domingo, 13 de abril de 2014

FANATISMO DE OCASIÃO



Benilson Toniolo


Ninguém aguentava mais o fanatismo do Romildo por futebol. Era demais.
Entre outras coisas, ele praticamente não vestia outra roupa que não fosse a camisa do seu time. Qualquer que fosse a ocasião, ele sempre dava um jeito de usar alguma peça de roupa com o símbolo ou as cores do seu clube do coração. Era demais.
Romildo jogava futebol com os amigos sempre que podia –pelo menos, duas vezes por semana. Na praia, na rua de terra, na rua de asfalto, na quadra do colégio. Só lia as páginas de esportes. Assistia a todos os programas esportivos da tevê.  Seu assunto preferido, e o que ele mais dominava era, obviamente, o futebol. Enjoava. Tabelas de campeonatos eram esquecidas por ele em cima da mesa da cozinha. Ele anotava os resultados dos jogos, fazia prognósticos, somava e anotava os pontos dos clubes num papel para conferir com o jornal do dia seguinte.
Como todo fanático que se preze, Romildo tinha a sua tribo, cujos componentes pode até ser que não torcessem para o mesmo time uns dos outros, mas comungavam  da mesma paixão. Todos se reuniam na casa do seu líder – o Romildo, claro- para assistir aos jogos pela tevê nas tardes de domingo. Os encontros só não aconteciam nas noites de quarta-feira porque os jogos só começavam depois da novela, ou seja, às dez horas, e aí ficava tarde para o pessoal ir embora, e corria-se o risco de algum deles achar de dormir por lá mesmo. E ainda querer jantar. Dona Nica, mãe do Romildo, reclamava:
- Só me faltava essa.
A família já andava sem paciência com aquela fixação do Romildo por futebol. E, com o tempo, aquele passou a ser um assunto desagradável dentro de casa. De onde o Romildo tinha tirado aquilo? Ninguém na família ligava para isso, salvo um tio remoto e distante que, na juventude,  tinha sido zagueiro num time de várzea e hoje era funcionário público municipal. Romildo até discorria bem sobre, por exemplo, economia e a história recente do Brasil. Mas era só. Mãe, pai, irmãos, sobrinhos, cunhado, todos os que viviam sob o mesmo teto nas duas casas que compunham o terreno comentavam entre si, à boca pequena, que não tinha cabimento um sujeito daquela idade perder tanto tempo com futebol. Chegou ao cúmulo de o Romildo organizar um campeonato de futebol de botão entre as crianças da vizinhança que durou um domingo inteiro, e que ele chamou de ‘torneio início infantil’. Tudo bem que ele não jogou o campeonato, que teve troféu para o campeão, medalha para o vice, juiz, tabela e regulamento -só organizou, segundo ele, ‘a pedido da própria molecadinha’. Mas ninguém acreditava, e nem ouvia mais, o que o Romildo dizia quando o assunto era futebol.
Na verdade o que incomodava a todos, mas que ninguém assumia, é que o Romildo, há quase um ano, estava desempregado. Perdera o emprego num escritório de advocacia e não conseguira, até aquele momento, se recolocar. Não que não tentasse. Saía duas ou três vezes por semana percorrendo o comércio e escritórios do Centro atrás de uma oportunidade, mas não conseguia nada. É que ele só sabia trabalhar em escritório. Não aprendera mais nada. E, enquanto não estava procurando emprego, dedicava-se à sua paixão: o futebol.
Vai daí que um belo dia a Luciana, sobrinha mais nova do desempregado fanático e xodó da família, arrumou um novo namorado. Só que desta vez, ao contrário dos namoricos anteriores, parece que era sério. Ricardo Augusto, pelo que se sabia, era um belo, jovem e promissor engenheiro da Petrobrás, filho de um português dono de padaria. A novidade, para Romildo, nem era tão digna de atenção assim, não fosse um comentário que ele ouvira certa noite no jantar: Ricardo Augusto era corinthiano fanático. De perder a compostura quando alguém roubava –segundo ele- o Timão. Romildo, claro, não gostou. Um corinthiano freqüentando sua casa? E ainda fanático? Problema. Ah, sim. Romildo era santista.
Para apresentar oficialmente o ‘noivo’, como já era chamado, foi organizado um almoço em família. O que ninguém atentou foi que justamente aquele domingo era dia de Santos e Corinthians. Semi-final de campeonato brasileiro e com o Corinthians jogando em casa, com a vantagem do empate.
A coisa era séria. Romildo  tinha um problema, e algumas possibilidades para lidar com ele. Podia ficar em casa  e inevitavelmente arranjar uma saia justa com o futuro sobrinho –que até podia, quem sabe, arranjar-lhe um emprego, como disse a dona Nica. Podia abrir uma exceção e tentar fingir indiferença com a rivalidade e ser cortês somente naquele dia –o que era impossível. Podia pendurar a bandeira do seu time na parede da sala, já para ir intimidando o convidado logo na chegada, e mostrar quem ali afinal era o dono da casa. Podia ser o mais gentil dos gentis, cativando o inimigo –inimigo!- e fazendo-o entender que o futebol, antes de mais nada, é uma oportunidade de celebrar a amizade e a paz entre os homens. E podia, finalmente, ver o que é que ia dar. Afinal, era dia de semi-final. De Campeonato Brasileiro. Contra o Corinthians. O time do Ricardo Augusto. Aquele estúpido. Optou pela última possibilidade. Fosse o que Deus quisesse.
No domingo, Romildo levantou cedo, vestiu o manto sagrado –que era como ele chamava a camisa do time- e foi dar uma volta de bicicleta para ‘sentir o clima’ do clássico. Voltou quase na hora do almoço e não acreditou no que viu. Na parede da sala, bem acima do sofá-cama onde ele dormia, alguém teve a infeliz idéia de, para agradar ao ilustre e engenheiro visitante, pendurar uma bandeira do Corinthians. Romildo perdeu o chão. A vista escureceu, a mão formigou, um calafrio lhe percorreu a espinha de cima a baixo. Mas ficou quieto e resolveu agir. Sem sequer perguntar quem tinha sido o autor do execrável ato –certamente o cunhado, pai da noiva, que nem time tinha-, pegou a bandeira do Santos e, prego e martelo na mão, botou em cima da do eterno rival. Dona Nica viu aquilo, balançou a cabeça negativamente e foi tratar da lasanha no forno. Voltou:
- Rô, meu filho, não vai arranjar confusão com teu cunhado logo hoje. A sala tem quatro paredes. Ele já usou uma. Pega a tua bandeira e pendura na outra parede.  Não vai me estragar o domingo. Ninguém tem culpa das tuas manias.
Como todo fanático que se preze, Romildo a principio discordou e nem considerou pensar na proposta da mãe -mas serenou, pensou um pouco e viu que ela tinha razão. A sala ficou parecendo um estádio de futebol, com o detalhe que a bandeira dedicada ao visitante era cerca de 10 centímetros maior do que a do ‘dono’ da casa. Absurdo. Para Romildo, aquela situação era quase uma guerra. Uma afronta à sua pessoa, dentro de sua própria casa. Tudo por causa do Ricardo Augusto. Que, com um nome daqueles, ‘não sei não’.
Perto da uma da tarde, chegou o doutor Ricardo Augusto. Romildo postou-se na cozinha e  ficou ali, tenso, conferindo o movimento. A sobrinha correu a abrir o portão, ambos se abraçaram e ele pode vir o inimigo sorrindo resoluto pelo corredor do quintal, de mãos dadas com a noiva (que parecia tão pequenininha ao seu lado) em direção à porta da sala. Verdade seja dita: o cara era bonitão. Alto, cabelos encaracolados, sorriso de ator de novela, simpático. Seria uma histeria silenciosa quando as mulheres da casa o conhecessem. E um detalhe: vestia roupa normal. Nada do Corinthians. Camiseta bege, calça jeans, tênis, não fazia o tipo de fanático por futebol. Entrou, cumprimentou todo mundo, elogiou as plantas no quintal, a cor da parede da casa, a tranqüilidade da rua, por um segundo observou as bandeiras penduradas e nada disse, além das frases habituais de quem está sendo apresentado à família da namorada. Era a hora de Romildo entrar em cena. Estufou o peito –para o distintivo na camisa ficar evidente- e veio apresentar-se. Apertaram as mãos, o doutor sorria sempre e não pareceu dar a mínima, nem para o Romildo e muito menos para a camisa que ele usava. Dona Nica foi à cozinha buscar um copo de suco, os noivos sentaram-se de mãos dadas e Romildo, na poltrona à frente, tomou a dianteira do primeiro diálogo:
- Jogão hoje, hein, Ricardo?
O visitante não tinha ouvido, estava concentrado em conversar com a namorada.
- Como?
- Jogão hoje, hein? Santos e Corinthians.
- Ah, sim. Não sei, não acompanho muito futebol. Não tenho muito tempo, sabe? Mas deve ser um jogo bom, sim. Aliás, não precisa nem perguntar pra quem você vai torcer, né?
- É.
- Por mim, que vença o melhor.

Em seguida, o doutor Ricardo Augusto voltou-se para a namorada, beijou-lhe a testa e perguntou-lhe o que achava de irem tomar sorvete na praia, depois do almoço. ‘Bem na hora do jogo’, pensou Romildo, achando tudo muito estranho. E considerando seriamente a possibilidade de, quando ninguém estivesse olhando, retirar as bandeiras da parede.

terça-feira, 8 de abril de 2014

KUKA

Benilson Toniolo


A casa já tinha um cão de guarda, o Tóbi. Quando este completou três anos o dono da casa, achando que ele andava muito sozinho e ‘humanizado’ –já estava se vendo a hora de o Tóbi falar ‘bom-dia’ ao primeiro que abrisse a porta pela manhã-, arranjou-lhe companhia: um filhote a quem chamaram de Kuka.
Quando o pai anunciou a novidade em casa, o único a manifestar-se em contrário –pelo menos, foi o que pareceu- foi o caçula de doze anos, que protestou com veemência:
- Pô!
Até hoje não se sabe o que é que ele quis dizer com aquilo.
Kuka, enfim, chegou, e cedo constataram que era igual a todo filhote de cachorro. Foi vacinado, vermifugado, batizado, castrado e ganhou um quintal enorme, que era o da casa. No começo, Tóbi estranhou aquela coisa preta e gorducha aporrinhando-lhe a vida o dia todo e, por que não dizer, a noite toda também. Kuka subia-lhe nas orelhas, mordia-lhe o rabo, lambia-lhe a cara. Tóbi passou a expressar sua irritação emitindo um som que até então ninguém na casa jamais tinha ouvido. Algo como um gemido longo, um choro miúdo, uma indignação característica de quem teve seu espaço invadido e subtraído em grande parte, sem sequer ter sido consultado. Aos poucos, Kuka foi tomando conta do pedaço.
A família, por sua vez, ia se acostumando à, vamos dizer assim, juventude do animalzinho. Arrancava as toalhas do varal e arrastava pela grama, destruía os cadarços dos tênis, mordiscava a barra das calcas, mordia o calcanhar das pessoas, destruía chinelos, inutilizava cabos de vassoura, abocanhava passarinhos pequeninos e besouros, criava verdadeiros túneis nos canteiros de terra, exterminava as plantas. Ou seja, era um filhote normal e saudável.
Na primeira partida da final do campeonato daquele ano, o pai fez o que sempre se faz em casa –felizmente, quase todo ano: ia pendurar a bandeira do Santos do lado de fora da casa. Sinal de fidelidade, de fé e de esperança na nova conquista do clube do coração. Está certo que a bandeira estava já bem usada: fora adquirida após uma empolgante vitória num clássico no Morumbi, há quase vinte anos. Mas era a bandeira que havia, e que trazia em seu histórico anos de finais e de dedicação à causa alvinegra. Na vitória ou na derrota, lá estava ela. Na testeira da casa, na janela, na churrasqueira, no portão. A bandeira a dar seu testemunho, ano após ano. Com o Santos, onde e como ele estiver, é um dos nossos lemas.
Naquele ano, casa nova e pé direito alto, ficava difícil para o pai botar a bandeira no ponto mais alto da casa, que é o que, na teoria, manda o manual do torcedor fanático. Ele, então, optou por prendê-la com cinco pequenos pregos na sacada, na lateral da casa, que é onde batia menos vento e, portanto, seria menor o risco de ela sair voando pelo bairro. O problema é que, no local escolhido, pouca gente da rua podia perceber que no meio daquele pano branco e preto havia o distintivo do time. E o que é pior, do jeito que as coisas andavam, podiam até mesmo confundir com o distintivo de outro time, o maior rival, o... toc, toc, toc. O filho mais velho, também fanático, protestou:
- Pô!
Mas a bandeira lá ficou, e muito bem afixada nas grades da sacada.
Veio o primeiro jogo da grande final, e o time levou uma sapecada de dar dó: dois a zero, fora o baile, e jogando como mandante. A torcida acusou o golpe. Vaias no final do jogo, explicações do técnico, pequenas torcedoras apareceram na tevê numa desolação aparente e num choro inexplicável e precoce. Tinha a volta, no domingo seguinte, quando o time precisava ganhar de uma diferença de três gols para ficar com o título. Senão seria a vergonha, a tragédia, o fim do mundo.
Na casa, ninguém titubeou: apesar da derrota, a bandeira permaneceria onde estava por mais uma semana, num sinal de esperança na virada e fé na capacidade histórica do clube em superar-se e virar resultados desfavoráveis. Santos, o time da virada. Santos, o time do amor. Este, o nosso lema. Mais um.
Ao longo da semana, a expectativa foi crescendo, a  confiança também. A bandeira na sacada seguia firme em sua obrigação de representar a certeza da vitória.
Até que chegou o domingo do jogo. Todos levantaram da cama mais cedo do que o habitual, e quando o mais velho abriu a porta da sala para alimentar os cachorros, soltou um grito desesperado e alarmante, que arrancou da cama os que ainda nela estavam e assustou a mãe, que veio ao seu encontro com o coador pingando pela casa o resto do café que faltava passar. O menino repetiu o mesmo grito, cheio de indignação:
- Pô!
O que se viu foi um espetáculo terrível. A sacrossanta bandeira alvinegra totalmente destroçada, rasgada, mordida, jazia ao chão, e seu imaginário sangue escorria violentamente do corpo inerte, confundindo-se ao rubro da lajota do piso. Kuka havia, durante a noite, na falta do que fazer, arrancado o manto e simplesmente o dizimado, como se ele não passasse de um trapo qualquer, de um ordinário pedaço de pano sem função nenhuma a cumprir neste mundo.
Kuka olhava alheio a tudo  e, achando que aquele raro ajuntamento de pessoas à sua frente era motivo de festa, começou a querer brincar, no que foi imediatamente repelido pelos presentes. Tomou até um chega pra lá do caçula, que desta vez não disse nada.
A família se reuniu diante da mesa do café para resolver o que fazer. O pai propôs devolver o animalzinho, cujo crime merecia, sem dúvida, julgamento sumário e pena capital. A mãe foi contra. Os meninos olhavam para baixo e não se manifestaram, nem olharam para ninguém. Tinham, aparentemente, perdido o apetite para sempre. A menina do meio –eram três, os filhos- se manifestou pela primeira vez:
- Acabou a geléia?
Os restos do corpo sem vida da bandeira jaziam sobre a poltrona da sala, à espera da decisão do que fazer com o cão. Lá fora, Tóbi reclamava das brincadeiras sem propósito e inoportunas de Kuka.
Num rápido e democrático plebiscito, a resolução tomada foi a seguinte: se o time ganhasse o campeonato, Kuka ficava. Se perdesse,  teria sido muito provavelmente ela a grande responsável pela derrota, e não havia outro jeito: ela seria expulsa de casa.
Kuka acabou ficando, porque o time ganhou o jogo, mas perdeu nos pênaltis. Ganhou, mas não levou. Vice, portanto. E no momento em que o meia direita Paulinho se preparava para bater o último pênalti e dar a vitória ao time adversário, o pai deu uma olhadela, por acaso,  pela janela da sala, e viu que Kuka, decidido, tentava puxar a toalha de mesa do varal.

domingo, 6 de abril de 2014

JUREMA E O PONTA-ESQUERDA JAPONÊS

foto: prof-guilherme.capesp.org

Benilson Toniolo

Jurema era loura, alta, olhos verdes e um pouco feia. Simpática, como se diz. Mas tinha um corpão pra ninguém botar defeito. Mulherão estava ali. Recém formada no curso técnico de tradutor e intérprete, lecionava espanhol e português numa escola municipal. E tinha um corpão, é bom que se repita. Uh.
Conheci-a numa exposição de arte. Desempregado, inadimplente e sem dinheiro, mas simpatiquinho e metido a intelectual, eu comparecia a todos os eventos para os quais era e não era convidado: lançamentos de livros, aberturas de exposições, palestras, instalações, e ficava ali, bestando pra ver se conhecia alguém interessado em ler meus desinteressantes poemas, me dar um emprego ou, no caso de uma mulher bonita, sair para dar um passeiozinho no calçadão da praia.
Alguém nos apresentou, uma risadinha aqui, outra ali, e começamos a sair. A coisa andava muito bem, progressos relevantes a cada saída indicavam que faltava pouco para nos conhecermos mais intimamente, por assim dizer. Como diria o velho Gonzagão, “mulher querendo é bom demais”. E Jurema dava claros sinais de que, sim, ela queria. Faltava pouco, portanto. Se emprego estava difícil e minha poesia não desempacava, pelo menos no amor eu estava me dando bem. Feia, não. Arrumadinha. E tinha um corpão.
Só havia uma coisa que me empolgava mais do que o namoro com a Jurema: a boa fase do time do Santos no Campeonato Paulista daquele ano. Vínhamos há oito anos sem ganhar um campeonatozinho sequer, uma seca danada –que duraria mais alguns anos, e justo naquele ano o time parece que embalava. A zaga era pouco confiável, com Camilo e Pedro Paulo, ambos revelados na base; os laterais marcavam e apoiavam com eficiência (Ïndio na direita e Marcelo Veiga na esquerda), o meio campo não comprometia e, no ataque, Almir e Paulinho McLaren barbarizavam as fortes defesas adversárias (a saber: XV de Jaú, Ferroviária de Araraquara, Francana e América de Rio Preto, entre outros), mas o maior destaque era na ponta-esquerda: um improvável japonês chamado Kazu. Japonês de verdade, do Japão mesmo, que sabe-se lá como acabou desembarcando na Vila Belmiro por um desses mistérios que só o futebol explica (ou não explica).
Kazu de vez em quando jogava muito. Baixinho, pernas grossas, driblador, fazia tudo olhando para baixo. Corria, passava, lançava, finalizava. Chutava de esquerda com efeito. Estava sempre sorrindo. O lateral vinha, dava uma sarrafada no joelho dele e o Kazu levantava e sorria. O goleiro saía na bola, dava um cascudo na cabeça dele e o Kazu sorria. Aquele jeito japonês. Faltava apertar a mão do adversário e agradecer pela porrada. Tinha feito dois gols decisivos nos últimos dois jogos –o que para nós, na fase em que o time andava, já era quase o caso de fazer um apelo ao Presidente da República para naturalizar o cara e mandar pra Seleção Brasileira.
Numa daquelas situações que só o destino e os responsáveis pela tabela da Federação Paulista de Futebol podem produzir, o próximo jogo seria em casa, contra o Guarani de Campinas, em plena segunda-feira à noite. Dia de jogo, todo mundo sabe, é quarta, quinta, sábado e domingo. Aquele jogo foi marcado para uma noite de segunda. Vendi uns livros num sebo (Victor Hugo, Jorge Amado e outros de menor calibre) do Centro da Cidade, reservei o dinheiro do ônibus e do ingresso e comecei a me preparar para sentar na arquibancada da Vila pra ver o Peixe ganhar do time que, naquele momento, era um dos líderes di campeonato. Era noite de Santos, era noite de Kazu, era noite de Vila lotada.
Até tinha me esquecido da Jurema. Prioridade é prioridade, meu amigo. Entre o Santos e ela, a Jurema que esperasse. O time naquela fase, e eu ia perder por causa de mulher? Tudo bem, tinha um corpão. Mas era o Santos. E na Vila. E era o Kazu.
Santos é muito quente, todo mundo sabe. A gente fica meio à vontade. Daí que, para o embate daquela noite, a indumentária escolhida foi a bermuda única, a camisa do Rei –a dez- e chinelos. Porque facilita na hora de comemorar.  Chinelo não tem cadarço. Vou saindo de casa, o coração já dando os pulos de quem vai ao encontro da mulher amada –no caso, o Santos- e o telefone toca. Era Jurema, toda chorosa. Que tinha que falar comigo. Que não era nada grave, mas que tinha que ser naquele dia. Ou melhor, naquela noite. Que ia me encontrar, se fosse o caso, onde eu estivesse. Que isso. Que aquilo. Que aquilo outro. Que era importante. ‘Mas tem que ser hoje, Jureminha?’. Tinha. Fazer o quê?  E ela falava com uma vozinha tão triste, coitada, que sequer me ocorreu comentar sobre o jogo.
Marcamos para as sete e meia, no ponto de ônibus defronte à balsa. Pensei: ‘pode ser que ela me dê o cano. Não venha, desista, falte ao encontro’. Uma luz de esperança brotou em meu coração. ‘Se ela não aparecer, vou pro jogo!”. Por isso nem troquei de roupa. Camisa do Santos –a branca, claro, imaculada, chinelo e bermuda. Mulher, quando ama, não liga para essa besteira de roupa. Ela ama e pronto. E outra, e se ela não aparecesse e, na sorte, o circular 94, justo o que deixa a gente na porta da Vila, aparecesse? Melhor não arriscar. Vai com essa roupa, mesmo.
Cheguei ao local do encontro com antecedência de dez minutos. Sete e meia, nada de Jurema aparecer. Sete e trinta e cinco, nada. Sete e quarenta, vem vindo um ônibus. E era justamente o meu. Circular 94, o que me deixaria na frente da Vila. Dentro, um monte de gente com a camisa do Santos. Torcida unida, fase boa, contra o líder do campeonato, vínhamos de duas vitórias consecutivas, time jogando sem desfalques, jejum de títulos... A Jurema que me desculpasse, mas nem eu nem o Santos tínhamos culpa se ela não cumpria horários –apesar de aquele ser sua primeira atrasada comigo. Embarquei. Santos, sempre Santos.
O jogo foi difícil, como se previa. O adversário era duro, marcava bem e atacava com contundência. Até que houve um lançamento do lado esquerdo –o lado em que eu estava- que caiu justamente nos pés dele. Kazu. Ele dominou com o pé esquerdo, trouxe para o direito, deu um corte no marcador e bateu de primeira. Um a zero. Festa na Vila. Assumíamos a vice-liderança do campeonato. Não tinha para ninguém. Naquele ano, o caneco voltaria para a Baixada. Fim de jogo. Nos arredores do estádio, os torcedores gritavam; ‘chora, freguês: é gol do japonês!”. Santos, sempre Santos.
Fui caminhando até a praia, peguei o ônibus até a balsa. Atravessei o Atlântico a bordo da catraia e fui percorrendo a pé o caminho de casa, pensando no estádio lotado, na euforia da torcida, nos cantos, na vitória, no Kazu. E fui lembrando de outras coisas: do desemprego, da falta de dinheiro, do futuro incerto, e... da Jurema. E eis que, ao virar na primeira esquina, quem é que vejo, caminhando resoluta na minha direção? Pois é. A própria. Linda num vestidinho verde, provocante, decotado, justo, cabelos presos, olhinhos verdes destacados por um negócio que não sei se era sombra, rímel, enfim. Alcinhas deixando o ombro à mostra. Batom rosa. Sandalhinha de saltinho. Simpatiquinha. Mas um corpão. Foi direto:
- O que aconteceu?
- Te esperei, ué, você não apareceu...
- Mas me esperou a que horas?
- Sete e meia, a gente não marcou sete e meia? Esperei, e como você não apareceu, fui pro jogo.
- Mas eu cheguei às sete e vinte!
- Não é possível, Jureminha. Sete e vinte e cinco eu estava no ponto, te esperando!
-  Mas você ia me encontrar com essa roupa? Com roupa de futebol?
- Qual o problema, meu anjo (aquele vestidinho verde merecia o celestial chamamento)?
- Imaginei que, para sair comigo, você se arrumaria um pouco melhor.
- Espera um pouco. Em qual ponto você estava?
- O da farmácia, ué. O de sempre.
- Ah, então foi isso, Jureminha! A gente se desencontrou! Eu estava te esperando no outro ponto, o da padaria.
- E por que você não me avisou que desta vez você estaria me esperando num outro lugar?
- Avisei, meu bem. Você que não prestou atenção.
Primeira –e única- mentirinha alvinegra da noite.
Ela me explicou que saiu perguntando para as pessoas que encontrava pela rua onde ficava o endereço que trazia na agenda –que era o meu. Foram indicando, indicando,m ela acanou não achando, desistiu e acabamos topando um com o outro ao acaso, ali na esquina, ambos voltando para casa, ela furiosa e agora vitoriosa, eu vitorioso e agora sem saber onde enfiar a cara.
Jurema insistiu para que, em função do adiantado da hora (quase meia-noite), eu a acompanhasse na volta até sua residência.  Numa situação daquelas, não tinha como recusar. Além do quê, podia até ser que o assunto que ela tanto queria tratar comigo fosse, finalmente, aquele que eu tanto esperava que fosse logo acontecer, e ela, decidida, passaria por cima da raiva que certamente sentia, e que seu desejo por mim fosse mais forte que um mal-entendidozinho futebolístico. Se fosse isso, seria a glória. Teria, na mesma noite, a liderança do campeonato e Jurema todinha em meus braços.
Fomos andando de volta até a balsa –que, àquela hora, só saía de hora em hora, assim como os ônibus. Quando quase duas horas depois, já na frente do prédio em que morava, ela resolveu desenvolver para mim uma verdadeira aula de literatura espanhola e gramática da língua portuguesa –das quais eu não entendia bulhufas. Num dos raros intervalos, arrisquei:
- Mas o que é que você queria falar comigo, afinal, de tão urgente?
- Depois eu falo. Mas então, o Unamuno...
Não falou. Ela me liberou às quatro da manhã, com a garganta seca de sede, com fome, dor de cabeça, sem me dar nem um beijinho e sem nem um tostão no bolso pra pagar a passagem de volta –o que nem adiantaria muito, porque àquela hora os ônibus já não circulavam mais. Caminhei do canal dois até a balsa, o que deve dar aí, por baixo, uns cinco quilômetros, mais ou menos. Quando cheguei em casa, já amanhecia para os lados do cais.
Na semana seguinte, Kazu torceu o joelho esquerdo –logo o esquerdo-  e o Santos ainda ganhou uma ou duas partidas até ser desclassificado na semi-final.
Jurema, ainda vi uma única vez, na praia, na garupa de uma moto conduzida por um garotão que, por sinal, parecia muito bem vestido. E que não trajava –pelo menos não parecia- o sagrado manto alvi-negro.

ARTE E CIÊNCIA DE CATAR PINHÃO

                                                              foto: jairclopes.blogspot.com                                                              
Benilson Toniolo

Numa manhã de um domingo magistral de outono, sem sequer uma nuvenzinha no céu azulzíssimo, um esplendor que só o céu de Campos do Jordão é capaz de proporcionar, saímos, Simone e eu, a catar pinhão.
Paramos nas ruzinhas pouco movimentadas de Capivari, sacola na mão, a buscar os mais graúdos. Já foi mais fácil catar pinhão nesta Cidade. Hoje em dia, a concorrência dos que catam a semente para vender na avenida (aliás, como aumentou o número de vendedores de pinhão!) faz com que a gente tenha que contar ainda com um bocado de sorte para pegar uns poucos graúdos. Quer dizer, antigamente a gente concorria com os serelepes. Hoje, tem também os inúmeros vendedores. Mas, vá lá, tem pinhão pra todo mundo.
Enquanto exercitava aquele abaixa e levanta característico da operação, fiquei pensando e concluí que poucas manifestações sejam talvez mais jordanenses do que sair pra catar pinhão. Você já parou pra pensar em quantas gerações de famílias alimentaram –e se alimentam, e se alimentarão- o hábito de sair de casa para, simplesmente, juntar as sementes que as imponentes araucárias despejam solenemente sobre o doce solo desta Cidade? Trata-se quase de uma celebração, um momento de reencontro  com a terra, um ato de humildade em que reconhecemos a superioridade da natureza a noss dar prazer e nos saciar a fome e o desejo pelo alimento.
O jordanense ama a sua terra, e tudo o que dela provém.  Felizes os que reconhecem a generosidade do Criador em dotar Campos do Jordão de tudo o que há de mais belo e harmonioso. Campos do Jordão é um eterno hino de amor, e o simples ato de sair para catar pinhão pode ser considerado um gesto de respeito e gratidão por tudo de bom que nela existe.
Não há como não se emocionar com o contato que temos com a terra, a proximidade do mato, da grama, da árvore, o cheiro verde e fresco que nos atinge em cheio no peito, na boca, nos olhos, no nariz, a felicidade de vislumbrar alguns metros adiante um pinhão enorme, graúdo, apetitoso, que se oferece ao toque de nossos dedos como a mãe que oferece do próprio corpo o alimento aos seus filhos queridos.
Ainda mais em tempos como o que vivemos, quando a pressa, a pressão por resultados, o trabalho insano, as contas a pagar, as desavenças familiares e profissionais, as falsas amizades, a calúnia, a difamação, a má-fé, o desamor e o desrespeito parecem prevalecer entre as pessoas e querer destruir a cada dia nossos valores. Num mundo como o que vivemos hoje, um simples ato de aproximação com a natureza pode ter o condão de renovar nossas forças para a dureza do cotidiano.
Portanto, aí vai uma dica. Aproveite o outono para aprender a amar –ou amar de novo- Campos do Jordão. Se já a ama, ame mais ainda. Preste atenção na sua natureza, nos seus contornos, nas suas cores e formas. Deixe de olhar para baixo, e olha para cima. E, sobretudo, saia para catar pinhão numa manhã qualquer, ao lado da pessoa amada, e deixe que a generosidade das coisas simples e desburocratizadas tome lugar em seu coração jordanense.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

DAMIANA


Benilson Toniolo

Chama-se Damiana e apresentou-se como a nova  garçonete da pastelaria que freqüentamos em Abernéssia. Baixinha, morena, jovem ainda. Vinte e dois, vinte e três anos. Nordestina, que nessas adivinhações raramente me engano. Só não sabia de onde, nem quis perguntar. Cantarolava baixinho, ares de boa gente, recém-chegada à cidade.
Acabada a rodada de pastel, pedi uma tapioca.
- O senhor quer de quê?
Pedi a de sempre. Coco com leite condensado. Passado um tempinho, me trouxe na cestinha.
- É assim que o senhor quer?
Respondi com um sorriso.
- Não é a que se come na Paraíba, mas tá bom.
Ela ampliou um sorriso maior que o tamanho da tapioca.
- O senhor é da Paraíba, é?
- Não, mas morei lá por dois anos. João Pessoa. Conhece?
- Conheço não. Nunca fui na Paraíba.
- Você é de onde?
- Pernambuco.
- Que lugar?
- O senhor conhece Pernambuco?
- Morei lá perto, como disse. Conheço um pouco. De qual cidade você é?
- Goiana.
- Então, quando a gente sai da Paraíba pra Pernambuco, passa em Goiana. Faz tempo que você veio pra cá?
- Faz não. Faz dois meses.
- E está gostando?
- Aqui é bom. Mas não sei...
- Está estranhando? Muito frio?
- Tem o frio, sim, mas não é isso.
- O que é, então?
- É que aqui é esquisito, moço. Diferente de lá.
- Bom, diferente é, mesmo. Você mora com quem aqui?
- Sozinha.
- E veio fazer o quê, aqui?
- Ah, vim porque disseram que era bom. Aí eu vim. Lá não tinha emprego, não tinha nada. Aí eu vim. Mas não sei.
- Você é casada?
- Não.
- Tem filhos?
- Não.
- Nem lá, em Goiana?
- Tenho não. Tinha um paquerinha, só.
- E seus pais? São vivos?
Damiana deixa de sorrir. Baixa os olhos e, com os dedos indicador e polegar de ambas as mãos, começa a enrolar a ponta do avental. Nervosa, começa a chorar.
- Eu tenho muita saudade deles, moço. Muita saudade.
- E você fala com eles?
- De vez em quando eu telefono. Eles não usam computador, senão eu ia numa lan-house e falava com eles pela internet. Mas eles não sabem usar, e não é sempre que meus irmãos estão em casa pra ligar o computador e ajudarem eles a falar comigo. Então eu telefono. Olha, o número do meu celular ainda é de lá.
- Quais são seus planos aqui?
- Queria estudar, arrumar um emprego, crescer na vida.
- E lá não dá pra fazer isso?
- Lá não tem quase emprego não. Mas também, ficar aqui e ganhar tão pouquinho como eu ganho aqui...
- Este é seu primeiro emprego na cidade?
- É, sim. Foi fácil arranjar. No primeiro dia que saí procurando já arranjei este aqui. Aqui é bom, o pessoal que vem aqui é educado, trata bem à gente.  Faz um mês só, que estou aqui. Já registraram em carteira, já está tudo certinho.
Ela sorri, dá as costas, volta para perto do caixa e limpa o rosto com as costas de uma das mãos. Em breve para de chorar, volta a sorrir, mas de forma mais tímida. É simpática. Feiosa e simpática.
Peço a conta, ela traz,  vou ao caixa tratar do pagamento da despesa. Saio e, na calçada, me dirijo novamente a ela.
- Faz o seguinte, menina. Vai embora. Vai ficar do lado dos teus pais. Aproveita enquanto ainda estão vivos.  Volta pra tua casa, pra tua gente, pro teu povo. Não fica aqui, não. Fica do lado deles. Ninguém merece ficar separado de quem gosta, principalmente de pai e de mãe. Dá esse presente pra eles, e pra você também. Se um dia você quiser voltar para cá, para esta cidade, você volta. Mas agora, não. Agora você tem que voltar para o lado do teu pai e da tua mãe.
Ela sorriu de novo e voltou a armazenar água no canto dos olhos. Balbuciou:
- Eles aqui chamam a gente de baiano. A gente não é baiano. Não temos nada contra baiano, não, mas a gente não é baiano. E eles falam de um jeito com a gente, moço... 
Nunca mais perguntei por Damiana. E cada vez que entro na pastelaria me sinto reconfortado ao ver que ela não está mais ali.



JOGO DE BOTÃO: UMA REFLEXÃO SOBRE O TEMPO



Benilson Toniolo 

- Moço, me veja cinquenta centavos de celulóide, por favor.
O balconista depositava sobre o balcão de vidro uma caixa repleta de vidrinhos de relógio de pulso, pra gente escolher. Cinquenta centavos dava uns cinco ou seis celulóides, ou seja, metade de um time. Na semana que vem, teríamos que garimpar mais uma moeda com a mãe pra comprar o que faltava pra montar a equipe –moeda que a mãe ganhava passando roupa semanalmente na casa das patroas.
Recolhidos os dez celulóides, era hora de montar o time. Na página de Esportes da ‘Tribuna’, vinham as imagens em preto e branco dos jogadores em ação. Fotos de jogos, de treinos, de entrevistas. A operação era complexa: pegava-se outra moeda e botava-se em volta do rosto do atleta. Com uma lâmina, dava-se a volta com a moeda bem presa na foto, e tínhamos o jogador pronto pra colar no celulóide. Os melhores –Serginho Chulapa, Paulo Isidoro, Pita, Sócrates, Zico, Nunes e Dinamite, entre outros eleitos, iam parar nos maiores celulóides. Zagueiro também tinha que ser grande: Márcio Rossini, Oscar e Toninho Carlos. Os laterais e pontas –pela ordem, Toninho, Gilberto Sorriso, Zé Sérgio e Serginho Dourado, que também atendia pela alcunha de Serginho Segundo, pelo fato de Chulapa ser não somente o Primeiro, mas também o único - em geral deveriam ser menores, porque levavam a bola pelas pontas e tinham que, muitas vezes, passar em meio aos marcadores sem cometer falta.  Exceção eram Éder e Nelinho que, pela força do chute, deveriam ser grandes. Mas estes apoiavam pouco, permanecendo mais recuados, reforçando a marcação e prontos pra bater falta, cada um do seu lado.
Colar os rostos dos jogadores do lado de dentro dos celulóides exigia uma habilidade, muitas vezes, superior à necessária para o domínio de bola. Fabricávamos a cola com farinha de trigo, porque a cola comprada na papelaria no começo do ano letivo deveria durar até o fim das aulas, devendo, portanto, ser economizada para dar conta dos trabalhos escolares. Com muito cuidado pra não borrar a cara do jogador, depositavam-se pequenas quantidades da cola caseira nas bordas da foto.
O jornal vinha embrulhando as compras da feira ou do açougue. Quando o comerciante ia embrulhar as compras, a gente esticava o pescoço pra ver se o jornal era da página de Esportes. Se fosse, era uma danação. Mal esperávamos a mãe dispensar o jornal. Ainda na cozinha, passávamos à análise das fotos –o perfil dos jogadores, os repetidos. O problema era quando o suco da carne vazava e estragava a foto. Nestes casos, deixava-se a foto secar, para depois colarmos o jogador com cheiro de carne ou de peixe. Frango se comprava em avícola. Não, ninguém ligava de jogar botão com jogador cheirando mal. Bola pra frente. Vai fedido mesmo. O que vale é bola na rede.
A Placar, que era –e ainda é- a única revista de futebol no Brasil, era cara demais. Não dava.
Gostoso mesmo era fazer o goleiro. Uma caixa de fósforos vazia cheia de areia dentro, reforçada com fita isolante ou esparadrapo. Na frente da caixa, a foto do kíper. Rodolfo Rodríguez, Leão, Valdir Peres, Raul, Carlos, Neneca, Jairo, Marolla. Dificilmente o goleiro sorria. Goleiro bom tem que ter cara de brabo. Braços cruzados, cenho franzido, luvas gigantes. Mazaroppi, Benítez, João Leite, Fillol.
A bola era um pequeno disco de diversas dimensões. Na falta dela, valia botão de camisa, comprimido e dadinho. Gol de Coristina chegava a derrubar a trave. AAS era ruim, porque ia desmanchando ao longo do jogo.
A batedeira deveria ser usada, preferencialmente, na vertical. Tinha que ser rígida, robusta, inflexível. Com ela se controlava direção, velocidade e força. Praticamente um mestrado em Física colocado em ação na luta pela posse de bola.
Havia os inimigos terríveis. Os amigos vinham pro jogo com artilharia pesada: Baroninho, Baltazar, Carlos Alberto Seixas, Ataliba, Casagrande. Perder do Corinthians era a morte. Crise na certa. Uma semana sem mexer na caixa onde guardávamos os times. Até que, certo dia, voltando da escola, olhava a caixa debaixo do sofá, de soslaio.  Vamos treinar, minha gente, que vai ter revanche e, se Deus quiser, neguinha –que era como chamávamos o terceiro jogo, provocado quando cada time ganhava uma partida e a série estava empatada.
Juntando-se os primos, era campeonato na certa. Antes e depois do almoço, no insubstituível campo da mesa da cozinha. Os adultos iam conversar na sala. Cozinha era lugar de futebol, ora bolas. A tarde toda.
Os jogos eram narrados por nós mesmos, os jogadores, com a vibração dos grandes narradores. Osmar Santos, Luciano do Valle, Peirão de Castro, Eduardo Baraçal. Sabíamos, e repetíamos ao longo da transmissão, as vinhetas das rádios todas: Globo, Guarujá, Atlântica, Rádio Clube de Santos, Cultura.  Ruídos do fundo da garganta pra imitar o barulho das torcidas. Jogos de dez gols, de seis, de três. Quem fizer, ganha. As mães tinham sossego para cuidar da casa, da roupa, da janta. Vinha a noitinha, e nós lá, ajoelhados na varanda, jogando futebol de botão. Nossa vida era essa: estudar, comer, dormir, jogar botão.
Um dos tios ensinava as técnicas: bater de esguelha, de caiafa, ou como chamávamos, “de-révis’. Bola no ângulo, rasteira, no canto, entre os zagueiros. Não vale gol de antes do meio-de-campo. Par ou ímpar pra ver quem dá a saída. Anota o número do jogador que fez o gol. Artilharia registrada na última folha do caderno escolar. Quebrou, não tem reserva. Joga com um a menos. Esse gol do Sócrates parece que foi ele mesmo quem fez. Gol do Biro-Biro não deveria valer. Acabou o campeonato? Guarda a tabela. Dois-ou-um.
Se éramos crianças mais felizes que as de hoje? Sinceramente, não creio. Certamente os meninos de hoje também o são, e pode até ser que, no futuro, alguns deles acabem escrevendo sobre as emoções que seus jogos eletrônicos lhes proporcionaram.
Mas é que, junto com as memórias do jogo-de-botão, o que nos prende mesmo é a saudade. A saudade do tio, da tia, da chuva depois do almoço, dos primos. Os sonhos com goiabada, o cheiro de café, o ovo cozido comido ainda na casca quente, o bolo de laranja com açúcar em cima, os adultos fumando e conversando na sala.
E é por isso também que me emocionei tanto, dia desses, ao receber o convite inesperado do meu priminho Caio que, caixinha na mão, em meio a uma recente festa de aniversário, me perguntou: ‘vamos jogar botão?’. Jogamos, sim. Três partidas, e perdi as três. Tinha torcida, inclusive. Juntou gente em volta para ver que, na família, jogo de botão é tradição que não morre. Além do mais, o Caio é craque, e anda treinando, o danado, em casa, com os pais.

E também é por isso que, agora, retiro da caixa os jogos de botão dos meus filhos e os distribuo sobre a mesa da sala de jantar para mais uma partida. Para poder ouvir e sentir de novo os sons e os cheiros da infância, que me ocorrem a cada vez que o disco achatado e preto supera os jogadores adversários, e à meia altura, entra no canto direito do gol do meu adversário –que hoje é um só, e chama-se Tempo. E neste jogo, apesar dos gols marcados, sinto que vou acabar perdendo...

domingo, 12 de janeiro de 2014

AS CABEÇAS DE SÃO LUIS, AS CABEÇAS DE BRASÍLIA



Benilson Toniolo

Não assisti às imagens do vídeo veiculado pela Folha dos detentos do presídio de Pedrinhas, no Maranhão, mostrando as três cabeças recém decapitadas de outros presos. Não tive coragem . Nem precisava: no dia seguinte, o jornal apresentava em sua primeira página a foto das cabeças separadas dos corpos. Foi terrível, mas não foi inédito. Lembro-me do fato narrado por um amigo envolvido com Literatura aqui no Vale do Paraíba, que é agente penitenciário em Tremembé, e que me narrou um fato semelhante havido recentemente na unidade prisional onde trabalha. Durante a visita de uma juíza ao local, a cabeça de um detento foi atirada na direção da visitante enquanto ela transitava por um dos corredores, na companhia dos responsáveis pela penitenciária.
Na continuidade dos protestos dos presos de Pedrinhas, ônibus foram incendiados por ordens de facções existentes dentro do próprio presídio, o que culminou na  morte da menina Ana Clara, de seis anos, queimada viva por não ter conseguido descer do ônibus antes de os criminosos atearem fogo ao coletivo.
Depois disso, a imprensa noticiou que o governo do Estado do Maranhão iniciou um processo de licitação para compra de toneladas de itens alimentícios como camarões, lagostas, uísque escocês e champagne, para abastecimento das casas da governadora Roseana Sarney. O custo aproximado da licitação é de cerca de um milhão de reais.
A governadora Roseana veio a público declarar que a explosão da violência no Estado se deve ao fato de que a população está menos pobre, o que, segundo seu raciocínio, aumenta a criminalidade, que por sua vez é um problema nacional. Já a decapitação é fruto do complicado sistema prisional brasileiro, que requer reforma imediata. Ou seja, ela, enquanto máxima mandatária do Estado, nada pode fazer, por se tratar de um problema nacional –de competência, portanto, do Governo Federal –que até o momento não se manifestou, ao contrário do resto do mundo, incrédulo com tamanha violência, crueldade e inércia do governo.
O Governo do Estado do Maranhão recebeu um número incontável de páginas, ao longo dos últimos quatro anos, como resultado de visitas feitas ao presídio por instituições de Direitos Humanos, alertando para as condições subumanas da unidade de Pedrinhas. Uma reunião chegou a ser realizada com a Governadora para tratar do assunto, e a resposta foi que haveria ‘um aporte financeiro substancial que permitiria ao governo recuperar esta e outras unidades em todo o Estado’. Nada aconteceu, até que as mortes, que já chegam a 62 desde o ano passado, passassem a ser noticiadas, bem como o estupro coletivo das companheiras dos detentos que participam das chamadas ‘visitas íntimas’, que acabaram suprimidas pelo excesso de violência.
Seria um caso clássico de intervenção federal, não fosse o fato de o PT contar com o apoio decisivo do PMDB –partido de Roseana- para conseguir a reeleição no pleito de outubro e manter o partido no governo pelo quarto mandato consecutivo. Intervir no Maranhão agora seria perder o apoio do clã Sarney num momento tão importante para dar andamento ao projeto de eternização do Partido dos Trabalhadores no comando do País. A cada ano que passa, o partido e suas estruturas corruptas, lascivas e perniciosas vão se enraizando nos subterrâneos do poder, tornando partido e governo uma coisa só e não distinguindo mais o que é uma coisa e o que é outra. Não só não aprenderam nada com o Mensalão, como continuam agindo diante de uma sociedade indiferente e ignorante, incapaz de reagir com dignidade e já acostumada a mostrar suas entranhas purulentas aos olhos do mundo.

                                                               ***

Adriano Laurentino de Araújo é servidor público do Senado e atua no serviço de publicações da Casa. Ganha 17 mil por mês e afastou-se do serviço por 90 dias para fazer um curso para aprender a navegar na internet e consultar planilhas.
Denise Dal Molin Izaguirre é servidora pública da gráfica do Senado, ganha R$ 16,5 mil por mês  e ficou afastada do serviço por 6 meses para fazer um curso de informática.
Joao Batista de Miranda Torres também trabalha no Senado. Ganha R$ 18 mil mensais e ficou três meses afastado do serviço para fazer dois cursos, um sobre ‘bullying’ e outro sobre a reforma ortográfica.
Já Márcia Vieira Pacheco ganha R$ 19 mil por mês como revisora taquigráfica e ficou 58 dias afastada do serviço para fazer um curso sobre filosofia e existência.
Durante os afastamentos, os salários dos servidores foram pagos integralmente. Até porque o Senado, que não é a casa da mãe-joana, não paga os cursos. Pensa que a vida de funcionário do Senado é moleza?
A servidora responsável pela concessão das licenças chama-se Elga Mara Teixeira Lopes, que atualmente exerce o cargo de diretoria-executiva do ILB – Instituto Legislativo Brasileiro. Ela chegou a dirigir a Secretaria de Comunicação do Senado, nomeada pelo senador José Sarney, e foi demitida em 2009, após ter sido denunciada por trabalhar em campanhas eleitorais para a família Sarney e para o PT sem pedir afastamento do cargo.
No mesmo dia de sua demissão, foi nomeada como assessora especial de Sarney, sendo depois indicada para presidir o ILB.
Quem quiser conferir, basta dar uma olhadinha no caderno ‘Poder” da Folha de hoje. Se tem mentira nessa história, não é culpa minha.

                                                                         ***


São Luís do Maranhão e Brasília: duas capitais a escancarar as entranhas de um gigante que, depois de junho, voltou a dormir profunda e silenciosamente.