terça-feira, 3 de julho de 2012

RUY PROENÇA E DONIZETE GALVÃO

                                                 Ruy (à minha direita) e Donizete

Os poetas Ruy Proença e Donizete Galvão estiveram em Campos do Jordão na tarde do último sábado, dia 30 de junho, para falar sobre Poesia com o público (diminuto, a bem da verdade, mas qualificado e atento) presente no plenário da Câmara Municipal. 
Donizete discorreu sobre o tema "O processo Poético", passando pelos diferentes períodos históricos da Poesia, enquanto Ruy optou pelo tema "Antevisão e Retrovisor". Donos de considerável obra e grande capacidade de transmitir parte do vasto conhecimento literário e cultural que acumulam, ambos contribuíram de forma grandiosa para o entendimento e a compreensão dos temas propostos.
Da minha parte, além das três páginas que preenchi em meu inseparável e avacalhado caderno de anotações sobre o que disseram, a certeza de ter feito bons amigos e de ter compartilhado preciosos momentos de quem comunga da mesma fé: a Literatura.
O cardápio foi variado, eclético, imperdível: muito Drummond e João Cabral, Maiakovski, Baudelaire, Goethe, e até Leopardi deu as caras por lá (mas ficou pouco). Mauro Valle e Roldão Mendes Rosa, como não poderia deixar de ser, foram citados.
Um pouco dos meus novos amigos:

RUY: nasceu em São Paulo, em 1957. Engenheiro de minas.
Obra poética: Pequenos Séculos, Editora Klaxon, São Paulo, 1985; A lua investirá com seus chifres, Editora Giordano, São Paulo, 1996; Como um dia come o outro, Nankin Editorial, 1999. Participa da Anthologie de la poésie brésilienne, organização de Renata Pallottini, Éditions Chandeigne, França, 1998.
FRONTEIRA
Nasci de um acaso.

Como esse muro
à minha frente
alto
dividindo duas vizinhanças.

Alguém me deu à luz,
alguém me tirou a luz.

Não vejo o mundo:
miro o muro.

Dele conheço
cada detalhe.


DONIZETE: Poeta e jornalista, tem trabalhos publicados nas revistas Nicolau, Cult, Poesia Sempre, Sebastião, Dimensão, Mariel (Miami), Babel (Venezuela), Blanco Móvil (México), Anto (Portugal), Anterem e Ricerca (Itália) e nos principais jornais do Brasil. Na França, participou da Anthologie de La Poésie Brésilienne (Editions Chandeigne).
No Brasil, seus poemas estão na Antologia da Nova Poesia Brasileira (Rioarte/Hipocampo), Antologia da Poesia Mineira do Século XX (Imago Editora) e Na Virada do Século — Poesia de Invenção no Brasil.

Seixos

Invenção do branco

                           “...all this  had to be imagined
                                          as an inevitable knowledge.”
                                                       Wallace Stevens

O tanque é o avesso da casa.
A rebarba.
A ferrugem tomando conta da boca.
O tanque é a parenta decaída,
que machuca os olhos das visitas
com suas carnes rachadas.
O tanque é onde se lava o coador
e o pó de café de seguidas manhãs
desenha uma poça de água preta.
Uma arraia-miúda,
ervas e craca e limo,
flora sem -vergonha,
infiltra-se em suas paredes.
À beira do poço,
alguém imaginou copos-de-leite.
Bebendo a umidade,
em verde e branco brotaram.
Reinventados pela distância,
erguem-se vívidos,
mais brancos que o branco,
artifício de vidro.
Recém-nascidos.
Só porque eles existem,
o tanque e seu corpo saloio
foram salvos do esquecimento. 

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