizar: alto, pra tentar encobrir o goleiro de boa estatura, ou de três dedos, rasteiro, no canto oposto, com o risco de algum zagueiro aparecer para tirar de carrinho. Pensou nos três adversários que tinha acabado de deixar para trás (quatro, se contar o do empurrão) e bateu de chapa, com a categoria habitual, no contrapé. Caixa. Gol. Golaço. Golaço, caralho. Saiu comemorando pelo mesmo lado da finalização, correndo de braços abertos e sem camisa sobre a areia escura da praia, a sombra dos refletores sobre a areia denunciando que estava fora de forma, braços abertos sob o céu, riso na cara, os companheiros de time correndo atrás, que golaço, que gol lindo, deixou o time deles no chão, puta golaço, Coquinho. Se foderam, seus trouxas. Para ele, era o desafogo. Craque é isso aí. Pode passar o jogo inteiro sem produzir, mas chega na hora de decidir não tem pra ninguém. Gol do Santos. A Vila Belmiro explode com um golaço de Coquinho, o menino que saiu da Bacia do Macuco pra fazer história com a gloriosa camisa alvinegra. Que cabeça, o quê. Era bom com seu pé direito. Quando caía no pé bom, ninguém pegava. Pode botar Carlos, Paulo Sérgio, Cantarelli, Valdir Peres, Leão, pode botar quem for. Na sua cabeça vinha a voz do Osmar Santos: “é fogo no boné do guarda, e que gooooooooooooooooollll!”. Quatro a três, acabou o jogo. Desmontar as traves pra guardar na guarita do zelador do prédio, pegar a roupa atrás do gol, guardar a bola, ajudar os caras a desmontar o campo. Já já são dez da noite, vão apagar as luzes da praia. Não foi tomar cerveja com os colegas de time nos bares do Canal 4, que o dinheiro que tinha no bolso só dava para pegar o trólebus. Dia seguinte era quarta-feira, dia de ver se tinha algum bico pra fazer e arrumar um troco, que aquela vida era dura, principalmente depois que o pai saiu embarcado e não voltou mais, depois de quase dez anos. Vai trabalhar, moleque, diria a mãe na manhã seguinte. Não quero saber de vagabundo dentro de casa. E o Coquinho ia, sem experiência de trabalho, ajudar na feira da Glicério, ajudar a carregar carrinhos e sacolas no mercado, que era o que lhe cabia. Carregamento de frutas, de verduras e de legumes na mercearia do japonês. Dava um troco por dia, se chegasse cedo. Até chegar o dia em que abriria vaga pra fazer teste no Santos. Peneira. Aí eles iam conhecê-lo, já no primeiro teste. Primeiro, tinha que treinar muito o cabeceio. E o pé esquerdo, que pelo jeito ia dar menos trabalho. Coquinho, o menino da Bacia do Macuco que ia fazer história na Vila. O que uma noite tinha deixado três (três não, quatro) zagueiros no chão antes de, com categoria, dar a vitória ao seu time de praia. Que, no fundo, ele sabia que se chamava Santos Futebol Clube.

domingo, 29 de dezembro de 2013

DOUTOR RAY-LLANDER, PROFESSOR DE TOLERÂNCIA


Benilson Toniolo

Tenho um ‘amigo’ na rede social chamado Ray-Llander Fagundes. Não é erro de digitação, não, o nome dele é esse mesmo. Ray-Llander. Deve ser uma variação daquele personagem de cinema que não morria nunca. Aliás, Ray-Llander, talvez influenciado pelo nome que escolheram para ele, também deve achar que é imortal. Pela sua forma de agir, aliás, imagino que pense assim. Ninguém vem ao mundo com um nome desses impunemente, ora bolas.
Ray-Llander posta na internet muitas fotos de si mesmo, e sempre fotos em que ele aparece sozinho, nunca olhando para a câmera, tendo por fundo uma paisagem do exterior. Pirâmides do Egito, canais de Veneza, Louvre, Capitólio, safáris na África, palácios russos, Taj-Mahal, cais de Cuba, o diabo. Ray-Llander está em todas, e em todos os lugares. Quando a gente menos espera, ei-lo na tela à frente. Deve ser médico, porque em algumas fotos (as que tira em solo tupiniquim) aparece de jaleco branco e estetoscópio. Ray, ou Llander, é um sujeito importante. Viaja muito. Deve ter mais milhas obtidas em viagens internacionais nos seus inúmeros cartões de crédito do que eu, de vôos domésticos.
Diz ser escritor. E assume esta condição com a mesma convicção com que eu evito dar a mim mesmo este título. Ser escritor é coisa séria. É quase como um sacerdócio. Subir em um altar com a Bíblia nas mãos para tentar decifrar à turba o que é que Deus quis dizer com isto ou aquilo é tarefa para pouquíssimos –ou para loucos. Dizer-se escritor é quase a mesma coisa. Dizer-se escritor significa assumir que esta é a sua profissão, e que erros de gramática, por exemplo, comum a todos os mortais, não lhe ocorrem jamais. Coisa para loucos. Ray-Llander não. Ele não erra nunca.
Algumas de suas postagens me incomodam. Recentemente, ele disse que não há nada mais desprezível que um escritor que paga para publicar seus livros. Como se trata do meu caso –e de, certamente, 95% dos casos de quem escreve livros no Brasil, achei que era o caso de responder à postagem informando-o da injustiça, da indelicadeza, que estava cometendo. Nesse dia, quase pedi a ele que me devolvesse o livro que um dia lhe enviei pelos Correios, e que ele nunca acusou recebimento. Mas fiquei quieto, por achar que não valia a pena ‘comprar uma briga cibernética’ que certamente traria a mim, pobre mortal, mais prejuízos que a ele, que está acima de todas as coisas.
Engoli mais este batráquio que veio do Nordeste, onde vive Llander, o escritor que não precisa pagar para publicar seus livros.
Outra postagem que me chamou a atenção é a que ele qualifica José Dirceu e sua quadrilha como ‘heróis do povo brasileiro’. Perguntei-lhe por qual motivo dedicava tamanha admiração e subserviência a políticos que foram acusados, investigados, julgados e presos por formação de quadrilha, evasão de divisas, improbidade administrativa e outros crimes contra a Nação. Ele respondeu, entre outras coisas, que tratam-se de pessoas que trazem em sua história de vida o fato de terem integrado as guerrilhas que lutaram contra a ditadura militar, tendo sido inclusive torturadas e exiladas pelo regime. Perguntei se este histórico dava a elas o direito de surrupiar dinheiro público para comprar apoio de parlamentares ao governo Lula, e ele respondeu que eu, como membro de uma elite branca e paulista que busca anular os avanços conquistados pelo governo PT, sou mais um influenciado pela mídia fascista e de direita, revoltada com o fim dos nefastos privilégios imposto pelo presidente Lula, que acabou por alçar o Brasil ao posto de potência indiscutível e irremediável no cenário mundial. Tá, mas e o mensalão? ‘Nunca existiu’, disse ele.
Nos últimos dias, atingiu o ápice. Escreveu lá em sua página pessoal que o ódio que as elites têm de Lula é maior do que o ódio dos alemães aos judeus. Não dá pra comentar. Nem pra levar a sério.
Ray-Llander é danado. Traduz para o inglês os próprios livros, execra todo aquele que é contra seu credo (principalmente o político) e ultimamente tem postado fotos recebendo cumprimentos em clubes literários. Está sempre muito bem acompanhado nas fotografias. Mas continua olhando de lado, sem encarar a câmera. Faz de conta que receber cumprimentos, posar para fotos no exterior faz parte do seu cotidiano. E deve fazer, mesmo.
No fundo, o mais provável seria pensar que o Doutor Ray-Llander não passa de um factóide, um personagem que alguém tenha criado para atazanar a vida dos outros que, como eu, prestam atenção no que as pessoas têm a dizer. Com um nome desses, e com posicionamentos deste teor... mas não. Ele existe, pensa, trabalha e se posiciona. E adora aparecer em fotografias.
Estive a ponto, mais de uma vez, de excluí-lo de minha rede de contatos. Seria a atitude mais fácil: bloqueio, deleto, elimino, excluo, e pronto, me vejo livre de suas postagens. Seria a saída mais confortável –e a mais covarde também.
Se por um lado ninguém é obrigado a conviver com quem não simpatiza, por outro não é de bom alvitre simplesmente fingir que não existe alguém que não comunga do mesmo pensamento que nós. Não foi isso que aprendi ao longo da vida. Não é isso que tento aprender e incorporar a cada dia. Não é esse tipo de pensamento e postura que pretendo deixar de exemplo aos meus filhos.
Portanto, não excluirei o Doutor Ray-Llander Fagundes de minha rede de contatos na internet. Estou ciente de que continuar com ele ainda vai me trazer muitos dissabores, caso ele continue agindo da forma que age. Mas vai me proporcionar também praticar com freqüência o exercício da tolerância, do respeito à opinião alheia, da convivência pacífica entre iguais que pensam diferente. E vai me permitir trocar boas porradas ideológicas, pelo menos virtualmente.
Por isso vou continuar acompanhando o que se passa pela cabeça deste meu ‘amigo’. No mínimo, ele me auxiliará a elaborar melhor os meus pontos-de-vista. E a entender que ninguém, muito menos eu, e muito menos ele, somos donos da verdade.
Às armas, 'companheiro'!

A IMORTALIDADE POR MERECIMENTO

Benilson Toniolo

Existem dois brasileiros, atualmente, a quem a imortalidade, se existisse, cairia muito bem: Ariano Suassuna e Manoel de Barros.
O primeiro, recém egresso de um infarto e de duas internações hospitalares que deixaram em polvorosa o meio cultural brasileiro, acaba de aceitar o convite do Governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para coordenar a elaboração do plano de políticas culturais e educacionais do seu programa de governo, pré-candidato que é à Presidência da República nas eleições do próximo ano. Além disso, anunciou que pretende sair às ruas em campanha pela candidatura do neto, João Suassuna (homônimo do pai de Ariano, assassinado em 1930 por forças políticas adversárias que também haviam acabado de matar João Pessoa, no Rio de Janeiro, por motivos até hoje mal explicados), a deputado federal. Suassuna, um verdadeiro guardião da cultura brasileira, tão logo recuperou minimamente a saúde, retomou suas aulas-espetáculo em todo o Brasil, multiplicando sua sabedoria e seus ensinamentos para ouvintes de todos os recantos e sotaques. Recentemente alguém definiu suas apresentações como ‘stand-up comedy’. Para quem conhece a obra do paraibano o mínimo que seja, sabe o quanto o ofenderia esta definição totalmente desprovida de bom-senso. Seria como chamar Bill Clinton de nordestino. Valter Hugo Mãe, dia desses, contou que fez uma visita a Ariano em sua casa, no Recife, durante sua participação na última Fliporto, e saiu de lá ‘em choque’, ao contar que Ariano, em determinado momento, olhou-o fixamente e vaticinou: ‘Eu não pretendo morrer’. A julgar pela retomada de sua vida pública, é bom que ninguém duvide que Ariano Suassuna seja capaz de derrotar Caetana, como intitula a morte.
Já o mato-grossense Manoel de Barros resistiu como poucos à morte de João, seu filho mais velho, ocorrida há cerca de sete anos num desastre aéreo. Recluso em sua fazenda no Pantanal, continua, do alto de seus quase cem anos de vida, a escrever, criar e a observar as ‘coisas e acontecimentos desimportantes’ do mundo, que recolhe e transforma em poesia –uma poesia inédita, forte, intensa, viva e identificada com aquilo que o Brasil tem de mais valoroso, que é o seu povo.
Justiça houvesse no mundo, Ariano e Manoel já teriam sido reconhecidos, no mínimo, com o Prêmio Nobel de Literatura. Caberia uma ação efetiva do Governo brasileiro na indicação de ambos para que fossem reconhecidos mundialmente por sua luta em prol da cultura deste País. Mas como estamos muito preocupados com campeonatos de futebol, muito provavelmente o máximo que os governantes dediquem aos dois seja um lacônico e protocolar anúncio de pêsames em suas exéquias.
Isso, somente quando estes dois guerreiros se derem por satisfeitos e resolverem dar trégua a Caetana. O que, pelo jeito e felizmente, para o bem da cultura e do povo brasileiro, ainda vai demorar muito para acontecer.

Manoel de Barros

Ariano Suassuna
                         

                                             




sábado, 21 de dezembro de 2013

AMÉM

                                                          Benilson Toniolo


A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo (José Saramago)

No fundo, sou mesmo praieiro. Praieiro de pé no chão: na lama, no asfalto escaldante, na areia da praia, no alto das pedras, na beirada da água, onde a arrebentação não alcança. Com o suor escorrendo o dia inteiro pelo corpo, a testa ensebada, a vista a perder de vista pela linha reta do horizonte mais adiante.
No fundo, sou litorâneo. O mar me fez poeta, com seus mistérios e vertigens. O balanço das barcas do estuário, as ostras enclausuradas, os peixes nos barcos, as redes esticadas ao longo do dorso oceânico.
No fundo, sou caiçara. Respeito Iemanjá e seus filhos que se atiram nas águas ainda de madrugadinha, quando só a lua vela por todos, do alto de sua morada no céu infinito.
Catei siris ao pôr-do-sol, joguei muita bola pelas ruas de terra e pelas faixas de areia escura, vi o afogado passar bem ao lado da catraia. Namorei nos bancos da praia, fotografei turistas, cismei no quebra-mar da Ponta das Galhetas, tive medo de morrer nas pedras do Guaiúba.
Emudeci diante da visão do Monte Serrat.
Chorei de tristeza e de alegria nas arquibancadas da Vila, o uniforme branco maculado pela derrota mais humilhante e canonizado na vitória mais consagradora.
Bebi cerveja nas Bocas, joguei  sinuca no Marapé, amanheci esperando os ônibus do Macuco.
No fundo, é de lá que eu sou.
Das quebradas do Itapema, da Vila Zilda, Jardim dos Pássaros. Jabaquara. Aparecida, Boqueirão, Embaré, Encruzilhada.
Vô e vó no Saboó e pai na Areia Branca. Conheço. É de lá que eu sou.
Das lindezas das Astúrias, da praia de Pernambuco, das amizades da Santa Rosa, da Pouca Farinha.
Sou o gordo do coleginho, sou eu mesmo. O louco por bola, o que queria ser goleiro e era míope, o que sofreu quando os amigos partiram, sabe Deus para onde.
O que ficou devendo, o que não arrumava emprego, o que queria voar.
O que mentiu e acreditou, o que cantou árias pra lua, o que quis morrer e teve medo de tentar.
No fundo, sou isso mesmo.
E é para lá que eu volto, por estes dias que ainda restam do ano de dois mil e treze. Com mulher e filhos, a celebrar com a mãe e o irmão a festa do Natal.
Volto diferente, que muitos anos se passaram desde que vim para a montanha. Mas eu volto porque preciso. De descanso, de repouso, de silêncio, de estar com aqueles que amo. Há quem diga que o que é busco é o retorno ao útero materno. Pode ser, não desminto. Aquela história de segurança, de vínculo, etc. Pode ser. Chamem como quiser, o que eu quero é estar em casa.
No porta-malas levo livros para os amigos e a cabeça pronta para novas memórias.
Passado o Natal volto para a Montanha, que é o lugar que agora me cabe, e onde pretendo ficar.
Venham comigo, meus amigos, meus irmãos: a vida é apenas aquilo que somos, com todos os vícios e virtudes  de que somos feitos. O resto é péssima literatura.
Na época da celebração do nascimento de Cristo (que, afinal, é o dono da festa), é para minha mãe que volto. Mãe-terra, mãe-cidade, mãe-gente.

Que Deus nos abençoe.