segunda-feira, 28 de outubro de 2013

EU, O ELITISTA



Benilson Toniolo

O sujeito me chama de elitista. Diz que acha interessante me ver no bairro popular em meio aos ‘pobres’ –o termo é dele, não zanguem comigo. Diz que eu só conheço o povo através das aulas de Sociologia e dos livros. Não disse a mim diretamente, mas disse a outrem. Então, dou risada –o que mais posso fazer?
Meu pai foi um alagoano retirante, fugido da seca, da fome e da sede do sertão. Veio com a mãe, recém viúva, e uma montoeira de irmãos em pau-de-arara. Chegou em Santos e ficou. Foi analfabeto até a fase adulta quando, já casado, aprendeu a ler praticamente sozinho. Fez curso de eletrônica por correspondência no Instituto Universal Brasileiro, e varava as noites tentando decifrar os inúmeros manuais de tevê para consertar aparelhos de televisão inconsertáveis (se me permitem o neologismo) dos fregueses (na época, não se dizia 'clientes'). Foi servente de pedreiro, ajudante de barbeiro, dono de boteco e de loja de conserto de televisão e rádio, e por um tempo teve ponto de jogo-de-bicho. Foi proprietário de um Aero-willys, dois fuscas e um Dodge Polara amarelo. Quando morreu, há onze anos atrás, tinha acabado de ler Dostoiévski. Devo a ele minha paixão pela leitura. Minha mãe, santista filha de europeus, quando menina ajudava na pensão da avó, amanhecendo entre panelas, caçarolas e pias cheias de louça suja para lavar. Durante toda a vida, e até poucos anos atrás, passava roupa e costurava para fora, para ajudar nosso pai no orçamento de casa. Nunca reclamou. Foi fiel a ele e a nós, e assim é, até hoje.
Moramos na Vila Margarida e Parque Bitaru, em São Vicente, antes de nos mudarmos para a casa do tio Aldo, na Santa Rosa, no Guarujá.
Desde os doze, nosso pai nos levava para ajudar no bar. E lá ficávamos servindo bêbados, maconheiros, pescadores, jogadores de sinuca, gente boa e gente ruim.
A Santa Rosa era só lama, na época. Não tinha asfalto. O 'conga' que nos levava à escola era o mesmo dos passeios de domingo na casa dos primos.
Quando eu tinha quinze anos, meu pai adoeceu gravemente de uma duodenite seguida de tuberculose, e muita gente achou que ele não escapava. Escapou. Daquela feita, minha irmã me arranjou emprego de Office-boy num escritório de advocacia no centro de Santos para ajudar em casa. Saía do Escolástica Rosa, a melhor escola pública de Santos na época (que instituía uma prova chamada de 'vestibulinho' para poder receber e classificar tantas solicitações de matrícula de candidatos a alunos da Baixada inteira) às 12:35h, tinha que entrar no trabalho às 13h e fazia meu almoço no ponto de ônibus, torcendo para que o coletivo não demorasse, mas que me desse tempo de não ter que subir segurando a mochila, o misto frio e a lata de fanta laranja. Descia na Praça Mauá, ia para o escritório na Rua Riachuelo, catava um monte de processos, subia a Amador Bueno e ia para o fórum, checar o andamento dos processos. Era o ano do primeiro colegial, o atual primeiro ano do Ensino Médio, no qual fui reprovado. Química e Física. Fui para Conselho de Classe precisando de um ponto em Matemática para poder fazer a recuperação nas duas matérias. Não me deram o ponto. Bombei direto, como se dizia na época. Tive anemia e fui mandado embora do serviço. Foi a primeira vez. Viriam outras.
Entrei na faculdade de Hotelaria já em Campos do Jordão aos trinta e três anos, quando Bruno tinha três e, Leonardo, acabado de nascer. Antes disso, fui auxiliar de serviços gerais e vigia noturno, vendedor de curso de inglês, bancário (minha mãe tem saudade desse tempo até hoje), cobrador de consórcio, ajudante de copiadora, comerciante falido, gerente de clube. Tive uma carreira bonita na Hotelaria. Carreguei muita bagagem, dobrei serviço, tive que pagar diferença de caixa do bolso. Fui gerente de flat, conheci o Nordeste, morei em S. Paulo e passei alguns meses no Centro-Oeste.
Meu melhor carro é um Gol 2007, que é o atual, financiado em 48 meses. Antes dele, um outro Gol 1997 e dois fuscas caindo aos pedaços –na verdade, dois heróis que me tiraram de muitas enrascadas e me conduziam ao Pronto-Socorro nas frias madrugadas de Campos do Jordão, quando os meninos tinham alguma coisa -uma dor de barriga. Criança, como vocês sabem, é louca pra ter dor de barriga.
Uma vez, há muitos anos atrás, eu tinha muita dor de cabeça, e um médico que tinha consultório ali na Conselheiro Nébias disse que eu tinha aneurisma, que podia morrer a qualquer momento. Isso faz muito tempo. Viciei em dorflex. Mas como estou aqui até agora, desconfio que não é disso que me fino.
Neste momento, escrevo na escrivaninha da casa que eu e Simone financiamos. Trinta anos. A casa é nossa, portanto, desde que paguemos todas as mensalidades.
Escrevi nove livros. Tem mais um ou dois em andamento. Falo três idiomas, além do português. Pertenço a algumas entidades literárias e ganhei dezenas de prêmios. Faço palestras e traduzo livros do italiano para o português. É só ter tempo. Não me considero escritor, e apesar de minha formação –que considero pífia- acho que acertei quando resolvi não abandonar a literatura. E, como disse Borges, acho que o que li é mais interessante do que o que escrevi. Porque ler a gente lê o que gosta, e escrever, escreve só o que consegue.
Tenho muito a agradecer a Deus, principalmente pela mulher que Ele me deu por esposa e pelos viventes que me deu como filhos. Pela minha mãe que permanece forte e inquebrantável –um porto seguro garantido para quando a nau perder o rumo.
Minha história não é melhor nem pior que a de ninguém. São estas lutas que nos constroem e fazem a vida valer a pena.
E, o que é mais interessante: nunca tive aula de Sociologia.
Mas elitista, meu prezado amigo, com todo respeito, é a digníssima puta que o fez vir à luz.



1 comentário:

  1. Caríssimo amigo e irmão BENILSON... como sempre me deparo com um texto primoroso. Um dos grandes males da humanidade é julgar, por isso o provavelmente, o Divinio Mestre disse há dois milênios "não julgueis para não serdes julgados"... o julgamento, além de bíblico e insensato perante muitas linhas de estudos, é uns instrumento separatista em nossas vidas... por exemplo, uma pessoa julga que outra é elitista, logo, ela faz uma separação entre elitistas e não-elitistas, criando aí a cisão social na mente da mesma, e a partir do momento em que se julga, acaba caindo também, de certa forma, na classificação de elitista, visto que separa uns dos outros... o julgamento leva a pré-conceitos, e isso não é salutar... Veja o caso, da pessoa que lhe julga e lhe sentencia, sem conhecer seu histórico de vida, sua luta, seu caráter, sua vontade imensa de mudar o mundo, pelo menos na parcela que lhe cabe... portanto, meu amigo, deixemos de lado as pessoas que, imbuídas de preconceitos, inverdades e muitas vezes inveja, chegam até nossa vidas para nos julgar, classificar e querer desanimar, pois a luta a que nos propomos, Benilson grande atalhador, é de fazermos um mundo mais justo, com mais paz e esperança aos nossos irmãos de caminhada... e isso, meu caro, você tem feito com louvor a cada instante... parabéns por ser como é, e espero que a pessoa que lhe chamou de elitista comece a enxergar o mundo como uma grande chance de se fazer o bem...
    Luiz Antonio Cardoso - Coordenador do Núcleo da União Brasileira de Escritores no Vale do Paraíba

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