domingo, 11 de novembro de 2012

O RACISMO EM GRACILIANO RAMOS




Graciliano Ramos é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Quem não sabe disso nunca leu Vidas Secas, ou Angústia, ou São Bernardo, ou Memórias do Cárcere, ou então lê, sim, mas lê muito pouco e o que não deve. Mas a maioria dos brasileiros que têm o hábito –ou o vício- da leitura certamente comunga desta afirmação.
Mestre da concisão, da objetividade, da clareza e declaradamente contrário ao uso da palavra “para enfeitar”, este alagoano de Quebrangulo foi Prefeito (em Palmeira dos Índios, no mesmo Estado) e notabilizou-se pelos relatórios de prestação de contas que enviava anualmente ao Governador, cuja qualidade literária fez com que um editor do Rio de Janeiro propusesse-lhe a publicação de seus livros. Exerceu inúmeros cargos públicos, foi preso e perseguido, falecendo no Rio de Janeiro, com 61 anos de idade.
Em suas obras, é comum a crítica ao sistema social e econômico estabelecido, que enriquece cada vez mais os poderosos (o Governo, os coronéis, os latifundiários) e condena à miséria, à fome e à morte os pobres sertanejos e seus filhos. Grande parte da obra de Graciliano (assim como, pode-se dizer, a de Lins do Rego, Jorge Amado, Paulo Dantas e tantos outros) trata dessa idiossincrasia e procura denunciar essas abissais injustiças. Mas não é só isso: é comum encontrar em sua obra, também, a busca do homem pela sua própria identidade, as angústias, o egoísmo, a fé, o amor, a relação com a natureza e as lutas diárias que moldam, transtornam e acabam por formar o próprio espírito humano, numa paisagem genuinamente brasileira. 
Mas eis que, ao reler sua coletânea de contos “Viventes das Alagoas”, de 1961, lamentavelmente constatei uma terrível faceta do notável escritor: o racismo. Isso mesmo. Graciliano, em determinado momento do texto, faz referência a uma minoria de forma irônica, sarcástica, faz troça de seu idioma e ainda a ofende com um epíteto que procura, descaradamente, atacar sua honra e colocar em dúvida sua integridade moral.
O texto em questão é o conto “Professores Improvisados” (página 138 da edição da Record), quando ele assim relata sua tentativa de se fazer passar por um professor de língua italiana para ganhar uns trocados: “Imaginando, sem grande esforço, que na Itália existia um língua, pedi catálogos e pus-me a estropiar o italiano. Isto deve ser fácil, pensei. É só arrumar no fim das palavras “one” ou “ine”. De estrangeiro cá na terra ninguém entende. E se aparecer por aí um carcamano, adoeço e perco a fala”.
Reparem na forma pejorativa e ofensiva como o ilustre alagoano se refere à cultura, às tradições, à língua e à índole dos italianos. Reparem na desfaçatez, na ironia já mencionada e descarada, no claro intento de ofender e humilhar uma raça em especial.
Agora imaginem o estado em que se encontrará um estudante ítalo-descendente, ao ser lido em sala de aula um texto como este. Seguramente dele caçoarão os colegas, e no intervalo das aulas encher-lhe-ão os ouvidos com centenas de “one”e “ine”, chamar-lhe-ão de “carcamano”, ofensa extensiva aos seus antecedentes e aos filhos que ele há de ter. E agredido por este bullying descabido o pobre cidadão ítalo-brasileiro, ainda púbere, prostrar-se-á de impotência e, corroído pelo sentimento de injustiça, renunciará à escola para o resto de sua vida, ganhando ainda uma incorrigível revolta contra a condição humana e, por tabela, uma vergonha danada de ser neto de italianos.
Portanto, se há ainda alguma réstia de dignidade na educação brasileira, é necessário que o Ministério retire imediatamente das estantes este acinte denominado “Viventes das Alagoas”, que vulgariza e diminuí a importância dos italianos na história do Brasil, além de gerar traumas incuráveis no coração e no espírito dos seus descendentes.
Quanto a mim, retirarei imediatamente da minha biblioteca todos os livros deste autor infame.

Observação: é claro que o texto acima é uma brincadeira. Mas que é bom para que a gente reflita sobre certas coisas que andam acontecendo por aí, isso é... Modestamente falando, naturalmente.

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