segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A FEIRA





Devem haver poucos lugares no mundo mais democráticos que a feira livre. Bom, tem a praia. Mas não é a mesma coisa. A praia tem a questão dos elementos naturais -o mar, a areia, as montanhas- e o apelo da pouca roupa, que num lugar como aquele é imperativo. Há também as preocupações estéticas, com o bronzeado, a silhueta, etc. Na praia, todo mundo se acha na obrigação de se divertir. Na feira, não. Está certo, cada coisa na sua hora.
Quando eu era menino, a feira do nosso bairro era às quintas-feiras. E como era gostoso chegar da escola na hora do almoço, abrir o forno e encontrar lá o pacotinho marrom, engorduradíssimo, contendo em seu interior o esperadíssimo pastel de carne -até hoje, o meu preferido. Devorava-o mesmo antes do almoço, como uma espécie de primo piatto que acabava sendo mais saboroso que o prato principal.
Era salutar evitar, na saída do colégio, a Rua da Feira, em função das infames guerras de tomates e de laranjas. No dia da feira, todos ficavam excitados, as salas de organizavam a tramar planos e estratégias para dar uma verdadeira "lavada" nas outras salas. Pobres dos que tinham que, obrigatoriamente, passar por aquela rua para retornar para casa. O jeito era, nesse dia, pedir à mães que fossem nos buscar. Porque mãe, ainda  mais a a mãe alheia, era coisa que muito se respeitava, naquela época. Hoje, não sei mais se é assim.
Na feira todos se encontram, se cumprimentam, conversam, pechincham, consultam, calculam, especulam. Pobres e ricos, negros, brancos e amarelos, católicos, protestantes e ateus, lulistas e tucanos, empregados e patrões, vegetarianos e carnívoros, cristãos e budistas, todos usufruem e compartilham o mesmo espaço, as mesmas barracas, os mesmos toldos, o mesmo cheiro do peixe fresco, a mesma tranquilidade. Se existe um espaço capaz de irmanar e neutralizar as diferenças, este espaço é justamente a feira livre. Preferencialmente num sábado jordanense, de céu azul e sol generoso, com amigos se reencontrando e se abraçando espontaneamente num ambiente de fraternidade e alegria.
Há quem diga que a feira é cara. Concordo. Tem feirante que abusa. Mas onde encontrar alimentos mais frescos, mais saborosos, mais tenros e puros do que lá? Sem a impessoalidade dos corredores refrigerados dos supermercados, a frieza das etiquetas a marcar o preço, a fila dos caixas, o estacionamento apertado, a severidade dos uniformes ou o sorriso forçado dos atendentes? Na feira tudo é mais amplo, mais natural e amigável.
E depois das compras feitas, nada melhor que saborear o pastel - ele, de novo- frito na hora, acompanhado de uma caçulinha. Tudo ali, em pé, à beira da barraca, jogando conversa fora com quem a gente não via há um tempão. Ou que a gente vê todo santo dia, mas que ali está numa outra situação, mais amistosa, mais gentil, mais... humana.
Se um dia os líderes de Israel e Palestina, por exemplo, ao invés de discutirem a paz em seus territórios em gabinetes acarpetados e diante de milhões de microfones e câmeras, se convidassem um ao outro para juntos comer um pastel e uma caçulinha, num sábado de manhã, no Pólo do Estacionamento,  a possibilidade de haver paz entre eles seria muito maior.
Foi na feira -ia esquecendo de contar- que um sujeito se aproximou de mim outro dia e disse que achava uma "sacanagem"  eu não ter sido eleito para a Câmara Municipal. Quando eu disse que não tinha me candidatado, e nunca tinha me ocorrido tal possibilidade, ele fez um ar de muxoxo, balançou a cabeça negativamente, me deu as costas e fez o quê? Pediu um pastel.
Reservemos, portanto, nossos sábados, a este verdadeiro exercício de cidadania que é a feira. E cujo nome composto traz em si aquilo que a maioria de nós procura durante toda a vida. Porque a feira, pelo menos ela, é livre.

Sem comentários:

Enviar um comentário