sexta-feira, 21 de setembro de 2012

LANÇAMENTO DO LIVRO "CASOS AO ACASO", 14/09/2012

                                                     Casos ao Acaso, publicado pela Literasas

Os acontecimentos que envolveram o lançamento do meu primeiro livro de Contos se constituíram em um verdadeiro festival de agradabilíssimas surpresas.
O apoio da Secretaria Municipal de Cultura, por exemplo, inserindo o lançamento durante a Exposição da Primavera, representado pelo Helinho, Secretário interino, amigo novo, parceiro novo, um homem que escancara portas que haviam sido abertas pela Flávia Guimarães, que sem nem sair do cargo já deixa uma saudade indizível.
A presença da Ericka Antunes, dona da Literasas, que saiu lá de Guaratinguetá para prestigiar o evento, sem avisar e me proporcionando um sorriso a mais no meu já imenso arsenal de alegrias.
A receptividade da obra, que em quatro dias me obrigou a pedir à Ericka nova remessa para dar conta dos pedidos.
E tantos amigos, tantos abraços, tantos cumprimentos...
Ao final da noite, só me ocorriam a lembrança de uma festa certamente imerecida e, lá longe, a melodia de Violeta Parra: 'gracias a la vida,m que me ha dado tanto...'

                                          Com Flávia Guimarães e o pequeno Hélio Augusto


                      Com Ericka Antunes, dona da Literasas, e seu marido Hans, direto de Guaratinguetá


                            Panorâmica do público presente ao lançamento do livro e à Exposição da Primavera


                                         Família que lança livro unida...


Abaixo, o texto que abre o livro:



A GALINHADA


Tudo começou porque a Laura, que não entrava na cozinha nem pra fritar ovo e não concebia o mundo sem uma cozinheira agregada às instituições familiares, resolveu preparar no almoço uma galinhada para a sogra, que em poucos dias chegaria de viagem. O Ednardo estranhou.
- Galinhada?
- Será que ela come?
- Bom, acho que come, não sei. Já vi mamãe comer frango de todo jeito, assado, frito, ensopado. Mas galinha?
- Pra mim é tudo a mesma coisa.
- Bom, isso sim. No mínimo, derivado. Mas não sei...
- Não sabe o quê?
- Essa, agora, de preparar galinhada pra mamãe. Você nunca foi disso...
- Fizeram uma outro dia, no escritório, e estava di-vi-na. Peguei a receita com a cozinheira e acho que consigo fazer. É tão simples, Ednardo!
- Não, quanto a você preparar a comida, tudo bem. A gente corre o risco. O que está estranho é você resolver fazer isso logo pra mamãe.
- Mas homem é tudo igual, mesmo. Uma hora você diz que sou antipática, não dou atenção pra sua mãe, não converso, não ligo pra ela. Quando eu resolvo dar uma inovada, acha estranho.
- Não, tudo bem, imagina. Estranho não é bem o termo. Diria... suspeito, talvez.
- Deixa disso, você me conhece. Sabe que sou assim mesmo.
- Certo, certo. Não, tudo bem. Assim mesmo.

                                                ***
- Galinhada? Sua mulher vai preparar uma galinhada pra mim?
- Pois é, mamãe. Não é ótimo?
- ...
- Mamãe?
- Não sei, não, Nardo. Acho estranho. Sua mulher nunca foi com a minha cara, e agora vem com essa história de galinhada...
- Mamãe, você precisa ver a animação da Laura em fazer esta, digamos, homenagem pra senhora.
- Homenagem o quê, Nardo. Ela tá é de sacanagem. Inventou essa história pra me provocar, lembra aquela vez em que disse que me achava uma perua?
- Ela não falou isso, mamãe...
- Falou, sim, e logo no Salão de Beleza que eu freqüento. Mas caiu do cavalo, né? Nunca que ela ia adivinhar que eu sou cliente VIP daquele lugar, né, meu filho, e que as meninas me contam tudo o que acontece lá.
- Mas isso faz tanto tempo, mamãe.
- Para uma mágoa como essa o tempo não passa, Nardo. Eu que sei.
- Bom, mamãe, mas então é isso que eu queria te falar. Está feliz?
- Estou feliz porque vou estar com você e com meu netinho, e não estou nem aí pra galinha nenhuma. Nenhuma, ouviu bem?
- Também acho que vai ser maravilhoso, mamãe. Não esquece de ligar quando estiver chegando.
- Nardo, espera, deixa eu te falar uma coisa.
- Fala, mamãe.
- A Laura deu pra antropofagia, agora?

                                                     ***
- Quanto eu compro de galinha, Nardo?
- Quê?
- A galinha, pra galinhada da sua mãe. Quanto eu compro?
- Depende do peso.
- Peso de quem? Da sua mãe ou da galinha?
- Pára, Laura, não começa.
- Brincadeira, ô, só pra te fazer tirar a cara de dentro dessa revista.
- Não faço a mínima idéia.
- Acho melhor perguntar pro cara do açougue, ou do supermercado.
- Laura, pelo que eu saiba, galinha se compra em avícola.
- Ednardo, em que mundo você vive, meu bem? Avícola? Avícola não existe mais, agora é tudo no Supermercado!
- Então vai no Supermercado, ué. E sei lá, compra dois quilos de galinha, talvez três, não sei.
- Com ou sem miúdos?
- Minha mãe gosta muito do coração de frango, compra com miúdos.
- Bom, neste caso é um miúdo só, porque galinha geralmente só tem um coração. Coração de galinha é igual a coração de frango?
- Deve ser, se são da mesma espécie, Laura. Vê aí, não sei quanto de galinha você vai comprar.
- Acho que vou telefonar e perguntar.
- Isso, querida, faça isso, ela vai adorar! 
- Não pra sua mãe, Ednardo. Vou ligar pra cozinheira lá do escritório!

                                                            ***
Um dia antes a mãe ligou dizendo que não poderia mais viajar, por conta de uma indisposição estomacal, e o médico havia recomendado, além do repouso, que ela não ingerisse frituras, sal em excesso e qualquer tipo de carne por tempo indeterminado. A Laura ainda tentou convencer o marido a viajarem até a casa da sogra e comer a galinhada lá mesmo, mas ele achou melhor não. Assim que desligou o telefone, o Ednardo foi até a geladeira, pegou uma cerveja e refestelou-se no sofá, sozinho, pra ver se descansava um pouco.



Livro: Casos ao Acaso
Gênero: Contos
Editora: Literasas
Páginas: 129
Prefácio: Isabel Furini
Preço: R$ 30,00


sexta-feira, 24 de agosto de 2012


MONTEIRO LOBATO E A EDUCAÇÃO
ENTREGA DO PRÊMIO MONTEIRO LOBATO DE REDAÇÃO
ACADEMIA DE LETRAS DE CAMPOS DO JORDÃO – 18/08/2012



Quando nos reunimos, ainda na gestão do dr Maynard Góes, para definir as ações de nossa Academia para o ano de 2012, e pensarmos o que seria feito junto aos estudantes jordanenses, nos ocorreu o fato de que neste ano seria comemorado os 130 anos de nascimento de um dos mais representativos nomes da vida brasileira -não só do Vale do Paraíba e não só da Literatura, mas um homem de absoluta relevância no que diz respeito ao mundo das Artes, da política, do empreendedorismo, do Direito e de tantos outros segmentos da sociedade deste País. Um homem cuja trajetória acaba por se enraizar na própria História do Brasil -pois não é possível falar do Brasil, da História do Brasil, sem falar de Monteiro Lobato. Então, depois da realização do Prêmio Iracema Abrantes de Poesia, que foi um grande sucesso, no ano passado, decidimos por elevar um pouquinho o grau de exigência junto aos nossos estudantes e lançamos o Prêmio Monteiro Lobato de Redação, ocasião em que homenageamos o grande taubateano que tão profundas relações manteve durante sua vida com Campos do Jordão, no ano de comemoração dos seus centro e trinta anos de nascimento, e damos continuidade a um dos principais compromissos para com nossa Cidade, que é a de estimular a pesquisa,  a criação,  desenvolver o gosto pelo estudo, o reconhecimento dos grandes nomes da cena brasileira, entender, através do estudo de sua vida, quais foram os caminhos que nos trouxeram até este momento. Concluo que fomos bem sucedidos, apesar da diferença brutal de participantes entre o ano passado, quando 165 alunos participaram, e este ano, quando apenas 44 acabaram tomando parte.
Mas o aparente baixo índice de adesões ao Concurso tem uma explicação. Quando, findo o prazo de inscrições, entramos em contato com as escolas para saber da quantidade de trabalhos concorrentes, ouvimos da maioria dos professores e diretores as desculpas mais absurdas, mais impensáveis, mais estarrecedoras. "Não me identifiquei com a proposta". "Estamos envolvidos em outro projeto". Ou a pior de todas elas: "Os alunos não tiveram interesse, não quiseram participar".  Eu, que mantenho uma coluna em um jornal da cidade que trata exatamente de Educação, ainda que não seja professor nem pedagogo, adicionei aos meus conhecimentos um novo conceito: grande parte da responsabilidade pela penúria em que se encontra nossa Educação é, sim, dos professores. Do Estado, claro. Dos pais, sem dúvida. Das propostas pedagógicas, que não conseguem acompanhar o desenvolvimento dos recursos que a sociedade atual disponibiliza aos nosso jovens. Mas, é triste concluir que grande parte da responsabilidade é dos professores. Porque um professor que com a maior desfaçatez responde para uma Academia de Letras que seus alunos não tomaram parte de um concurso sobre a vida e a obra de Monteiro Lobato porque ele, professor, "não se identificou com a proposta", ou "porque os alunos não quiseram", é sinal de que a Educação brasileira se encontra no fundo do poço.
Mas como diz o poeta Joca Renors Terron, "do fundo do poço também se vê a lua". E aqui estamos nós, reunidos neste novo espaço, para receber os alunos de cinco escolas, três públicas e duas particulares, para proceder a premiação do nosso concurso. Cinco escolas que serão homenageadas juntamente com seus alunos, que acreditaram na nossa proposta, estimularam e auxiliaram seus alunos para que fossem em busca de informações sobre nosso Lobato e tomassem parte no concurso. De forma que antes de falar um pouco sobre a vida e a obra de Lobato, eu queria pedir que todos aplaudíssemos as escolas Laurinda da Matta, Dora Lygia, Tancredo Neves, Irene Lopes Sodré e Univap, aqui representadas, por terem acreditado e prestigiado nossa iniciativa.
Para abrir a cerimônia de premiação do nosso certame, achei por bem escolher o tema "Educação" por três motivos, além do fascínio que este tema provoca em mim e pelo fato de que a grande maioria de nossos Acadêmicos ser oriunda do Magistério. O primeiro é que o nome de Monteiro Lobato esteve em grande evidência há cerca de dois anos atrás, quando o Ministério da Educação retirou das estantes o livro "Caçadas de Pedrinho", por entenderem os burocratas que o livro continha uma inequívoca declaração de preconceito racial em determinados momentos da narrativa, notadamente àquele em que o protagonista Pedrinho diz que a Tia Nastácia "sobe em árvores como uma macaca".  Esquecem os burocratas do Governo de duas questões: primeiro, que o personagem principal é uma criança que para se comunicar faz uso de um vocabulário próprio de sua idade, com toda a pureza e malícia que a caracterizam; segundo, que se formos nos dirigir com olhos persecutórios à obra dos grandes nomes da nossa literatura, seguramente encontraremos demonstrações dos mais diversos tipos de preconceito em suas obras. Seria como acusar Graciliano Ramos de maus tratos aos animais pelo fato de a cachorra Baleia morrer durante o desenrolar de Vidas Secas.
O segundo motivo é que a maioria de nosso público nesta tarde é formado por professores e estudantes, envolvidos diretamente com a Educação e que, indubitavelmente, poderão agregar um número muito maior de informações e observações que hão de enriquecer o tema.
E o terceiro é tentar não apenas saber quem foi Monteiro Lobato, mas principalmente tentar identificar através de sua vida e obra qual seu legado, qual sua contribuição para o momento que a Educação vive hoje no Brasil, uma vez que todos representamos, hoje, o futuro a que tanto se referiu o escritor.
José Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté em 18 de abril de 1892. Anos mais tarde, para poder usar uma bengala que pertencera a seu pai José Bento e onde constava a inscrição das iniciais JBML, muda seu nome para o mesmo do pai, passando a chamar então José Bento Monteiro Lobato.
Ainda  criança, variava seu tempo entre as brincadeiras com as irmãs Ester e Judite e a leitura dos livros que compunham a grande biblioteca do avô, o Visconde de Tremembé.
É alfabetizado por sua mãe, dona Olímpia Augusta, e aos sete anos entra para a Escola. Com quatorze anos, vai estudar em S. Paulo. Perde o pai aos quinze e a mãe aos dezesseis anos. Aos dezoito, por imposição do avô Visconde, entra na Faculdade de Direito, mas o que ele queria mesmo era estudar Belas-Artes. Durante toda a sua vida de estudante, manteve ativa participação na criação e colaboração com jornais e demais publicações que surgiam, primeiro no colégio, e depois na Faculdade. Forma-se em Direito em 1907 e é nomeado promotor na cidade de Areias. Em 1908, portanto com 26 anos, casa-se com Maria Pureza da Natividade, a dona Purezinha, com quem teve os filhos Edgar, Guilherme, Marta e Rute.
Guilherme e Edgar, com tuberculose, chegam a viver em Campos do Jordão, mas não sobrevivem. Guilherme faleceria em 1938, em S. Paulo, e Edgar em Tremembé, em 1943.
Mas antes disso, em 1911, a morte do seu avô faz com que herde a fazenda Buquira, deixando de exercer o Direito para se dedicar à atividade de fazendeiro. Contumaz colaborador dos jornais A Tribuna de Santos e O Estado de São Paulo, é nesta condição que passa a atacar ferozmente a figura do caipira paulista através de um artigo publicado, em que nominava o caipira paulista como Jeca-Tatu, atacando ferozmente a preguiça e a falta de esforço do caboclo, inconformado com o que vê em sua fazenda e nos arredores, e taxa o caipira como uma praga que impede o desenvolvimento do Brasil. Este artigo gera grande polêmica, lançando pela primeira vez o nome de Lobato aos mais altos níveis de discussão, com argumentos contrários e outros a favor. A imagem do Jeca resiste até hoje no imaginário e nos ditames populares.
Diz Lobato no livro Urupês, coletânea de contos publicada pela primeira vez em 1918: "No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisiaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive...". Neste momento, já distante da Fazenda e radicado em S. Paulo, como veremos adiante, Monteiro pede perdão ao Jeca, pois na época em que escreveu o artigo desconhecia que as características ruins do caboclo derivavam, na verdade, de graves doenças que o precário sistema de saúde brasileiro não conseguiam erradicar, e que dizimavam e inutilizavam a força dos pobres sertanejos.  
Diante das dificuldades e da intensidade das geadas características da região, em 1917 Lobato vende a fazenda que herdara do avô e transfere-se para S. Paulo, onde compra  a Editora "Revista do Brasil" e muda seu nome para "Monteiro Lobato e Cia", onde passa a publicar seus próprios livros, estreando com o já citado Urupês. Este é um momento histórico na cena brasileira, pois até ali todos os livros produzidos no Brasil eram impressos em Portugal. A Editora se transformaria depois na Companhia Editora Nacional. A partir de 1921 passa a se dedicar à literatura infantil, à qual se dedicará de forma mais enfática a partir de 1943.
Em 1930, em um momento conturbado da cena política brasileira, é escolhido pelo presidente de S. Paulo Júlio Prestes adido cultural em Nova Iorque, cargo do qual é destituído no ano seguinte. Ao voltar dos Estados Unidos, entusiasmado com o que viu e certo das potencialidades de seu país, passa a defender de forma contundente a exploração de ferro e petróleo em solo brasileiro. Esta luta o deixará pobre, doente e desgostoso, pois será perseguido, preso e fortemente criticado por suas declarações em contrário, quando defendia que somente a descoberta e exploração de riquezas no solo brasileiro fariam com que o povo tivesse um padrão de vida à altura de suas necessidades.
Já mortos os filhos Guilherme e Edgar, funda em 1943 a Editora Brasiliense, onde publica "A Menina do Narizinho Arrebitado", iniciando aí a grande saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo, obra que entraria para o rol de maior obra infantil da literatura brasileira, e uma das maiores do mundo. Com seus célebres personagens Pedrinho e Narizinho (que respeitam os mais velhos, são curiosos, inventivos, confiantes e estudioso), Dona Benta (que alguns refutam como o alter-ego do autor, apesar de a maioria entender tratar-se este de Emília), Tia Nastácia e Tio Barnabé (que representam a pureza, a sabedoria e a força de trabalho dos afro-brasileiros recém-saídos da escravidão), Visconde de Sabugosa (um leitor contumaz e uma ácida crítica aos que creem em tudo o que leem) e a inesquecível boneca Emília, que diz tudo o que pensa e que se vê no direito de modificar no mundo aquilo que, segundo ela, está errado ou fora do lugar.
Poderia dizer muito mais a respeito deste grande homem. Poderia dizer que rejeitou o convite da Academia Brasileira de Letras, dizendo que só aceitaria o convite quando pusessem fora de lá, a pontapés, o Presidente Getúlio Vargas, conhecido então como o "Pai dos Trabalhadores do Brasil". Poderia dizer que suas obras foram traduzidas para inúmeros idiomas. Poderia dizer que viveu em uma casa na rua Macedo Soares, aqui mesmo em Campos do Jordão, durante a enfermidade do filho Guilherme, e que no lugar deste imóvel hoje existem uma casa de móveis e uma loja de chocolates, e não há no local nenhuma referência ao seu ilustre morador. Que seu enterro no Cemitério da Consolação, em julho de 1948,  reuniu uma multidão poucas vezes vista em eventos desta natureza, sobretudo se levarmos em conta tratar-se do féretro de um escritor vítima de derrame cerebral. Que acolheu e apadrinhou o talento singular de um sergipano de nome Paulo Dantas, então tuberculoso, membro desta Academia de Letras, que por sua vez descobriu a poesia de Mauro Valle, que é considerado hoje um dos grandes poetas do cenário literário brasileiro, e autor -ele, Dantas-  de uma pérola literária inigualável, o romance " Purgatório", que se iguala em qualidade aos grandes romances regionalistas do Nordeste, digno de figurar ao lado de um José Lins do Rego, de um José Américo de Almeida, de uma Raquel de Queiroz, de um Graciliano Ramos.
De forma muito sucinta, pois que a vida e a obra de Lobato, como já disse, não podem ser abordadas integralmente em um tempo tão exíguo como este, esta foi a trajetória deste que foi, mais que um escritor, um raro espécime da raça humana, um brasileiro que deveria encher de orgulho e admiração todos aqueles que tiveram o privilégio de nascer neste chão  -digo deveria, porque infelizmente fora dos meios culturais e acadêmicos quase não se ouve falar em seu nome.
Mas minha proposta, ao adentrar a parte final de minha primeira participação nesta tarde, é falar sobre a importância que representa a obra de Monteiro Lobato para a Educação. Qual sua importância? Qual a contribuição? Qual o legado deixado por ele para as gerações futuras?
Edgard Cavalheiro, escritor e amigo, que entre coisas foi o criador do Prêmio Jabuti, relata em seu livro "Monteiro Lobato – Vida e Obra", de 1955, uma passagem que sintetiza sobremaneira a importância que Lobato dava às crianças: 'No fundo de uma cama, convalescendo de grave enfermidade, está um menino. Cansado, desanimado, infeliz. Batem à porta. É o carteiro. Trazem-lhe um envelope. Abre-o inquieto. Os olhos arregalam-se de espanto. Um sorriso aflora em seus lábios tristes. 'Mamãe, mamãe, veja, é de Monteiro Lobato, ele respondeu à minha carta...' E a mãe, comovida, envia uma outra carta ao escritor: 'Com os agradecimentos à carta que V. Exa. se dignou enviar ao meu filho Lindberg, dou-lhe a notícia de que a missiva veio concorrer enormemente para a sua cura. Diz ele que foi um dos dias mais felizes de sua vida. Muito obrigado'.
Um homem que dizia que gostaria de escrever livros "onde as crianças pudessem morar dentro deles", que perde dois filhos já moços, mas ainda na flor da idade, e que já quase sem esperanças nos homens passa a se dirigir às crianças através de seus livros e de cartas, por enxergar nelas "a humanidade do amanhã. Educá-las passa a ser, nas próximas décadas, assuntos fundamental e de intensa preocupação entre os homens", segundo suas próprias palavras.
Lobato via a construção do conhecimento como um processo de elaboração pessoal, ou seja, quando o aluno aprende um  conteúdo, um conceito, resolve problemas, adquire normas de comportamento e valores e é capaz de estabelecer relações entre o que aprende e o que conhece. Através do professor, a criança é capaz de construir significados através de sua experiência, dos conteúdos de aprendizagem e do professor. Segundo ele, havia duas correntes na educação que acabavam por "travar"  o sistema educacional. A primeira que considerava a criança como um homenzinho em miniatura e a tratava como tal, o que acabou por gerar uma série de livros didáticos de cunho moral que acabaram rejeitados pelos próprios alunos. A segunda, da qual Lobato era partidário, procurava tratar a criança como um ser humano com pouca ou quase nenhuma característica do adulto que viria  a ser, para quem seria necessária a aplicação de uma carga de conhecimento especialmente pensado para suas necessidades futuras.
Lobato revelou-se ainda um grande admirador do educador, jurista e escritor baiano Anísio Teixeira, um dos principais difusores do movimento Escola Nova, que defendia entre outras coisas a gratuidade do ensino público laico e a necessidade de implantação de experiências críticas em sala de aula. Ambos trocaram cartas e Lobato chegou a pedir a Anísio opiniões sobre o livro Emília no País da Gramática, que lançou em . Anísio entende esta obra como a abertura de uma nova metodologia genuinamente brasileira, abrindo as porteiras do conhecimento de uma forma lúdica, dialógica e encantadora.
A obra de Lobato passa a fazer parte do conteúdo didático brasileiro, com tiragens iniciais de 20.000 exemplares, e a troca de correspondência entre ele e as crianças se acentua. O escritor chega a aproveitar as sugestões e críticas de seus leitores para dar andamento a novos projetos e publicações. Monteiro Lobato passa a ser o porta-voz das crianças brasileiras. Exemplo de um artigo publicado em jornal da época: "Que vergonha! Uma escola da Prefeitura do Distrito Federal onde falta gabinete dentário. Vergonha das vergonhas. É uma Prefeitura amiga da Cárie! Querem vocês que eu contribua com livros. Pois não. Vou mandar uma caixa de fósforos para vocês porem fogo nessa escola da Prefeitura. Venham todos brincar no Sítio do Picapau Amarelo."
No livro "Emília no País da Gramática", Lobato tenta fazer com que as crianças aprendam a gramática da Língua Portuguesa através de histórias vividas pelos personagens do Sítio. Lobato desejava que as crianças entendessem de forma lúdica e prática os fenômenos da linguagem. Apesar da boa aceitação da obra, alguns educadores, como a poetisa Cecília Meireles, teceram críticas. Cecília escreveu em sua coluna no jornal Diário de Notícias, em 1943: "Os livros de Lobato são muito engraçados, divertidos, mas seus personagens são tudo o que há de malcriado e detestável no território da infância. Seus livros estão em desacordo com o moderno espírito da educação". Vale lembrar que Cecília fazia parte do grupo de Anísio Teixeira,  e que defendia abertamente que "os interesses da criança devem ser a fonte de inspiração das atividades escolares".
O que fez Lobato diante da crítica da consagrada poetisa e educadora? Desenvolveu um diálogo entre emília e Dona Benta:
- Emília, as professoras e os pedagogos vivem condenando esse seu modo de falar. Já por vezes tenho pedido a você que seja mais educada na linguagem.
- Dona Benta, a senhora me perdoe, mas quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Nasci torta, sou uma besteira da natureza -culpa dessa negra beiçuda que me fez. E, portanto, ou falo como quero ou calo-me. Isso de falar como as professoras mandam, que fique para Narizinho.
O papel de Emília é o de "libertar" a criança. Sua presença está centrada no diálogo, em que há o direito à voz, à livre expressão, à criação e à participação.
Fico imaginando o que se passaria na cabeça de Monteiro Lobato ao ver o Brasil de hoje, ao ver o pré-sal, as descobertas das jazidas de gás, o Brasil emprestando dinheiro aos países europeus para salvá-los da bancarrota, um presidente negro nos Estados Unidos, a abertura dos portos, o Brasil prestes a ser reconhecido pelo mundo como potência graças exclusivamente ao trabalho árduo e ininterrupto de sua gente.
Só não consigo imaginar o que Lobato diria, ou faria, ao ver o que sucedeu à Educação do País. O que diria Lobato de nossas crianças, e dos professores que lutam, com baixos salários, sofrendo agressões, ameaças, das escolas onde imperam o tráfico, o crime e o abandono? O que pensaria de Lobato ao ouvir de um educador dizer que seus alunos não participaram de um concurso de Redação porque ele, o professor, "não se envolveu com a proposta"? Nunca o nosso País, que Lobato tanto amou, precisou tanto de coragem, de disciplina, de criatividade, de empreendedorismo, de honradez, de civismo, de amor, de talento. Nunca, como hoje, o Brasil precisou tanto de um homem como Monteiro Lobato.


Benilson Toniolo      

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

PALESTRA SOBRE JORGE AMADO NA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE CAMPOS DO JORDÃO, 06/08/2012 (ABERTURA DA EXPOSIÇÃO SOBRE O CENTENÁRIO DO ESCRITOR BAIANO)



MINHA EXPERIÊNCIA COM JORGE AMADO: DA AVERSÃO À CONVERSÃO

Gostaria primeiramente de agradecer imensamente o convite feito pela Biblioteca Municipal, na pessoa do Professor Sérgio Asquenazi e também do nosso amigo Carlos Abreu, ambos grandes -e históricos- entusiastas da cultura jordanense, para estar aqui nesta noite e falar um pouqinho sobre este escritor baiano cuja vida e obra se confundem com a prória trajetória cultural brasileira. Vou tentar aqui fazer uma breve reflexão acerca do autor e de minha experiência pessoal, como leitor e escritor, sobre ele.
Segundo a máxima de Borges, o que o escritor lê é mais importante do que escreve, porque ele lê o que gosta mas só consegue escrever aquilo que consegue. Portanto, podemos entender que o escritor, assim como todo artista, é refém de suas próprias limitações. Por outro lado, Schopenhauer dizia que o homem que lê o dia todo, ou durante muitas horas, e nos intervalos da leitura investe seu tempo em ações e pensamentos ordinários, triviais, sem uma reflexão crítica sobre aquilo que foi lido, acaba por perder a capacidade de pensar por conta própria, passando então à condição retratada pelo próprio Schopenhauer de pessoas que ficaram estúpidas de tanto ler.
Digo isto porque a leitura de um autor como este que retratamos hoje requer, do leitor, mais do que a trivial concentração, um envolvimento, uma capacidade de alteridade que extrapola sua condição de mero leitor e faz com que este passe a interagir com a obra. Sem conseguir vislumbrar mentalmente o ambiente onde a trama se desenrola, sem que se consiga extrair da rica prosa amadiana os cheiros, sem que sinta o perfume das mulheres, o frescor da brisa marinha, sem que se tome partido nas incontáveis discussões e batalhas pela posse da terra, pela posse da mulher amada, pela posse do direito de se estar vivo, sem tomar parte da trama não somente como espectador, mas como um quase-personagem, é impossível sentir -a palavra certa é exatamente esta, sentir- a riqueza imensurável que emana do universo de Jorge Amado. A leitura de um livro de Jorge, mais do que dedicação, requer cumplicidade e diálogo -do contrário, se trata de perda de tempo e de energia. O universo proposto pelo autor em suas obras requerda perte do leitor que ele compartilhe com os personagens o choro, o gozo, a indignação, a dor, a esperança, o ressentimento. A experiência de leitura de um livrio de Jorge Amado, quer se deseje ou não, marca a vida do leitor.
Por isso a evocação que fiz no início. Não se trata de mera leitura, por distração ou entretenimento. Trata-se, antes, de descobrir -ou redescobrir, ou revisitar- um universo por enquanto inigualável de recursos imaginários por parte do autor, que consegue obrigar o leitor a tomar partido em relação à sua obra. Ou se ama, ou se detesta a obra de Jorge Amado. Uma vez havido o contato, é absolutamente impossível manter-se a neutralidade, o alheamento ou a indiferença com relação à sua obra -mesmo os livros da chamada "fase final" de sua carreira, como "A Descoberta da América pelos Turcos", escrita sob encomenda em 1992 para comemorar os 500 anos de descobrimento do continente e que revela um autor despojado de qualquer pudor linguístico ou comprometimento ideológico que sempre o caracterizaram, como também "Farda, Fardão, Camisola de Dormir", ficção que narra um momento de sucessão na Academia Brasileira de Letras.
Durante muito tempo, alimentei uma certa resistência com relação a Jorge Amado. Sempre ouvia falar dele como o escritor brasileiro mais admirado no mundo, tendo suas obras traduzidas para inúmeros idiomas, muito admirado na França, na Rússia, em Portugal... as adaptações feitas para a TV de alguns de seus livros, aquela coisa da Gabriela, da Dona Flor, eu acabava tendo a impressão que no fundo se tratava de um autor "encomendado", "protegido" pela Globo para a divulgação do produto brasileiro, eu via Jorge Amado e sua obra como uma criação da televisão para exportação, ou seja, no fundo me parecia que a obra de Jorge só tinha como fim ser produto de enriquecimento da Globo, que representava o poder, então por conseguinte Jorge Amado para mim era um subterfúgio encontrado pelo stablishment para tentar convencer o mundo de que yes, nós temos literatura.
Isso remonta ao tempo em que me iniciava como leitor e começava a me envolver com os artistas e escritores da minha cidade. Por ingenuidade ou pela osmose que caracteriza grande parte do conhecimento que adquirimos em determinada época de nossas vidas, passei a incorporar, por assim dizer, parte da antipatia que Jorge Amado gerava nos intelectualóides com os quais eu convivia. Com um detalhe: eu nunca havia posto os olhos em um texto de Jorge Amado. Tereza Batista Cansada de Guerra, Tenda dos Milagres, aqueles batuques e atabaques, os terreiros de cadomblé, a sexualidade exacerbada, tudo isso me era mostrado através da televisão, que eu condenava por entendê-la instrumento de alienação popular e construção de mitos. Época da eleição de Collor, e eu contava 21 anos.
Vagando pelos sebos de minha cidade, sempore encontrava coleções inteiras das obras de Jorge. Inteiras. Páginas e páginas daquilo que, para mim, tratavam do mesmo assunto, o cacau, as mulheres (mais notadamente as prostitutas), a luta de classes do sul da Bahia. Nunca mudava de assunto. E se estavam no sebo, é porque para os compradores daquelas obras não valia a pena mantê-las em suas estantes. Eu tinha razão: Jorge Amado não passava de uma invenção do governo para dizer ao mundo que o Brasil também era capaz de produzir escritores.
Mas, como disse Fernando Sabino, "o homem é um bicho que passa a vida a conversar consigo mesmo. O bom de envelhecer é justamente esse: a conversa vai ficando mais interessante". 
O tempo passou e, no meu caso, a conversa se desenvolveu de forma muito agradável. Por coincidência ou providência, comecei minha aventura nos livros de Jorge com " Capitães da Areia", a fantástica história dos meninos abandonados da Bahia, sua vida, sua trajetória de miséria, sua condição de penúria e completo abandono, seus crimes, a descoberta do sexo e da violência que, muitas vezes, ocorre simultaneamente. Uma narrativa extremamente crua e com alta carga de ternura, alternando a capacidade de gerar poesia e escândalo em doses que fazem deste, para mim, um livro inesquecível, o preferido do autor pelos leitores portugueses, onde Amado é considerado um dos maiores romancistas a história da Literatura universal.
A partir daí, as leituras se sucederam, passando pelo célebre Mar Morto (do herói Guima) e pelo maravilhoso Terras do Sem Fim, que trata da luta entre os coroneis Badaró e Horácio pela conquista de terras, a disouta pela hegemonia política de Itabuna, o enriquecimento trazido pelo cultivo do cacau, etc.
Estes, livros da chamada primeira fase, que enfatizavam justamente, como já disse, a luta de classes e a idiossincrasia existente entre o bem e o mal que caracterizariam sua obra. Os pobres e injustiçados, os bêbados, as prostitutas, os ladrões, os menores abandonados figuram na obra de Jorge como a representação do Bem, por serem perseguidos, humilhados, injustiçados, condenados à penúria e à miséria pelos representantes do Mal -os coronéis do sertão, os latifundiários,  os agiotas, os donos do dinheiro que se armam de capangas e capatazes para subjugar e dizimar os trabalhadores do campo e do porto. 
Jorge Amado de Faria, como veremos, baiano de Itabuna nascido em 1912, sempre foi uma criança e um adolescente muito inventivo e problemático, até certo ponto, protagonizando fugas do colégio de padres para onde foi levado pelo pai. Durante estas fugas refugiou-se em prostíbulos, ocasiões em que travou conhecimento com personagens que seriam transferidos para seus livros com grande frequência. Para se ter uma ideia da produção literária de Jorge durante a adolescência, basta dizer que aos dezoito anos consegue entrar para o curso de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, para onde se transfere, e no ano seguinte já publica O País do Carnaval, seu primeiro romance, com tiragem de mil exemplares.
Nesta época da faculdade de Direito, Jorge, seguramente influenciado por seus companheiros, adere ao comunismo, filiando-se ao PCB e é acusado de participar de atividades subsersivas na cidade de Natal, sofrendo sua primeira prisão política no ano de 1936 -mesmo ano em que recebe o Prêmio Graça Aranha, oferecido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Mar Morto. Só para que não percamos as contas: ele tinha 24 anos.
Em 1937 sai Capitães de Areia, e é decretado no Brasil o Estado Novo, que entre outras arbitrariedades passa a perseguir e prender comunistas declarados, como é o caso de Jorge, mas também políticos, artistas e cidadãos comuns. Monteiro Lobato e Graciliano Ramos são alguns dos presos famosos da época. Jorge passa a viajar pelo Brasil tentando fugir, mas é preso em Manaus. 1600 exemplares de seus livros são queimados em praça pública em Salvador. É libertado em 1938 e mesmo após a prisão mantém sua participação política, posicionando-se publicamente contra a tortura de presos e contra a desarticulação do Partido Comunista.
Em 1939 seus livros começam a ser traduzidos para inglês e francês, devendo ser registrada a resenha altamente elogiosa escrita por Albert Camus acerca de Jubiabá.  Passa a defender a anistia de Luis Carlos Prestes e publica sua biografia no livro O Cavaleiro da Esperança, que sai em 1942, em espanhol, sendo lançado primeiramente na Argentina e no Uruguai, entrando no Brasil de forma clandestina e provocando nova prisão do autor, que acaba confiado em Salvador, numa espécie de "liberdade vigiada".
É eleito Deputado Federal com 15.315 votos, e propõe a Lei da Liberdade de Culto, que vigora até hoje. Neste  momento já está casado com Matilde, sua primeira esposa, a quem dedica vários de seus livros, e radica-se em São Paulo por conta do mandato de deputado. Continua publicando suas obras e conhece Zélia Gattai, que viria a ser sua segunda esposa e mãe de seus filhos Paloma e João Jorge.
O Partido Comunista é cassado em 1948 e Jorge perde seu mandato, começando nova perseguição. Exila-se com a família na Europa e volta ao Brasil em 1953, por ocasião da morte do amigo Graciliano Ramos. Durante sua estada no Velho Continente, faz amizade com personalidades como Sartre e sua esposa Simone de Beauvoir e Pablo Picasso.
No final dos anos 50 abandona a militância política, sob a alegação de que seu engajamento era prejudicial à atividade literária.
A obra de Jorge continuam obtendo cada vez mais êxito e reconhecimento internacional, e em abril de 1961 é eleito para a Academia Brasileira de Letras. No mesmo mês, a TV Tupi estreia a primeira adaptação de Gabriela para a TV. No mesmo ano, é convidado pelo presidente Juscelino Kubitschek para ser embaixador do Brasil na República Árabe Unida, que ele recusa.
O cada vez mais crescente interesse internacional à sua obra o faz adquirir novas amizades: Roman Polanski, Gabriel Garcia Marquez, José Saramago, Mario Vargas Llosa passam a ser visitas frequentes à sua casa no Rio Vermelho, onde já habitam os netos.   
É indicado ao Prêmio Nobel de Literatura nos anos de 1967 e 1968, e passam a ser inúmeras as homenagens que recebe, desde batizar ruas e praças até virar tema de samba-enredo de escolas de samba. São inúmeras as adaptações de seus livros para a TV e cinema, inclusive com Marcello Mastroianni fazendo o papel do turco Nacib em Gabriela, em produção ítalo-brasileira da década de 80.      
É criada a Fundação Casa de Jorge Amado, no ano de 1987, para preservação e divulgação da sua obra.
Em 2001, suas cinzas são depositadas aos pés da mangueira sob cuja sombra ele se sentara tantas vezes, mãos entrelaçadas às de Zélia, e onde recebeu tantos amigos e admiradores durante sua longa e prolífica vida.

Benilson Toniolo
06/08/12

terça-feira, 24 de julho de 2012

MAURO VALLE ESTÁ VOLTANDO A ESCREVER...


Para quem gosta de Poesia, para quem gosta de Arte e para quem gosta de Campos do Jordão não poderia haver notícia melhor. Depois de uma "parada no estaleiro" que já leva alguns anos, que o obrigou um derrame cerebral, o Poeta Mauro Valle volta a escrever. Ainda que com a mão esquerda, ainda que com imensa dificuldade -que só a prática e o exercício amenizarão- ele passa horas na mesa da casa da Vila Ferraz a copiar trechos inteiros de seus longos poemas, contidos em algum dos seus oito livros.
Sou fã de Mauro desde que conheci sua obra, apresentado que fui por Sérgio Asquenazi, o valoroso Diretor da Biblioteca Municipal. Ainda hoje seu Anjo Eveline, sua esposa, me liga de vez em quando e me convida para visitá-los. Chegando na casa sou recebido por um abraço apertadíssimo de Mauro, que me olha com seu olhar de menino encantado,  fica dizendo  "rapaz, rapaz..." e me conduz ao sofá da sala, onde ficamos por horas lendo poemas em voz alta e conversando sobre vários assuntos -menos futebol, porque Mauro infelizmente é corinthiano. Fazer o quê, minha gente? E enquanto dá sequência à interminável via sacra a que se dedica para deixar em ordem a grande casa, Eveline me oferece uma água de coco e de tempos em tempos sussurra ao Poeta: "Quer alguma coisa, meu anjo?"
Ler os poemas de Mauro para ele mesmo é um privilégio, além de me possibilitar -a mim, que sou seu admirador confesso- um contato maior e mais íntimo com sua obra.
Pois Mauro é assim. Ou se não é, foi assim que o conheci, e por quem me afeiçoei pelos caminhos da literatura e da fraternidade.  Sem falar no fato de que não é todo mundo que tem o privilégio, como eu tenho, de ser amigo de quem se admira.
Com a volta de Mauro à literatura, pelo menos para mim, o mundo fica bem melhor.
Abaixo, um dos poemas de sua autoria que publiquei no Blog Nova Poesia Brasileira, recitado por Eduardo Suplicy no Senado, no ano passado:



XXVIIIGarças de Tremembé
Clareai a minha hora
Ó arrozais erguidos
Na solidão da planície
Tecei para mim
Portas de vento e verdes
Um riso que seja o rio
Da serrania de meu coração

Vinde, meus irmãos
Ouvir as alvoradas
Que os homens não quiseram entender
Eles enganam, matam, corrupiam
À luz da salmodia
Cifrão

Garças de Tremembé
Irmãs da inocência
Que às vezes perdi
Quem sou senão esquecimento?
Que sois senão as asas que me restam?
Vosso vôo em branco
Antigo chamamento
Agora é meu ser amanhecendo


terça-feira, 3 de julho de 2012

RUY PROENÇA E DONIZETE GALVÃO

                                                 Ruy (à minha direita) e Donizete

Os poetas Ruy Proença e Donizete Galvão estiveram em Campos do Jordão na tarde do último sábado, dia 30 de junho, para falar sobre Poesia com o público (diminuto, a bem da verdade, mas qualificado e atento) presente no plenário da Câmara Municipal. 
Donizete discorreu sobre o tema "O processo Poético", passando pelos diferentes períodos históricos da Poesia, enquanto Ruy optou pelo tema "Antevisão e Retrovisor". Donos de considerável obra e grande capacidade de transmitir parte do vasto conhecimento literário e cultural que acumulam, ambos contribuíram de forma grandiosa para o entendimento e a compreensão dos temas propostos.
Da minha parte, além das três páginas que preenchi em meu inseparável e avacalhado caderno de anotações sobre o que disseram, a certeza de ter feito bons amigos e de ter compartilhado preciosos momentos de quem comunga da mesma fé: a Literatura.
O cardápio foi variado, eclético, imperdível: muito Drummond e João Cabral, Maiakovski, Baudelaire, Goethe, e até Leopardi deu as caras por lá (mas ficou pouco). Mauro Valle e Roldão Mendes Rosa, como não poderia deixar de ser, foram citados.
Um pouco dos meus novos amigos:

RUY: nasceu em São Paulo, em 1957. Engenheiro de minas.
Obra poética: Pequenos Séculos, Editora Klaxon, São Paulo, 1985; A lua investirá com seus chifres, Editora Giordano, São Paulo, 1996; Como um dia come o outro, Nankin Editorial, 1999. Participa da Anthologie de la poésie brésilienne, organização de Renata Pallottini, Éditions Chandeigne, França, 1998.
FRONTEIRA
Nasci de um acaso.

Como esse muro
à minha frente
alto
dividindo duas vizinhanças.

Alguém me deu à luz,
alguém me tirou a luz.

Não vejo o mundo:
miro o muro.

Dele conheço
cada detalhe.


DONIZETE: Poeta e jornalista, tem trabalhos publicados nas revistas Nicolau, Cult, Poesia Sempre, Sebastião, Dimensão, Mariel (Miami), Babel (Venezuela), Blanco Móvil (México), Anto (Portugal), Anterem e Ricerca (Itália) e nos principais jornais do Brasil. Na França, participou da Anthologie de La Poésie Brésilienne (Editions Chandeigne).
No Brasil, seus poemas estão na Antologia da Nova Poesia Brasileira (Rioarte/Hipocampo), Antologia da Poesia Mineira do Século XX (Imago Editora) e Na Virada do Século — Poesia de Invenção no Brasil.

Seixos

Invenção do branco

                           “...all this  had to be imagined
                                          as an inevitable knowledge.”
                                                       Wallace Stevens

O tanque é o avesso da casa.
A rebarba.
A ferrugem tomando conta da boca.
O tanque é a parenta decaída,
que machuca os olhos das visitas
com suas carnes rachadas.
O tanque é onde se lava o coador
e o pó de café de seguidas manhãs
desenha uma poça de água preta.
Uma arraia-miúda,
ervas e craca e limo,
flora sem -vergonha,
infiltra-se em suas paredes.
À beira do poço,
alguém imaginou copos-de-leite.
Bebendo a umidade,
em verde e branco brotaram.
Reinventados pela distância,
erguem-se vívidos,
mais brancos que o branco,
artifício de vidro.
Recém-nascidos.
Só porque eles existem,
o tanque e seu corpo saloio
foram salvos do esquecimento. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

ARIANO SUASSUNA - O PRIMEIRO NOBEL BRASILEIRO?




Segundo quem circula pelo meio, Ariano Villar Suassuna será o candidato brasileiro à próxima edição do Prêmio Nobel de Literatura. Muito justo, penso eu, ainda que me incomode o alheamento geral que é concedido à importância da fantástica obra de Manoel de Barros para a arte em geral -não somente à literatura. Mas se não há Manoel -e nem haverá de haver, até em função de sua idade avançada-, vamos de Ariano, e nem poderiam estar melhor representadas as nossa letras, tão geniais quanto combalidas pela indiferença que é relegada pelo próprio País.
Sou um fã declarado de Ariano, não somente pela grandeza de sua obra como também pelo fato de ser nordestino -mais particularmente da Paraíba, Estado que aprendi a amar por nele ter morado durante alguns anos de minha vida.
Tanto é que, recentemente, proferi uma palestra na Câmara Municipal de Campos do Jordão denominada "Ariano Suassuna e o Movimento Armorial", que abaixo reproduzo, na esperança de ter conseguido, ainda que a duras penas e com extraordinário esforço, passar aos presente o mínimo que seja da vastidão da obra de Ariano, digno herdeiro da genialidade de Zé Lins, Zé Américo e Augusto dos Anjos, entre outros.
Vida longa, portanto, a Ariano Suassuna, com ou sem Nobel -cuja inexistência nas letras brasileiras, até o momento, não nos tem feito a mínima falta.

ARIANO SUASSUNA E O MOVIMENTO ARMORIAL
Palestra do Acadêmico Benilson Toniolo na Câmara Municipal por ocasião da Reunião Ordinária da Academia de Letras de Campos do Jordão, 31 de março de 2012

Aqui morava um rei, quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão
Pedra da sorte o meu destino
Pulsava, junto ao meu, seu  coração

Para mim, seu cantar era divino
Quando, ao som da viola e do bordão
Cantava com voz rouca o desatino
O sangue, o riso e as mortes do sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia,
Eu me vi como um cego sem meu guia,
Que se foi para o sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao fogo, acesa.
Espada de ouro em pasto ensangüentado.


Com este soneto, “A Acauhan, a Malhada Onça”, de 1980, Ariano Suassuna lança a pedra principal de sua obra: sua condição de sertanejo, dispendendo profundo amor pelas coisas do seu lugar; o uso de imagens fortes e marcantes; o respeito à cultura erudita, aqui representado pela forma rigorosa do soneto; e a dor permanente pela morte do pai, ocorrido cinqüenta anos da composição do poema, quando Ariano contava com pouco mais de três anos de idade.

Nascido em 16 de junho de 1927, na cidade de Nossa Senhora das Neves, então capital do Estado da Paraíba, hoje João Pessoa, Ariano Vilar Suassuna é o oitavo de uma família de nove filhos. Seu pai, João Suassuna, após cumprir seu mandato de governador do Estado de 1924 a 1928, retorna com a família ao seu lugar de origem, a fazenda Acauhan, no sertão.  Mas não se distancia da política e, em meio aos turbulentos dias que precedem a Revolução de 1930, João é assassinado no Rio de Janeiro pelas forças separatistas comandadas por José Pereira de Lima, que chega a declarar a independência do Território Livre de Princesa, que conta com hino, constituição, jornal, exército e bandeira.

Após a morte do patriarca, a família permanece na fazenda, até a terrível seca de 1932, quando todo o gado deixado por João se perde, vitimado pela fome, e a família se veja em meio a sérias dificuldades financeiras, mudando-se então para Taperoá, sertão seco, alto, áspero e pedregoso dos Cariris Velhos da Paraíba do Norte. Neste lugar Ariano inicia seus estudos e se dedica a caçadas e expedições nas fazendas do Saco, de São Pedro, Panati e Malhada da Onça, levado por seus tios maternos e irmãos mais velhos. Aqui também assiste ao seu primeiro desafio de viola e ao seu primeiro espetáculo de mamulengos, que lhe causam forte impacto.

Mas as dificuldades financeiras não cessam e, ainda que contando com o suporte de seus irmãos, dona Rita de Cássia Dantas Villar vende a fazenda Acahuan e muda-se para o Recife, em 1942, onde alguns dos seus filhos mais velhos já se encontram estudando.

O menino Ariano é matriculado no Ginásio Pernambucano, onde conhece Francisco Brennand, seu colega de turma, e publica seu primeiro poema. Sobre este episódio, declararia anos depois: “No colégio, tive um professor de geografia que era interessado em literatura. Quando foi um dia, ele passou uma prova lá e eu não estava preparado... aí taquei literatura. Era uma prova sobre aspectos do relevo brasileiro. Eu falei sobre Drummond, Aleijadinho, falei o diabo, só não falei do relevo. Me lembro que tinha alguns nomes como o rio São Francisco, o rio Amazonas, o Planalto Central e as coxilhas do Rio Grande do Sul... Então ele foi entregando as provas e disse: “essa aqui eu deixei pro fim porque quero conhecer o autor, que pode não ser bom em geografia, mas gosta de literatura”. Eu disse: “fui eu”. Ele pergunta se eu gosto de literatura e se escrevo. Aí eu digo: “escrevo”. “Escreve o quê?” “Escrevo poesia”. Ele disse: ‘Me traga um poema”. Aí, na aula seguinte, eu levei. Ele pegou e disse: “Você pode emprestar?” Eu digo: “Posso”. Rapaz, ele me fez uma surpresa... que alegria! Quando foi no domingo, abri o Jornal o Commercio, estava publicado. Foi em 7 de outubro de 1945”. A esta altura, o menino Ariano já é leitor de Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Euclydes da Cunha e José Lins do Rego.

Em 1946, entra para a Faculdade de Direito, onde encontra um grupo de escritores, poetas, atores, pintores, músicos e pessoas interessadas em diversos tipos de arte. Dentre estas pessoas, destacam-se Hermilo Borba Filho e José Laurênio de Melo, que exercem grande influência na formação de Ariano. Com os três, e mais Capiba, Galba Pragana, Joel Pontes, Ivan Neves Pedrosa, Aloisio Magalhães, Genivaldo Wanderley, Heraldo Pessoa Souto Mayor, José de Morais Pinho, Fernando José da Rocha Cavalcanti, Gastão de Holanda, Epitacio Gadelha e Ana e Rachel Canen, é fundado o Teatro do Estudante de Pernambuco. Ariano passa a publicar, em revistas estudantis e suplementos culturais, seus primeiros poemas ligados ao romanceiro popular do Nordeste.

Mas a proximidade com atores e pessoas ligadas às artes cênicas faz com que Ariano comece a escrever pequenas esquetes teatrais, e toma parte do Prêmio Nicolau Carlos Magno de Teatro, onde obtém o primeiro lugar com o espetáculo Uma Mulher Vestida de Sol, no ano de 1947.

A partir daí, a produção teatral se multiplica. Sob inspiração de Garcia Lorca e suas peças de ato único, encena O Desertor de Princesa, que é encenada no Parque Treze de Maio, na capital pernambucana.

Seguem-se Os Homens de Barro e Auto de João da Cruz, que lhe dá o Prêmio Martins Pena. Forma-se em Direito em 1950 e parte para Taperoá para tratar-se de uma enfermidade no pulmão, ocasião em que conhecerá Zélia na seguinte situação: para receber os parentes que vinham visitá-lo, Ariano monta com os demais pacientes um pequeno espetáculo denominado “Torturas de Um Coração ou Em Boca Fechada Não Entra Mosquito”. Entre os parentes visitadores, estava uma menina tímida, uma sua parente muito distante, por quem o dramaturgo convalescente se apaixonará e com quem se casará em 1957, em cerimônia realizada no dia do aniversário de seu pai.

Enquanto isso não acontece, recupera-se da enfermidade, retorna ao Recife e emprega-se no escritório de advocacia do seu professor Murilo Guimarães. Continua a criar espetáculos populares, entre eles O Arco Desolado, O Castigo da Soberba, O Rico Avarento e aquele que seria seu trabalho cênico mais conhecido, O Auto da Compadecida.

Em 1956, abandona a advocacia e ingressa na docência, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, além de dirigir o setor de cultura do Serviço Social da Indústria até 1960. Escreve o romance A História de Amor de Fernando e Isaura, uma versão sertaneja de Tristão e Isolda.

O ano de 1957 lhe trará duas grandes notícias, além do casamento com Zélia: o Prêmio Vânia Souto de Carvalho por O Casamento Suspeitoso, e a medalha de ouro da Associação Paulista dos Críticos de Arte com O Santo e a Porca.

A partir daí, sucedem-se os prêmios nacionais de teatro, e em 1959 O Auto da Compadecida é traduzido para o polonês, e em 1964 para o holandês.

Forma-se em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco, e sua obra teatral começa a ser encenada também no exterior, valendo-lhe prêmios na Argentina e no Chile.

Em 1969 é nomeado diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambucano, cargo que ocupará em 1974. Assim que assume, convida diversos autores para formarem juntos um grupo de criação multicultural, que inclua poesia, pintura, música, teatro e dança em uma base formada por raízes essencialmente populares, extraindo daí uma cultura erudita a que dariam o nome de Movimento Armorial. Participam deste grupo, entre outros, o músico Guerra Peixe, o pintor Francisco Brennand, o gravurista Gilvan Samico e os poetas Marcus Accioly, Ângelo Monteiro, Deborah Brennand e Janice Japiassú.

Organiza, com seus companheiros, em 1970, o concerto Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial, em conjunto com uma exposição de xilogravura, pintura e escultura, ocasião em que é lançado oficialmente o Movimento Armorial.

Em 1971 publica o Romance d’ A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, que preparara desde 1958 e se propõe a ser o “romance armorial brasileiro”, pela Editora José Olympio.

É nomeado Secretário de Educação e Cultura do Recife, e começam a surgir teses de mestrado e doutorado no Brasil e no exterior acerca de sua obra.

Dedica-se à docência de Filosofia, Teoria do Teatro, Estética e Literatura Brasileira, aposentando-se em 1989.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1990, e Academia Pernambucana de Letras em 1992.

A partir daí, acentuam-se as homenagens e honrarias.

Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba em 2001.

Homenageado pela Escola de Samba Império Serrano, em 2002, com o enredo Aclamação e Coroação do Imperador da Pedra do Reino. No mesmo ano, recebe em o Prêmio Nacional Jorge Amado de Literatura e Arte, pela Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia.

Cidadão Paulistano em 2006, e no mesmo ano a Universidade Federal de Pernambuco lança o “Núcleo Ariano Suassuna de Estudos Brasileiros”.

Em 2007, ano de seu octagésimo aniversário, recebe o título de Cidadão Baiano e nomeado Secretário Estadual de Cultura de Pernambuco.

Após as versões feitas para a televisão e para o cinema do Auto da Compadecida e do Romance da Pedra do Reino, Ariano popularizou-se, e é figura freqüente em feiras e festivais literários, além das conhecidas aulas-espetáculo, quando atrai multidões para ouvir suas histórias e seus projetos para a valorização de uma cultura tipicamente brasileira e popular.

Crítico mordaz de modismos, anglicismos e feroz combatente do que chama de “imbecilização do pensamento brasileiro”, reage com bom humor quando lhe perguntam por qual motivo nunca saiu do Brasil: “quando tenho vontade de visitar a Espanha, por exemplo, abro meu Dom Quixote”. Aos que o acusam de promover a xenofobia, lembra: “nem poderia, pois as raízes das manifestações culturais nordestinas remontam ao árabe e ao ibérico, como algumas passagens do Auto da Compadecida, que além de constarem na nossa literatura de cordel foram encontradas também em folhetos mouros e árabes, como a história do cachorro, ou do cavalo, que descomia dinheiro”.

Suassuna foi detido durante a ditadura militar pelo seguinte diálogo em uma de suas peças: “um sujeito pergunta ao outro como é que se faz para chegar nos Estados Unidos, e o outro responde: é só você ir andando de posto Shell em posto Shell, e você chega. O general me perguntou se eu tinha mesmo escrito aquilo, e eu disse que sim. Ele perguntou o que é que eu queria dizer, e eu respondi que não sabia, porque quem dizia aquilo era o personagem, e não eu. O general, que pelo jeito gostava de literatura, deu uma risada e me mandou pra casa”.    

Suassuna foi acusado por alguns críticos de fazer apologia à preguiça e malandragem do brasileiro, numa espécie de lobatismo ao contrário, por conta das características de seus heróis, sobretudo a dupla Chicó e João Grilo, que se caracterizam por lançar mão de mentiras e presepadas para levar vantagem sobre seus antagonistas; o sofrível poeta Simão, da Farsa da Boa Preguiça, que passa a vida a criar desculpas para não trabalhar, e vive na miséria; o culto, sagaz e desonesto Quaderna, que enrola o investigador de polícia mas não consegue escapar da prisão. Entretanto, a astúcia e a espontaneidade são algumas das poucas armas que estes personagens encontram para escapar da fome e da humilhação impostas pela avareza e pela vaidade dos ricos. Também é forte a presença da fé católica de Ariano em todas as suas obras, com a predominância da vitória final dos justos e dos miseráveis sobre a maldade dos poderosos e exploradores, que sempre são condenados à danação eterna.

Aclamado pelo público, reconhecido pela crítica, referendado pelos meios acadêmicos, Suassuna revela-se um defensor incansável da língua portuguesa. É vasto o anedotário em torno de sua crítica ácida ao uso abusivo de anglicismos em nosso cotidiano, como por exemplo quando, ao passar por uma lan-house, soltou um “lanhou-se”, para protesto do motorista de taxi que naquele momento o conduzia ao aeroporto, que chegou a chamá-lo de ignorante por não saber que se tratava de um estabelecimento especializado em computadores. E Ariano: “pois agora é que lanhou-se, mesmo”. Ainda sobre a língua inculta e bela, vaticinava, em 1972: “Se Deus quiser, se os técnicos do planejamento deixarem e a pílula não impedir, logo chegaremos a duzentos milhões. E, queiram ou não queiram os nossos resignados sem complexo, duzentos milhões de pessoas formarão uma voz que terá de ser ouvida no mundo”.

Desta forma, Suassuna está ligado à arte brasileira não só como criador, mas também como líder cultural.

Dotado de assombrosa memória, é capaz de citar longos trechos de A Cidade e As Serras, de Eça, e do Sermão da Quarta-Feira de Cinzas, de Vieira, gosta de lembrar que seu interesse pela literatura surgiu com Olavo Bilac, com o livro ‘Através do Brasil’, que ganhou de presente de um irmão mais velho que estudava no Recife: “Li-o aos sete anos, e exerceu em mim grande influência, por dois motivos: em primeiro lugar, porque na época eu só lia livros policiais cuja ação se dava em Londres. E vi naquele livro, pela primeira vez, a paisagem e a cidade brasileira. A história começava no Recife e acabava no sul do País, contando a trajetória de dois meninos à procura do pai, dado como morto. Meu pai tinha sido assassinado quatro anos antes, então aquilo me tocava”.

Vale aqui, senhoras e senhores, estamos falando de um menino de sete anos, no sertão da Paraíba, que lia romances policiais ingleses e começava a descobrir a paisagem brasileira através de Bilac. Em que momento da história, meus amigos, começamos a nos perder, até chegarmos a este quadro de aridez intelectual em que nos encontramos atualmente?

Mas voltemos ao nosso personagem.

Um Policarpo Quaresma de nossos tempos? Talvez. Defensor incorrigível da arte e da cultura brasileiras, hoje ele tem dado em suas apresentações diversas manifestações de como enxerga a questão da necessidade da preservação deste nosso patrimônio: “Eu tinha duas tias-avós velhas, uma das quais, muito religiosa e crédula, vivia a repetir uns famosíssimos e suspeitíssimos milagres cuja notícia ela lia no Mensageiro do Coração de Jesus e em que sempre aparecia um misterioso “manto de Nossa Senhora”, revelado na Espanha, na França, na Alemanha, e que curava cegos, ressuscitava mortos, etc. A outra tia-avó, irmã da milagreira, sertaneja cética e desconfiada, costumava comentar filosoficamente: ‘Eu não sei o que é que têm esses milagres de Sinhazinha, que só acontecem no estrangeiro’. Sou, como todo escritor, uma espécie de sonhador, sem muito jeito para político ou cientista. Mas sou também religioso, e se desconfio da freqüência dos milagres é justamente por respeito ao milagre. E o que eu mais temo é que o milagre brasileiro acabe por se revelar um milagre enganador. E isso só não irá acontecer se, no momento da industrialização e do enriquecimento, a Gravura, a Pintura, a Escultura, a Cerâmica, o Romanceiro, a Música autêntica e os espetáculos populares brasileiros permanecerem como manancial e fonte de inspiração para a manutenção de uma garra brasileira, capaz de animar com o sangue e a raça do Brasil uma indústria peculiar e fiel a nosso País e ao nosso povo”.

Mas como se auto-definiria o próprio Ariano, em meio a turbilhão de afazeres e compromissos a que foi submetido após a popularização de sua obra advinda após a adaptação para o TV e o cinema de duas de suas obras? “Outro dia, me acusaram de elitismo. Repare bem, falavam que eu era elitista porque diziam que, com o Romance d’A Pedra do Reino, é preciso fazer um esforço grande para ler. Ora, isso é uma acusação demagógica. Ninguém pode esperar muito de mim, não, mas o que eu puder fazer pela nossa cultura, eu vou fazer. Digo sempre: não me considero otimista, acho os otimistas ingênuos. Nem pessimista, pois são amargos. Eu me considero um realista-esperançoso. Tenho esperança. A esperança é uma das três virtudes chamadas teologais (fé, esperança e caridade). Sou fraco na fé, na caridade, mas sou bom na esperança. Luto, sou um homem animoso. É possível participar das coisas e a gente não deve ter medo, mesmo que a tarefa pareça invencível”.

Poeta, dramaturgo e romancista, este é, senhoras e senhores, Ariano Vilar Suassuna. Um sertanejo nascido sob o signo da luta, e que continua bravamente pelejando pelo simples direito de permanecer vivo no combate pela brasilidade e pela esperança –que, na maioria das vezes, é justamente o que trazemos de mais valioso.  


Benilson Toniolo
Campos do Jordão, março de 2012