sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A MULHER DAS FOTOS

Benilson Toniolo

Tem uma mulher aí querendo saber se o senhor pode atender, disse a recepcionista.
- Assim, sem marcar horário? Estou no meio da redação de um documento importante...
- Ela disse que é rápido.
- Mas o que é que ela quer comigo?
- Parece que quer mostrar umas fotos antigas...
- Parece que quer ou quer?
- Quer.
- Fotos?
- É, fotos da cidade. Antigas. Quer mostrar.
Ah, a mão-de-obra de hoje em dia... Um bando de despreparados, incapazes de transmitir de forma eficiente um mísero recado.
- Pede pra entrar.
É uma senhora de idade relativamente avançada. Setenta, oitenta anos, talvez um pouco menos, trazendo no rosto as marcas característica da passagem nem sempre agradável destes tantos anos. Baixinha, vestido amarrotado, traz uma bolsa pendurada e, nas mãos, um envelope pardo grande.
Cumprimento com a cortesia de sempre, convido para sentar, ofereço um café –que ela recusa por causa da úlcera nervosa. Puxo papo, pergunto onde mora, se é daqui mesmo e arremato dizendo que a rua que dá acesso ao bairro dela está muito melhor agora do que antes.
Ela concorda com umas coisas, discorda de outras, parece não gostar muito de conversa fiada.
- A recepcionista me disse que a senhora queria me mostrar umas... umas fotos antigas, parece...
- Ah, sim. O senhor quer ver?
Querer, não quero, minha senhora, mas vamos fazer o quê, não é verdade? A senhora já veio, já se fez anunciar, já entrou, já sentou aqui e já me fez parar o que estava fazendo.
Estende o braço, me oferece o envelope aberto, peço licença e retiro uma folha com quatro fotos antigas coladas. Embaixo, está escrito de forma também antiga, com uma caligrafia antiga, a frase ‘lembrança da turma que não quis ficar’, seguida de um número – 1956. Nas quatro imagens em preto e branco, um grupo de pessoas sorridentes faz pose em um lugar que se parece com um morro. Muitas flores, um automóvel, algumas crianças. Umas quinze pessoas, calculo.
- Isso é aqui em Campos?
- Sim, aqui. Minha casa agora é atrás desse morro aí. O segundo.
Permaneço olhando, aproximo as vistas, simulo interesse.
- São seus parentes?
- Não sei. Encontrei numa caixa de minha mãe. Fui procurar umas fotos hoje, e encontrei isso aí.
- Interessante.
Bingo. Achei o que dizer.
- Se a senhora achar que deve, deixe este material comigo, a gente digitaliza e põe no acervo. Seria interessante se a senhora conseguisse identificar quem são...
A mulher está chorando. Não é um choro convulsivo, mas é um choro doído. Curto –por isso, parece, mais dolorido. Tem a mão direita a esconder os olhos. Não quer que eu veja que ela chora. Deposita os óculos sobre minha mesa. Silencio –que é a melhor forma de reagir quando alguém começa inesperadamente a chorar na nossa frente.
- A senhora quer um copo de água? Água com açúcar? Café? Droga, esqueci da úlcera.
- O senhor me desculpe.
- Não, imagina. Posso ajudar em alguma coisa?
Ela se recupera, funga, procura um lenço na bolsa. Anuncia:
- Vou mostrar uma coisa para o senhor.
Outra, meu Deus? O que será agora?
Retira um outro envelope, branco, e tira uma foto de dentro. Me estende. É um homem jovem, de seus quarenta anos, de bigode e cabelos muito pretos, óculos escuros, camisa listrada de branco e verde, calça jeans, em cima de uma motocicleta parada, segurando um bebê. Imagino o pior.
- Quem é?, pergunto.
- É meu filho, doutor.
Não, eu não sou doutor, mas nada lhe digo. Não é o momento.
- Como se chama?
- Augusto. É bonito, o senhor não acha?
- Sim, um sujeito bem apessoado, vendendo saúde. Esta foto também é aqui em Campos?
- É, sim, doutor, lá em casa. Tiramos faz mais ou menos um ano.
- Ah, sim.
Não, não vou perguntar. Se quiser, ela que diga. E diz.
- Hoje é aniversário de morte dele. Quatro meses. Eu não agüento...
Agora chora mais forte. Saio em busca de um copo de água. Volto.
- Toma, bebe um pouco. A senhora tem que ser forte.
- É o que eu tento ser, doutor, mas não consigo. Não agüento mais chorar. Sinto muita falta dele. Depois que fiquei viúva, era ele que tomava conta de mim.
- E ele morava aqui?
- Não, morava em Minas, mas toda semana vinha me ver e trazia o menino.
- Seu neto?
- É, meu neto. Luis Gustavo, o nome dele. Esse aí da foto.
- Mas olha, a senhora tem que agüentar firme. Só tem o Luis Gustavo, de netinho?
- Não, tem uma outra, mais velha, de quinze anos, que faz tempo que não vejo. Do primeiro casamento dele. Mas essa mora longe com a mãe, não vejo quase. E o senhor sabe o que é essa criançada quando chega nessa idade, né, doutor? Não quer saber de pai, de mãe, de avó, de nada. Nem me telefonam, eu é que ligo no final de semana para saber como é que estão as coisas. A mãe dela, então, nem ao telefone vem para falar comigo.
- Mas a senhora vai a Minas, ver o Luis Gustavo.
- Não tenho coragem, doutor. Não tenho coragem. Como é que eu vou entrar de novo naquela casa sem ver meu filho? E são só quatro meses, é muito pouco...
- Mas a senhora tem que ir lá, visitar seu neto, não é verdade?
- Um dia eu vou, mas agora não. Acho que não posso. É que eu só choro, de dia e de noite.
- Tem que reagir, dona...
- Ana.
- Tem que reagir, dona Ana.
Devolvo a foto do filho morto. Ela guarda no envelope menor.
- Eu tento, doutor, mas é tão difícil. O senhor tem filho?
- Tenho, sim, dona Ana. Tenho, sim.
Poupo os detalhes.
- A senhora não quer um café, mesmo?
- Não, doutor, obrigada. O senhor vai ficar com a foto, então?
- Vou, sim. Deixa aqui comigo e pode vir buscar amanhã à tarde.
- Olha, o senhor me desculpe.
Me ocorre a Macabéa, da ‘A Hora da Estrela’.
- Não há o que desculpar, já disse. Está tudo bem.
Vou acompanhando a senhora até a saída. No pequeno trajeto, voltamos a falar da rua, do tempo, da cidade, das atrações.
- Olha, a senhora gosta de Arte?
- Gosto um pouco, sim.
- Então a senhora deixa aí o telefone com a secretária, que quando tivermos uma exposição eu convido a senhora, o que acha? Assim a senhora distrai um pouco.
- Mas essas exposições devem ser à noite, não?
- São, sim, dona Ana, em geral são à noite.
- É que eu não tenho carro. Dependo de ônibus, e lá no meu bairro tem pouco ônibus. Depois, sair sozinha é ruim.
Depois de uma pausa, ela volta a falar.
- E eu não vim aqui atrás dessas coisas.
Fazemos, ambos, um novo, lento e pesado silêncio. E quando percebeu que eu não faria a pergunta que me cabia fazer, ela arrematou.
- Sabe, o senhor lembra muito o Augusto. Eu nunca tinha visto o senhor, nem o senhor nunca tinha me visto. Mas um dia eu passava na rua, distraída, quando ouvi uma voz atrás de mim. Estremeci, porque eu tive a clara impressão que era meu filho Augusto falando. E parecia que ele falava comigo. E na hora me deu uma felicidade tão grande, tão maravilhosa, que o senhor não pode fazer idéia. Para mim, era como se ele não tivesse morrido, como se ele estivesse ainda aqui, e tinha me visto na rua, e tinha falado comigo. Então parei e fiquei esperando a voz aparecer de novo. E aí vi o senhor parado há alguns metros de onde eu estava, conversando com uma moça. O nome dela era Ana, pelo que eu vi. E aí o senhor falou de novo, e eu vi que não era o meu filho Augusto. Aí eu vi que era o senhor. E aí eu sofri muito aquela hora, doutor, porque era o senhor falando, e não ele. E quando cheguei em casa eu desabei a chorar de novo, porque eu já tinha prometido pra mim mesma que eu não ia mais chorar pela morte dele, e que eu ia ser forte e continuar vivendo a minha vida. Mas aí veio a sua voz. Por isso vim aqui. Para ouvir a voz do meu filho de novo.
Dona Ana parou de chorar. Até sorriu um pouco, enquanto contava sua história de amor a uma lembrança e a uma voz. Tinha mudado. A mulher que se despediu de mim com um aceno e um meio sorriso era muito diferente da que havia entrado, dois quartos de hora antes. Prova disso é nosso último diálogo.
- Dona Ana, como é que a senhora me descobriu aqui?
Ela olhou pra baixo, sorrateira, carinha de menina quando faz arte.
- Essas coisas a gente descobre, meu filho. Mulher, quando quer, descobre até o que não existe.
E saiu, prometendo voltar no dia seguinte para buscar seu envelope e ainda outras vezes, ‘pra gente prosear’.
Por fim, e uma vez que eu não era mais o ‘doutor’, e sim ‘meu filho’, acompanhei sua saída com o inevitável amuo dos olhos e do coração. Voltei à sala, retirei novamente a foto antiga do envelope e chamei a recepcionista: ‘escaneia isso aqui pra mim, por favor’.

A redação do documento importante teria que esperar até o dia seguinte.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O ANIVERSÁRIO DE DONA CIDA

Benilson Toniolo

Hoje dona Cida faz aniversário. Noventa anos, se não me engano. Há seis, foi-se embora a bordo do segundo AVC que lhe acometeu, assim, à surpresa. Ninguém esperava. Tinha sofrido o primeiro, alguns dias antes.  Estava com a filha no médico, no pronto-socorro, quando o segundo golpe a derrubou. Fatal.
Sim, ela faz falta. Com suas manias, suas histórias, seus exageros, suas verdades inventadas, ela faz falta. O que mais me chamou a atenção quando de sua partida foi a quantidade de pessoas com quem eu me encontrava na rua que, falando dela, diziam: ‘ela me ajudou muito’. E desatavam num choro sentido.
Tinha muitas amigas, todas leais. Dona Cida as ajudava quando podia, e quando não podia também. Quando a família desconfiava que ela exagerava nos ajudatórios, ela tratava de inventar uma história tão triste a respeito da situação do ajudado, que ninguém podia falar nada. Ser cristão é ajudar a quem precisa, não é? Então, pronto. Vai reclamar com Nosso Senhor, que a ordem quem deu foi ele.
Na ceia de Natal, convidava gente que nem todos da família conheciam. O que perdeu a mãe havia pouco tempo. O sem emprego. O moço que se livrou das drogas e que agora estava na igreja. A que o povo dizia que tinha roubado a bolsa da comadre. A mãe da irmã do pai da inquilina nova da vizinha. O moço que acabara de sair da cadeia, onde cumprira pena por homicídio. Um coração como não se vê mais hoje em dia. O povo estranhava.
Nos últimos tempos, e durante muito tempo, era crente. Evangélica, de duas ou três igrejas. Mas conhecia as rezas. As coisas do metafísico. Sabia o que tinha do outro lado. E era feio. Por isso sua vida era uma louvação atrás da outra. De joelhos, orava e pedia perdão. Iletrada, pedia aos outros que lessem para ela as revelações contidas na Bíblia. Queria ensinar os outros como era bom seguir ao Jesus que ela cria. Os netos lhe ofereciam beijos na chegada e na partida de casa. No meio disso, era o alheamento.
E quer saber mais? Ajudava os velhinhos do asilo. Toda semana. Durante muito tempo. Depois parou. Canseira.
Foi caseira, muitos anos. Cozinhou, passou, lavou, arrumou, consertou. Vendeu roupas usadas na garagem, até que a prefeitura lhe mandou uma cobrança adicional no imposto por conta de uma placa que mandou botar na frente de casa. Foi santa, não. Se engana quem pensar. Nessa vida nossa, ninguém é.
Mas viver, viveu. E  como. E viveu bem. Viu, ouviu e falou muita coisa.
O enterro foi como queria. Na igreja. Coisa simples. Muita gente.
E, até hoje, diante de certas situações mal-explicadas, o povo da casa vaticina: ‘queria que ela estivesse aqui pra ver’.
Hoje faz aniversário. Vinte e oito de outubro. E é seu vulto que vejo descendo a escada da casa, sua roupa simples e seu jeito simples, parando no final da jornada, olhando pro céu e comentando por comentar: ‘vou molhar as plantas’.

Então, mando aqui meu abraço, minha velha. Feliz aniversário, dona Cida Café.

EU, O ELITISTA



Benilson Toniolo

O sujeito me chama de elitista. Diz que acha interessante me ver no bairro popular em meio aos ‘pobres’ –o termo é dele, não zanguem comigo. Diz que eu só conheço o povo através das aulas de Sociologia e dos livros. Não disse a mim diretamente, mas disse a outrem. Então, dou risada –o que mais posso fazer?
Meu pai foi um alagoano retirante, fugido da seca, da fome e da sede do sertão. Veio com a mãe, recém viúva, e uma montoeira de irmãos em pau-de-arara. Chegou em Santos e ficou. Foi analfabeto até a fase adulta quando, já casado, aprendeu a ler praticamente sozinho. Fez curso de eletrônica por correspondência no Instituto Universal Brasileiro, e varava as noites tentando decifrar os inúmeros manuais de tevê para consertar aparelhos de televisão inconsertáveis (se me permitem o neologismo) dos fregueses (na época, não se dizia 'clientes'). Foi servente de pedreiro, ajudante de barbeiro, dono de boteco e de loja de conserto de televisão e rádio, e por um tempo teve ponto de jogo-de-bicho. Foi proprietário de um Aero-willys, dois fuscas e um Dodge Polara amarelo. Quando morreu, há onze anos atrás, tinha acabado de ler Dostoiévski. Devo a ele minha paixão pela leitura. Minha mãe, santista filha de europeus, quando menina ajudava na pensão da avó, amanhecendo entre panelas, caçarolas e pias cheias de louça suja para lavar. Durante toda a vida, e até poucos anos atrás, passava roupa e costurava para fora, para ajudar nosso pai no orçamento de casa. Nunca reclamou. Foi fiel a ele e a nós, e assim é, até hoje.
Moramos na Vila Margarida e Parque Bitaru, em São Vicente, antes de nos mudarmos para a casa do tio Aldo, na Santa Rosa, no Guarujá.
Desde os doze, nosso pai nos levava para ajudar no bar. E lá ficávamos servindo bêbados, maconheiros, pescadores, jogadores de sinuca, gente boa e gente ruim.
A Santa Rosa era só lama, na época. Não tinha asfalto. O 'conga' que nos levava à escola era o mesmo dos passeios de domingo na casa dos primos.
Quando eu tinha quinze anos, meu pai adoeceu gravemente de uma duodenite seguida de tuberculose, e muita gente achou que ele não escapava. Escapou. Daquela feita, minha irmã me arranjou emprego de Office-boy num escritório de advocacia no centro de Santos para ajudar em casa. Saía do Escolástica Rosa, a melhor escola pública de Santos na época (que instituía uma prova chamada de 'vestibulinho' para poder receber e classificar tantas solicitações de matrícula de candidatos a alunos da Baixada inteira) às 12:35h, tinha que entrar no trabalho às 13h e fazia meu almoço no ponto de ônibus, torcendo para que o coletivo não demorasse, mas que me desse tempo de não ter que subir segurando a mochila, o misto frio e a lata de fanta laranja. Descia na Praça Mauá, ia para o escritório na Rua Riachuelo, catava um monte de processos, subia a Amador Bueno e ia para o fórum, checar o andamento dos processos. Era o ano do primeiro colegial, o atual primeiro ano do Ensino Médio, no qual fui reprovado. Química e Física. Fui para Conselho de Classe precisando de um ponto em Matemática para poder fazer a recuperação nas duas matérias. Não me deram o ponto. Bombei direto, como se dizia na época. Tive anemia e fui mandado embora do serviço. Foi a primeira vez. Viriam outras.
Entrei na faculdade de Hotelaria já em Campos do Jordão aos trinta e três anos, quando Bruno tinha três e, Leonardo, acabado de nascer. Antes disso, fui auxiliar de serviços gerais e vigia noturno, vendedor de curso de inglês, bancário (minha mãe tem saudade desse tempo até hoje), cobrador de consórcio, ajudante de copiadora, comerciante falido, gerente de clube. Tive uma carreira bonita na Hotelaria. Carreguei muita bagagem, dobrei serviço, tive que pagar diferença de caixa do bolso. Fui gerente de flat, conheci o Nordeste, morei em S. Paulo e passei alguns meses no Centro-Oeste.
Meu melhor carro é um Gol 2007, que é o atual, financiado em 48 meses. Antes dele, um outro Gol 1997 e dois fuscas caindo aos pedaços –na verdade, dois heróis que me tiraram de muitas enrascadas e me conduziam ao Pronto-Socorro nas frias madrugadas de Campos do Jordão, quando os meninos tinham alguma coisa -uma dor de barriga. Criança, como vocês sabem, é louca pra ter dor de barriga.
Uma vez, há muitos anos atrás, eu tinha muita dor de cabeça, e um médico que tinha consultório ali na Conselheiro Nébias disse que eu tinha aneurisma, que podia morrer a qualquer momento. Isso faz muito tempo. Viciei em dorflex. Mas como estou aqui até agora, desconfio que não é disso que me fino.
Neste momento, escrevo na escrivaninha da casa que eu e Simone financiamos. Trinta anos. A casa é nossa, portanto, desde que paguemos todas as mensalidades.
Escrevi nove livros. Tem mais um ou dois em andamento. Falo três idiomas, além do português. Pertenço a algumas entidades literárias e ganhei dezenas de prêmios. Faço palestras e traduzo livros do italiano para o português. É só ter tempo. Não me considero escritor, e apesar de minha formação –que considero pífia- acho que acertei quando resolvi não abandonar a literatura. E, como disse Borges, acho que o que li é mais interessante do que o que escrevi. Porque ler a gente lê o que gosta, e escrever, escreve só o que consegue.
Tenho muito a agradecer a Deus, principalmente pela mulher que Ele me deu por esposa e pelos viventes que me deu como filhos. Pela minha mãe que permanece forte e inquebrantável –um porto seguro garantido para quando a nau perder o rumo.
Minha história não é melhor nem pior que a de ninguém. São estas lutas que nos constroem e fazem a vida valer a pena.
E, o que é mais interessante: nunca tive aula de Sociologia.
Mas elitista, meu prezado amigo, com todo respeito, é a digníssima puta que o fez vir à luz.



sábado, 3 de agosto de 2013

DE VOLTA PRO ACONCHEGO




Depois deste episódio magnífico do ‘Milagre de Santa Luzia’, fico aqui pensando como será o céu dos artistas nordestinos. Mas os genuínos, aqueles que honraram verdadeiramente o legado que receberam da terra esturricada e do salitre dos mares esverdeados. Aqueles que foram fieis à sua história e à sua incalculável cultura. Neste céu não entram, obrigatoriamente, os cantores do Calypso nem do É o Tchan, além de outros do gênero. Mas entram os ‘meus’ nordestinos.
Imagino Dominguinhos, então, entrando nesse lugar que Deus há de ter preparado para que se pudessem juntar, na eternidade que lhes é devida, todos os seus pares, os que se foram há pouco, os que se foram há muito tempo, os que não foram ainda. Porque Deus deve ter essa competência e essa sensibilidade, de separar no paraíso um lugar privilegiado para essa gente que nasceu sob o signo da arte e da luta desmantelada pela sobrevivência. 
Dominguinhos deve ter chegado lá com a sanfona colada ao peito, numa osmose que se desenvolveu desde a infância. Com seu imenso sorriso, com sua voz baixa e grave, com sua cabeça chata, seu chapéu de bosta de rola, suas alpercatas, seu andar desengonçado.
E lá deviam estar a lhe esperar o Velho Lua, o Sivuca, o Patativa, e tantos outros. E lá no fundo seu velho pai, discreto, calado e distante, do jeito mesmo que é o jeito dos nordestinos sertanejos, os homens fortes e bravos do Nordeste brasileiro.

Assim como o seo Benício, do mesmo-jeito-mesminho, me há de me receber um dia.

domingo, 7 de julho de 2013

GASTRONOMIA E MÚSICA: UMA POSSIBILIDADE DE CRESCIMENTO E RIQUEZA

Mais do que a satisfação de uma simples necessidade fisiológica, o ato de comer, ao longo da história da raça humana, se transformou em uma ocasião de encontros entre pessoas.
Tudo muito diferente do pecado inicial, que se deu exatamente através da gula. Ou seja, se o mundo é o que é hoje, isto se deve exclusivamente ao ato de... comer. Claro que há outras implicações, digamos assim, e que levaram a pobre Eva a experimentar do fruto proibido, mesmo contrariando a instrução de Deus –que, convenhamos, não tinha nada que sair por aí criando uma fruta da qual não se podia saber o gosto.
Reunir pessoas em volta de uma refeição, entretanto, virou característica da condição humana. Certo, não somos os únicos animais que compartilham a comida com os outros da mesma espécie. Mas a verdade é que, ao longo do tempo, compartilhar a mesma comida tornou-se um hábito humano carregado de ancestralidade e simbolismos, e que se constitui em uma prática que, a cada dia, procuramos manter e, por que não dizer, aperfeiçoar.
Das refeições feitas por Cristo –que, é bom que se diga, vivia filando uma bóia na casa dos outros, e consta que gostava muito de se dedicar aos prazeres gastronômicos, chegando inclusive a multiplicar os peixes para que seu povo não sucumbisse à fome- aos indefectíveis churrascos dos dias de hoje, a gastronomia está para o homem como o dia para o sol: um não existiria sem o outro.
Ao longo dos tempos, foi ao redor de uma mesa, no compartilhamento de uma refeição, que impérios e países foram criados e dizimados, que se decidiu o futuro de gerações inteiras, que se optou por miséria e bonança, amor e ódio, nascimentos e homicídios, descobertas científicas e tragédias absolutamente estarrecedoras. Tudo porque, ao redor desta mesma mesa, entre mastigações, conspirações, descobertas de amor e arrotos disfarçados e explícitos, o homem dá de si aquilo de que é composto: os vícios e virtudes de sua condição.
Isso tudo porque, além de ser uma necessidade, comer é um ato de prazer que, mais notadamente nos últimos tempos, tem proporcionado ao homem a descoberta de uma gama de sensações que, por muito tempo, permaneceu senão desconhecida, mas pouco valorizada. Combinar sabores, cheiros, texturas, cores e sensações tem se constituído em uma das principais atividades presentes no cotidiano do homem moderno.
Cursos especializados despejam semestralmente no mercado de trabalho milhares de profissionais cuja maior especialidade é a de, através da imaginação e da criatividade, satisfazer de seus clientes somente um  desejo: o de se deixar surpreender. Nisto, e apenas nisto, no prazer da descoberta do novo, é que se caracteriza este ato, até então simples, de apenas satisfazer uma necessidade fisiológica. Comer, hoje, é sinônimo de bom gosto e status social. Você é o que você come.
Nesse sentido poderíamos dizer que a gastronomia virou arte. Mas não: a gastronomia se consolidou como arte, e como tal é reconhecida. E, e seus executores, verdadeiros artistas.
E partimos da sua elaboração para identificá-la desta forma. A imaginação do artista está presente na criação do prato, na escolha dos ingredientes, nos detalhes da receita (haverá estilo literário para isto?), no conhecimento da temperatura ideal dos equipamentos onde os alimentos serão preparados, no espaço (a cozinha, o palco) onde terá lugar a sua representação e a dos demais atores, e o momento final: de apresentar ao público a sua arte, no afã de ter descoberto o novo, o excelente, o surpreendente, o definitivo. O desafio do artista é o da superação. Nisto reside sua vida e seu trabalho.
Eis a cozinha, comparada a uma orquestra.
O maestro carioca John Neschling vaticina, em seu livro ‘Música Mundana’: “Não há ‘mais ou menos’ quando se trata de qualidade artística, e, portanto, não pode haver ‘mais ou menos’ na concepção e realização da Arte’.  É portanto neste momento que gastronomia e música se assemelham e se completam. Na elaboração da arte, no bom gosto, no preparo e na entrega do artista ao seu ofício, na satisfação do público e no seu desejo de voltar a consumir, numa outra oportunidade, o resultado deste trabalho.
Aí deixamos de desenvolver, então e somente, uma relação artística. Passamos a entender a gastronomia e a arte como uma troca que se dá, também, em linhas de comércio, uma vez que há quem a produza e, da mesma forma, há quem a consuma. Logo, temos uma troca capaz de gerar desenvolvimento social (através da formação profissional) e, por conseguinte, emprego e renda, fomentando o turismo segmentado (composto por um público amante e consumidor de Arte e Gastronomia) e proporcionando ao município a imagem de gerador de um produto diferenciado e de qualidade.
É possível pensar na tomada de ações por parte das iniciativas pública e privada no sentido de elaborar projetos comuns que abram esta vertente à economia local. O planejamento deve ser cuidadoso e priorizado na base, através da formação de bons profissionais, culminando com o estímulo ao seu desenvolvimento contínuo. Da mesma forma, pode-se avaliar a possibilidade de conceder incentivos aos empresários do ramo para que segmentem suas atividades, especializando seus estabelecimentos em diferentes nichos específicos e possibilitando ao consumidor final uma variada gama de opções, sempre de altíssimo nível e com valores de aquisição condizentes com o mercado internacional de alta gastronomia. Em paralelo, é fundamental o papel da propaganda e da mídia.
Uma vez que a relação música-gastronomia está completa, nada melhor que ambas se correlacionem continuamente, não através de ações isoladas como, por exemplo, festivais pontuais, mas com uma programação permanente e diferenciada, que caracterizam o destino turístico como referência em qualidade tanto nos produtos oferecidos quanto nos serviços prestados. 
Tudo isto demanda empenho e trabalho, características fundamentais para a criação de novas possibilidades de crescimento e riqueza.

Porque, como já nos alertou Neschiling, na Arte como nos negócios não existe ‘mais ou menos’.

Benilson Toniolo

domingo, 9 de junho de 2013

DOMENICÊNCIAS

O discurso democrático e libertário dos gurus da internet é só isso: discurso (Jaron Lanier)

À hora a que me disseram que tinhas morrido, ainda não havia estrelas. Ainda não havia noite para te chorar –e é à noite que eu choro. Não fui ao teu enterro. Não me apoiei nos outros em frente ao teu caixão para te chorar. Não te chorei. Não fui a tempo –e há um tempo para isso. Não te vi a subir a uma estrela, não te vi a rir lá de cima –porque, mais uma vez, eu estava atrasado. Cheguei a casa e fui procurar as tuas fotografias, as fotografias da nossa viagem. Guardei-as dentro de um envelope grande no qual escrevi “Sahara, 1987” e meti-as dentro de uma gaveta, num armário. Desde então, mudei algumas vezes de casa, mudei até de vida outras vezes, e as fotografias continuaram sempre dentro desse envelope, na gaveta, no mesmo armário. Vinte anos. Só ontem é que voltei a vê-las. Só ontem é que percebi que tinhas morrido.

Este, o belíssimo final de ‘No teu Deserto’, de Miguel Sousa Tavares, que Simone terminou de ler na noite de ontem, e que ela definiu como ‘muito bonito’. E é mesmo. Uma avaliação destas, vinda de Minha Luz, é um elogio e tanto. Se um dia eu conhecer o autor, contarei a ele.

Caio Dib é um jovem brasileiro de 22 anos que atravessa de ônibus as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste em busca de conhecimento sobre o que está realmente sendo feito pela, e na, Educação brasileira. Já gastou até o momento seis mil reais do próprio bolso, e acredita que vai ter que desembolsar mais, pelo alcance e pela dimensão do que tem encontrado. Tem grana e tempo livrem, pelo jeito. Bom. Visita escolas, conversa com diretores e professores, bate papo em hotéis, rodoviárias, padarias, praças, ônibus, sempre sobre o mesmo assunto: educação. Descobriu grandes pérolas, como o fato de algumas escolas do Ceará terem já atingido resultados que estavam para ser alcançados, pela previsão inicial, em 2020. Seu objetivo é, encerrando a ‘turnê’, escrever dois livros. Diante deste, não tenho dúvidas em afirmar que Caio Dib é hoje uma das pessoas mais preparadas para assumir o Ministério da Educação. Caio Dib para Ministro, já! E olhe que ele nem precisa de mesa, nem de gabinete, de assessor, para saber mais de Educação do que aquele que atualmente ocupa a Pasta. É só botá-lo dentro de um ônibus. O resto -e o que é o mais difícil de encontrar- ele já tem, e de sobra.

Deu na SIC: representantes dos setores público e privado do Brasil invadiram Portugal em busca de profissionais qualificados para trabalhar aqui. Vale tudo: engenheiro, eletricista, médico, dentista, professor, arquiteto, decorador, o diabo. Falta de investimento em educação costuma dar nisso: remete sempre a atraso e prejuízo. Fica bem mais caro buscar profissionais lá fora do que formá-los aqui dentro. Com o agravante que, certamente, grande parte deles deve voltar rapidinho para casa tão logo a situação por lá se normalize. Afinal, é sempre melhor estar em casa própria que na dos outros. Mais ou menos assim: ‘vou ali no Brasil ganhar um dinheirinho, que aqui anda em falta, e volto’. Sim, ainda somos colônia.

Para quem, como eu, pouco ou nada sabe de política econômica, sugiro o artigo de Vinicius Torres Filho, no Mercado de hoje, intitulado 'Tomates, Ônibus e Jeitinho'. O autor discorre com muita propriedade sobre a situação econômica brasileira, de Lula aos dias de hoje, e arremata: ‘se o governo fosse arrumar a casa para valer, haveria choro e ranger de dentes. Na melhor das hipóteses, porém, vai dar apenas uma varrida nas bobagens piores que fez. Talvez o ajuste venha em 2015, sob Dilma Rousseff ou outro encarregado. E assim vamos levando a nossa vida medíocre, com jeitinho’.

Quando os gestores se omitem, sobra para o mais fraco. No que diz respeito à violência, chama a atenção a matéria sobre os seguranças privados que são contratados por escolas e faculdades paulistanas para atuarem na via pública –o que, como todo mundo devia saber, é atribuição do Estado. Segurança privada, em geral, trabalha intramuros, com exceções dos casos de serviços específicos autorizados e supervisionados pela Polícia Federal. A função destes trabalhadores que atuam nas ruas em voltas das escolas é comunicar a uma Central a existência de suspeitos que representem algum tipo de perigo para os estudantes durante a entrada e saída das aulas. Na matéria, tanto a Escola quanto as empresas contratadas alegam desconhecer o assunto, e que estes trabalhadores não são seguranças, e sim apenas observadores. Até que aconteça o primeiro homicídio envolvendo algum deles, que serão enterrados com razoável dificuldade financeira, sem honras militares e tendo ao fundo as declarações de ‘lamentamos o ocorrido...’ que devem pronunciar as escolas, que não sabiam de nada, e as empresas de segurança, que pensavam que não era bem assim e provavelmente dirão que o funcionário morto não 'compreendeu a instrução passada por seus superiores'.

Mais um artigo, desta vez o de Clóvis Rossi, sobre o fato de o FMI ter admitido, ainda que subjetivamente, que cometeu um erro no programa econômico imposto à Grécia. Clóvis cita o artigo do líder grego Nigel Farrage, no The Telegraph, que diz que ‘a Grécia foi sacrificada no altar de uma fracassada experiência do euro, sua comunidade de negócios dizimada, suas famílias levadas à penúria, sua taxa de suicídio furou o teto (subiu mais de 40% no período da crise). O desemprego quadruplicou, o desemprego juvenil está em 64%. Sonhos foram destruídos, o futuro hipotecado – e as esperanças deixadas apodrecer em campos de oliveira não cuidados’. Um final poético e melancólico, afinal, posto que, como sabemos, aceita tudo esta egípcia invenção chamado papiro (pelo menos assim nos ensinou o Ettore Quaranta, em 1982, no Santa Rosa). Se essa não é uma descrição de genocídio social, já não sei definir o que é genocídio social. Isto quem diz não sou eu. É o Clóvis. Santo papiro.

Moreira Franco, sociólogo e Ministro da Aviação Civil, põe a culpa dos problemas aeroportuários no Brasil na ditadura, na burocracia (necessária para conter gastos, segundo ele) e, acreditem, em São Pedro. Imagina na Copa. Ah, sim, e pede desculpas pelos passageiros que tiveram problemas no Santos Dumont, na última semana. Traduzindo: não adianta reclamar deste problema. Passemos a outro imbróglio, portanto, que para este, da forma como hoje se apresenta, e segundo o Ministro, não há solução.

O Ferreira Gullar de hoje está para colecionador. Se não, vejamos: ‘meus poemas nascem do espanto, de algo que põe diante de mim um mundo sem explicação’. Este, vai para os guardados.


Xico Sá, de novo: ‘homem que é homem não sabe,  e nem procura saber, a diferença entre estria e celulite’.

sábado, 8 de junho de 2013

SABATINAÇÃO - 08/06/2013


 Também a moral é uma questão de tempo (Gabriel Garcia Marquez, Memória de Minhas Putas Tristes)

Amanheci o dia ligando para a Folha. Sem jornal, de novo. Fiz a assinatura há menos de um mês para receber meu exemplar somente aos sábados e domingos, e esta é a quinta vez que não recebo. Reclamo de novo, ameaço cancelar a assinatura, recorrer ao Procon, aquilo que todo mundo já sabe. Peço para a mocinha do atendimento fazer o favor de ligar para o responsável pela distribuição para ele voltar aqui e deixar o jornal pelo qual estou pagando, ela avisa que não tem jeito, e o que não jeito, remediado está, assim aprendemos, cordatos e compreensivos que somos. Eis que, um tempo depois,  Leonardo descobre o jornal pendurado no telhadinho do portão. Ou seja, o jornal veio, mas foi arremessado e acabou por cair em lugar indevido, e eu, que não tenho o hábito de olhar para cima para ver o que é que anda caindo sobre minha casa, não reparei. Feito o resgate, que Simone providenciou sem que eu perguntasse como, torno a ligar, pedindo desculpas pelo incômodo, e pedindo um novo favor à outra mocinha: peça ao rapaz a gentileza de arremessar o jornal em um lugar em que a gente enxergue –e alcance. Mas sem machucar ninguém.

Dilma vai a Lisboa em viagem cultural. De quebra, vai se reunir com o governo de lá para auxiliar na participação de grupos financeiros brasileiros durante a privatização da TAP e da empresa de Correios. Vou precisar de uma aula de política para entender certas coisas. O que aconteceu com a aversão petista às privatizações? Não é justamente por conta deste posicionamento que nossos aeroportos, por exemplo, estão na situação precária em que se encontram –um modelo aterrorizante de ineficiência, incompetência e inércia? Pelo jeito, o que é bom para Portugal não é bom para o Brasil.

Ainda ela: os dados das viagens internacionais da Chefa do Executivo não mais serão disponibilizados à população. Questão de segurança, dizem. Nada, absolutamente nada, que tenha relação com o constrangimento causado pela ocupação de 52 apartamentos em um hotel de Roma, em março último, pela comitiva da Presidenta, quando da posse do Papa Francisco. Para compensar, algum tempo depois, em viagem à Etiópia, foram usados apenas três apartamentos pela comitiva. Também, que bela porcaria que deve ser esta tal de hotelaria etíope. Nem Piazza Navona lá deve ter.

As apostilas disponibilizadas pela Secretaria de Educação do Rio de Janeiro aos alunos e professores da rede municipal apresentam erros crassos em operações de soma. Por muito menos que isso, na minha época, a gente levava reguada na cabeça sem direito a choro, da dona Esperança, nossa professora gigante e com brincos de argola e sobrancelhas enormes. Não fica só nisso. A capital de Pernambuco é Belém, a da Paraíba é Manaus,  e a sigla do mesmo Estado virou PA (o que será que fizeram com a do Pará?). O pessoal lá da Secretaria esclareceu que ‘a produção é feita com a supervisão de sua área técnica e de consultores de áreas das principais universidades federais do Rio’. Ah, bom. Com relação à questão das capitais, fico imaginando a dona Esperança, com o devido vestido verde, se dobrando de tanto rir da nossa cara estúpida. Pois é, professora, a senhora tinha que estar vendo isto. Tomara que esteja.

Mas se bem que, no caso da Folha, que outro dia grafou um ‘sombril’ na capa da Ilustrada, esta matéria sobre as apostilas no Rio vieram bem a calhar. É uma bela forma de dizer ‘a gente erra, mas tanto assim, não’.

Essa questão indígena é um desmantelo, como diria seo Benício. Tem cheiro de trapaça, e das grandes. Convivi com alguns durante os meses em que trabalhei em Cuiabá e sei que, de bobo, a indiada não tem é nada. Conhecem lei, conhecem seus diretos e sabem exatamente o que fazer em cada uma das situações em que são desconsiderados. Agora, o que não dá pra entender é a mínima repercussão sobre a morte do terena durante a reintegração de posse da fazenda Buriti, no Mato Grosso do Sul, numa operação que, segundo o jornal, não respeitou o que é determinado pela própria Polícia Federal. O índio morreu com um tiro nas costas, assim como aconteceria cinco dias depois, em operação parecida, também conduzida pela PF, com outro índio que até o momento, pelo que constam, ainda está vivo. A nota ruim da reportagem é não haver nenhuma declaração de representante dos índios, ao contrário da RTP que, no jornal da noite esta semana, cobriu a notícia com uma entrevista com um dos líderes dos invasores. Isso ainda vai dar pano pra manga. A Constituição de 88, que me conste, assegura os direitos dos índios à terra, à cultura e às tradições. Como pretendemos avançar sem respeitar os direitos de todos? Como bem disse a senadora Kátia Abreu, ‘a situação está fora de controle’. Prudentemente, a presidente da Funai afastou-se do cargo, por questões de ordem médica –compreensíveis, é bom que se diga, uma vez que teve seguidos afastamentos nos últimos meses para tratar da saúde. Mas é mais uma cumbuca em que nossa itálica Presidenta será obrigada a enfiar a mão, tão logo retorne do jantar de gala que lhe será oferecido pela corte portuguesa. E que ela faça o favor de provar  o forte gosto do Porto que lhe for servido, menos espesso que os sangue dos terenas que têm manchado o solo de nossa mãe, que já foi bem mais gentil, como diria o burro do Schrek.

O artigo ‘Selva de Bestas Assassinas’, do diplomata e escritor Alexandre Vidal Porto (nunca tinha ouvido falar, eu e essa minha ignorância sem remédio, Chicó) é uma porrada. Transcrevo: ‘As penas alternativas e medidas socioeducativas ajudam, mas não podem servir como paliativo para problemas como sobrecarga judicial e superlotação prisional. A experiência parece indicar que, em situações de violência endêmica grave, como a brasileira, o caminho a seguir é inverso ao da flexibilização das penas. Não podemos tratar tuberculose com aspirina. Qualquer aluno de direito aprende que lei sem sanção não tem eficácia. Não é porque a criminalidade tem causas vinculadas à injustiça social que ela deve ser tolerada. É uma questão de vida ou morte. As autoridades brasileiras têm obrigação de proteger os cidadãos. Se não o fazem, não estão à altura dos cargos que detêm. Uma cidade em que se pode ser queimado vivo é como uma selva em que se pode ser comido por leões. Parece que nossas cidades se tornaram em uma selva de bestas assassinas. Não dá pra deixar assim’. Lúcido, objetivo e pontual. O que falta hoje em dia.

Xico Sá: não sei o que é pior: o rebaixamento ou o zero a zero.

Falando em zero a zero: em uma semana de virose inédita, com otite, amigdalite, conjuntivite e sinusite, com pouco repouso, muito antibiótico e muita leitura, lancei mão de um grande médico para me acompanhar no estaleiro: João Guimarães Rosa e seu Sagarana, que muita gente diz ser sua obra definitiva, ao invés do Grande Sertão. A travessia até o fim da licença médica, se não melhora a saúde, fica mais prazerosa. Valeu, João - que a gente ainda não descobriu se existiu ‘de se pegar’,  como vaticinou o Poeta Maior.


Hoje, no lugar da indefectível ração para pássaros comprada na loja, peguei um mamãozão meio estragado que estava na banca de frutas da praça. Caro, quase quatro reais. Mais caro que a ração, sem dúvida. Mas valeu o resultado:  neste momento, pouco depois das quatro da tarde, cinco tirivas, dois sanhaços e um anu branco se debruçam sobre a fruta, enquanto os colibris disputam o espaço aéreo do potinho de água levemente adocicada (se não, dizem, dá câncer nos bichinhos). Como eu já disse, num dia de inspiração manoelina, os passarinhos são os verdadeiros anjos de Deus.

Cartas para Ouricuri, Salerno e Estados Unidos. E Itajubá, aqui do lado.