Devem haver poucos
lugares no mundo mais democráticos que a feira livre. Bom, tem a praia. Mas não
é a mesma coisa. A praia tem a questão dos elementos naturais -o mar, a areia,
as montanhas- e o apelo da pouca roupa, que num lugar como aquele é imperativo.
Há também as preocupações estéticas, com o bronzeado, a silhueta, etc. Na
praia, todo mundo se acha na obrigação de se divertir. Na feira, não. Está
certo, cada coisa na sua hora.
Quando eu era
menino, a feira do nosso bairro era às quintas-feiras. E como era gostoso
chegar da escola na hora do almoço, abrir o forno e encontrar lá o pacotinho
marrom, engorduradíssimo, contendo em seu interior o esperadíssimo pastel de
carne -até hoje, o meu preferido. Devorava-o mesmo antes do almoço, como uma
espécie de primo piatto que acabava sendo mais saboroso que o prato
principal.
Era salutar evitar, na
saída do colégio, a Rua da Feira, em função das infames guerras de tomates e de
laranjas. No dia da feira, todos ficavam excitados, as salas de organizavam a
tramar planos e estratégias para dar uma verdadeira "lavada" nas
outras salas. Pobres dos que tinham que, obrigatoriamente, passar por aquela rua
para retornar para casa. O jeito era, nesse dia, pedir à mães que fossem nos
buscar. Porque mãe, ainda mais a a mãe
alheia, era coisa que muito se respeitava, naquela época. Hoje, não sei mais se
é assim.
Na feira todos se
encontram, se cumprimentam, conversam, pechincham, consultam, calculam,
especulam. Pobres e ricos, negros, brancos e amarelos, católicos, protestantes
e ateus, lulistas e tucanos, empregados e patrões, vegetarianos e carnívoros,
cristãos e budistas, todos usufruem e compartilham o mesmo espaço, as mesmas
barracas, os mesmos toldos, o mesmo cheiro do peixe fresco, a mesma
tranquilidade. Se existe um espaço capaz de irmanar e neutralizar as
diferenças, este espaço é justamente a feira livre. Preferencialmente num
sábado jordanense, de céu azul e sol generoso, com amigos se reencontrando e se
abraçando espontaneamente num ambiente de fraternidade e alegria.
Há quem diga que a feira
é cara. Concordo. Tem feirante que abusa. Mas onde encontrar alimentos mais
frescos, mais saborosos, mais tenros e puros do que lá? Sem a impessoalidade
dos corredores refrigerados dos supermercados, a frieza das etiquetas a marcar
o preço, a fila dos caixas, o estacionamento apertado, a severidade dos
uniformes ou o sorriso forçado dos atendentes? Na feira tudo é mais amplo, mais
natural e amigável.
E depois das compras
feitas, nada melhor que saborear o pastel - ele, de novo- frito na hora,
acompanhado de uma caçulinha. Tudo ali, em pé, à beira da barraca, jogando
conversa fora com quem a gente não via há um tempão. Ou que a gente vê todo
santo dia, mas que ali está numa outra situação, mais amistosa, mais gentil,
mais... humana.
Se um dia os líderes de
Israel e Palestina, por exemplo, ao invés de discutirem a paz em seus
territórios em gabinetes acarpetados e diante de milhões de microfones e
câmeras, se convidassem um ao outro para juntos comer um pastel e uma
caçulinha, num sábado de manhã, no Pólo do Estacionamento, a possibilidade de haver paz entre eles seria
muito maior.
Foi na feira -ia
esquecendo de contar- que um sujeito se aproximou de mim outro dia e disse que
achava uma "sacanagem" eu não
ter sido eleito para a Câmara Municipal. Quando eu disse que não tinha me
candidatado, e nunca tinha me ocorrido tal possibilidade, ele fez um ar de
muxoxo, balançou a cabeça negativamente, me deu as costas e fez o quê? Pediu um
pastel.
Reservemos, portanto,
nossos sábados, a este verdadeiro exercício de cidadania que é a feira. E cujo
nome composto traz em si aquilo que a maioria de nós procura durante toda a
vida. Porque a feira, pelo menos ela, é livre.
Sem comentários:
Enviar um comentário